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A nostalgia e o saudosismo são caminhos certos para a frustração e a derrota. Se o presente não está bom, de nada adianta lamentar pelo passado. Quem viveu e aproveitou, que celebre e agradeça, mas viva o agora e vá em frente. Quem não, não adianta botar a culpa no passado e na ameaça do futuro.
Trecho da crônica do jornalista e escritor Nelson Motta sobre a importância da memória, principalmente para dar vida às boas lembranças. Mas a vida, ele lembra, está no presente, no agora.
“A memória é nosso patrimônio de vivências, podemos lembrá-las com prazer, mas sem querer repeti-las, porque já foram vividas e nunca serão iguais” – diz ele.
Leia a crônica completa, publicada em O Globo:
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As pessoas têm saudade das músicas de sua geração, não só porque eram jovens e felizes, mas também porque se sentiam modernas. O envelhecimento é biológico, mas ficar antigo é cultural, e ninguém está condenado a ele. O sentimento de se sentir ultrapassado, antiquado, com conceitos superados, é doloroso. E inescapável para quem fez suas más escolhas, pelo conservadorismo, os preconceitos, a inveja dos mais jovens.
Feliz de quem pode dizer não ter saudade de nada, porque fez tudo que queria e podia em cada tempo. Triste de quem coleciona frustrações, decepções, invejas, culpas e arrependimentos, diante do futuro, sem compreender o presente e suas transformações, reagindo a elas negando-as.
Muitas vezes um mau momento da cidade, ou do país, leva a comparações com tempos melhores, mas só a parte boa, a um saudosismo fake old news. Parece que o passado foi sempre melhor.
O Rio de Janeiro, por exemplo, nos anos 1950-60, era a cidade maravilhosa à beira-mar nos seus anos dourados, mas faltavam água, luz e telefones. A Lagoa era de água limpa, mas cercada de favelas e margeada por matagais e mosquitos, sem jardins, sem ciclovia e pista de caminhada, sem iluminação noturna. Então não era o paraíso perdido, era bem pior.
A nostalgia e o saudosismo são caminhos certos para a frustração e a derrota. Se o presente não está bom, de nada adianta lamentar pelo passado. Quem viveu e aproveitou, que celebre e agradeça, mas viva o agora e vá em frente. Quem não, não adianta botar a culpa no passado e na ameaça do futuro.
A memória é nosso patrimônio de vivências, podemos lembrá-las com prazer, e revivê-las, mas sem querer repeti-las, porque já foram vividas, e nunca serão iguais. Novas lembranças virão. As ruins, claro, devem ser evitadas, mesmo que tentem invadir nosso presente, porque são passadas, e pelo que já ensinaram. A memória pode ser nutritiva ou dar fome, ser paralisante ou libertadora. Sua principal função não é lembrar, mas esquecer. Do contrário todas viriam ao mesmo tempo, criando um caos de informações que inviabilizaria o raciocínio e as sensações. Nosso disco rígido cerebral tem limites de armazenamento e precisa selecionar o que arquiva.
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Nossas sensações de felicidade dependem da capacidade seletiva de memórias boas, enquanto vivemos o presente e criamos novas memórias que constroem a nossa história pessoal, que só nós sabemos, mas determinam como nos relacionamos com as pessoas e o mundo real.
Ter saudade e sentir falta são coisas diferentes, falo das grandes perdas irreparáveis e inesquecíveis, vazios impreenchíveis, e de se sentir feliz lembrando momentos felizes, mas não sentir sua falta, sua necessidade, repetição, como experiências bem-sucedidas.
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É sobre amadurecimento, envelhecimento, enfrentamento dos obstáculos e armadilhas para não ser refém do passado, feliz ou infeliz, mas irremediavelmente passado. Muito diferente de sua história pessoal, ou de sua narrativa dela, que é feita de perdas e ganhos, memórias e desejos, e começa a cada dia.
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