“O erro de fazer 70 anos”

Por Maya Santana
Mark Twain: ‘Logo agora que mais preciso, começo a esquecer o sobrenome de Jesus’

Mark Twain: ‘Logo agora que mais preciso, começo a esquecer o sobrenome de Jesus’

Odemiro Fonseca, O Globo

Um famoso técnico de beisebol nos EUA fez 70 anos, ganhou o campeonato nacional e logo em seguida foi mandado embora. A explicação foi que ele estava velho: “Nunca mais cometo o erro de fazer 70 anos”, comentou.

Mas ameaça maior está na Bíblia. “Setenta anos é o tempo de nossa vida”, escreveu Moisés. Logo ele que viveu 120 anos!

Setenta anos é um marco decisivo. O governo acha que você é velho depois de 60, algumas empresas depois dos 65, mas depois de 70, ninguém tem mais dúvida.

Podem restar convites para os velhos serem conselheiros. Mas, há 370 anos, La Rochefoucauld já achava que essa historia de velho sábio era cascata: “Homens velhos gostam de dar bons conselhos porque não conseguem mais dar maus exemplos.” E avô, que hoje anda com a foto dos netos no telefone, não as mostra sem se lembrar de Lebowitz: “Uma coisa boa em favor das crianças é que não saem por aí mostrando a foto de seus avós.”

Surgem lapsos de memória, particularmente com nomes. Quando envelheceu, Mark Twain desesperou-se: “Logo agora que mais preciso, começo a esquecer o sobrenome de Jesus.”

E a nova culpa ocidental dos velhos? Pelo déficit das previdências, dos sistemas de saúde? Será que Sobral Pinto tinha razão? Governo não presta para cuidar de velho?

Mas talvez a maior frustração dos que fizeram 70 anos é de não viverem agora num Brasil desenvolvido, o sonho jovem dos anos 60. Os futurólogos de hoje dão como certa a chegada ao Primeiro Mundo daqui uns 30 anos. Muito tarde.

Mas existem compensações: o ano de 1968, Pelé, Garrincha, Brasil penta, Beco das Garrafas, Tom Jobim, festivais da Record, redemocratização. Convivem com filhos e netos melhor do que conviveram com os pais e avós. Os brasileiros hoje são mais livres, mais tolerantes, vivem em uma sociedade de acesso mais aberto.

Na banalização dos chamados “direitos dos idosos”, alguns ajustes de conduta são necessários aos velhos e nada mais útil do que ler todas as manhãs esta oração de freiras do século 17:

“Senhor, muito melhor do que eu, sabes que estou envelhecendo e logo serei velho. Poupe-me do hábito nefasto de falar sobre tudo, em todas as ocasiões. Não permita que eu tente ajudar todo mundo. Faça-me solícito mas não rabugento. Prestativo mas não mandão.

“Velhice traz sabedoria e é uma pena eu não usá-la, mas, Senhor, sabes melhor do que ninguém que quero ter alguns amigos ao redor no final.

“Livre minha boca de recitar longos detalhes. Dê-me asas para ir ao ponto. Sele meus lábios sobre minhas dores. Não mereço a graça de gostar das histórias dos outros velhos, mas ajude-me a ser paciente.

“Não ouso pedir melhor memória, mas sim mais humildade e menos vaidade quando minha memória se chocar com a memória dos outros. Ensine-me que às vezes posso estar enganado.

“Faça-me razoavelmente bondoso. Não quero ser Santo — com alguns santos é tão difícil conviver —, mas um velho amargo é mais perfeita obra do demônio. Surpreenda-me, Senhor, com belezas inesperadas e talentos escondidos. E Senhor, dê-me a graça de saber expressar tais surpresas. Amém.”


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2 Comentários

W. Tremeska 3 de abril de 2015 - 06:02

Texto fantastico !

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José Alberto Dias Lopes 1 de abril de 2015 - 14:02

Ha muito, não via tanta sabedoria. O que me impressiona é que quem escreveu, sabia o que dizia, portanto já atigira os 70.

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