
Márcia Lage
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O filho único da mãe viúva está para morrer de desespero. Homossexual, ele deixou a família ainda bem jovem, por desavenças com o pai, que o discriminava violentamente. Estudou várias coisas, mas não conseguiu fazer carreira em nenhuma atividade. Então, tornou-se monge, isolou-se numa montanha e viveu vida espartana, sem pensar em dinheiro.
Quando a mãe começou a dar sinais de demência ele teve que voltar para o mundo das dificuldades terrenas. Viúva e com pensão de apenas um salário mínimo, ela vivia perigosamente só numa casa pequena do interior. Ele fez o que achou mais sensato: vendeu a casinha, comprou um apartamento de dois quartos numa cidade próxima, com bons serviços de saúde e ótima qualidade de vida.
Ronaldo acreditava que seriam mãe e filho novamente juntos, mas descobriu logo que desempenharia muitos papéis na delicada relação que se altera diariamente. A mãe pouco a pouco vai perdendo as habilidades e, dois anos depois do reencontro, mal dá conta de fazer a própria higiene. No mais, depende dele para todo o resto.
As inúmeras funções que ele tem que exercer na solitária missão de cuidador o impossibilitam de trabalhar. E o dinheiro da pensão dela não é nem de longe suficiente para pagar o condomínio, as contas de luz e gás, a comida do dia a dia e os medicamentos que ela toma.
O filho adoece junto, exaurido e amedrontado de envelhecer ainda em situação pior. Já tem idade para se aposentar, mas nunca contribuiu para a previdência social. Quando a mãe morrer, não terá quem cuide dele, pois não teve descendentes. E está perdendo amigos, de tanto pedir ajuda financeira para cobrir os deficits que se acumulam na difícil administração do pouco recurso.
Tudo que ele queria é uma creche para a mãe. Um lugar aonde ela pudesse passar os dias com cuidadores especializados e oferta de alimentação e lazer que o liberasse para trabalhar. Mas isso não existe na cidade onde moram. Só um asilo sem vagas. Na cidade ao lado o serviço existe. Mas ele não tem carro para levá-la e de ônibus é inviável.
Exemplos como do Ronaldo foram debatidos nesse sábado(9), num evento virtual de preparação para a V Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, a realizar-se de 16 a 19 de setembro em Brasília. A inclusão da população LGBT, das trabalhadoras rurais, das indígenas e quilombolas nas políticas públicas a serem traçadas para os idosos faz parte da pauta a ser apresentada às instituições públicas. Com foco, principalmente, nos cuidadores domésticos.
A maioria deles tem que deixar de trabalhar para se dedicarem aos idosos da família. Muitos são também maiores de 60. E sete entre cada 10 aposentados brasileiros ganham menos de dois salários mínimos.
O documento aprovado nesse sábado propõe que os cuidadores familiares sejam remunerados e possam contribuir com a Previdência Social, para que, chegada a hora deles serem cuidados, haja recursos e espaços públicos e gratuitos para acolhimento dos mais necessitados, em todos os municípios brasileiros.
O sonho do Ronaldo, de uma creche para a mãe ficar protegida enquanto ele trabalha, faz parte do caderno de sugestões que a Conferência das Mulheres Idosas vai apresentar ao governo.
O que se pede é a ampliação do olhar público para as graves questões econômicas e sociais que o crescimento vertiginoso da população idosa demanda, incluindo geração de emprego e renda, educação continuada e capacitação profissional, implantação de centros dia, núcleos de convivência e centros de convivência intergeracional, além da ampliação das Instituições de Longa Permanência, para que todo idoso tenha onde viver seus últimos anos, com dignidade e respeito.
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