O fantasma de Frida Kahlo, por Déa Januzzi

Por Maya Santana
"Já me cortaram e remontaram inúmeras vezes"

“Já me cortaram e remontaram inúmeras vezes”

Hoje amanheci com a síndrome de Frida Kahalo, com vontade de pintar o mundo ao contrário, com rasgos de vermelho. Comecei procurando entre os guardados uma colcha dessas bem rubras, confeccionada nos tempos em que Amélia, minha mãe, ainda tecia crochê. Era uma colcha para cada filha que ia casar. Depois, uma para cada neto que nascia, como se a história da família ficasse registrada nos pontos de crochê. Os losangos, quadrados e círculos da colcha terminavam em longas franjas. Mas fui a primeira filha a pedir uma vermelha, sob os olhares atônitos das outras irmãs. Atendendo a meu pedido de ter uma colcha da cor da paixão, minha mãe não hesitou – entrelaçou pontos vermelhos. Usei pouco a colcha depois de pronta, que ficou guardada durante muitos anos até que amanheci em crise.

Em nome de Frida Khalo, revirei a casa inteira e encontrei a colcha entre outras brancas e beges, de cores mais amenas. Corri para o quarto do filho e cobri a cama com a colcha vermelha. Mas não era bem isso o que eu queria, então, me enrolei toda. Transformei a colcha na manta da loucura, das cicatrizes não curadas – e me senti a própria Frida Khalo, quando, de repente, o filho chegou. Perguntei, então, quem era Frida Khalo para ele, pois ele tinha assistido ao filme há pouco tempo.

A resposta me surpreendeu: – Ela sabia viver”, disse o filho. “Quando estava triste, mostrava tristeza. Se estava alegre, não escondia a alegria. Tudo o que ela queria fazer, não hesitava. Enfrentava o grande, o pequeno. Ela não pintava academicamente, mas com o coração. Ela via o mundo de uma forma muito apaixonada”, ia dizendo o filho enquanto a mãe se transformava debaixo daquela colcha de crochê vermelha, que ia impregnando a sua pele com o poder de Frida.

Entardeci com a colcha, como se fosse a minha segunda pele. Andei pela casa enrolada ao fantasma de Frida. Deixei que ele entrasse pelas frestas do meu coração, para me ensinar sobre a dor e o desespero que eu já havia encontrado em outras mulheres, como Janis Joplin, Elis Regina, Virgínia Wolf e outras guerreiras anônimas que também sentiram frio de amar, mas deixaram seus tormentos registrados em música, na escrita, nas telas ou no silêncio de suas vidas, entre quatro paredes.

Imediatamente me veio à cabeça o diálogo de Frida com Leon Trotsky, nas ruínas astecas. Quando ele pergunta como é conviver com a dor, ela responde: “Não dá nem para explicar direito. Já me cortaram e remontaram inúmeras vezes. Pareço um quebra-cabeça. Tudo dói, mas estou bem”. Trotsky, então, observa: “É isso que eu adoro em seus quadros”, pintados com sentimentos, com fortes pinceladas de paixão.

Enrolada na manta, descobri que Frida pode ser qualquer uma de nós, mulheres que fizeram do trabalho, das paixões, na casa, da luta, da dor ou da alegria, territórios abertos de criação e de redenção.

Anoiteci com a síndrome de Frida Khalo, enrolada na colcha. Tingi minha alma de vermelho, apesar de nunca ter mexido com pincéis e tintas. Mas ainda bem que tenho as palavras para pintar esse espaço com as cores da emoção, onde escrevo, sem medidas, onde me recorto, me estraçalho e me despedaço, para voltar sempre inteira.

Essa crônica de Déa Januzzi foi publicada originalmente no jornal Estado de Minas, com o título “O Fantasma de Frida”.


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2 Comentários

monica minelli 26 de maio de 2014 - 01:27

É bom e necessário ser Frida,,,, neste mundo high tech,,, sem olhares e sem alma.
As pessoas so sabem teclar,, e teclar compulsivamente !!!!Que dó.
Bj

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Dirce Saleh 25 de maio de 2014 - 20:56

Dea, boa noite, amiga neste texto bem subjetivo, vc retrata o que seu filho respondeu sobra a Frida:
” Ela sabia viver”, disse o filho. “Quando estava triste, mostrava tristeza. Se estava alegre, não escondia a alegria. Tudo o que ela queria fazer, não hesitava. Enfrentava o grande, o pequeno. Ela não pintava academicamente, mas com o coração. Ela via o mundo de uma forma muito apaixonada” E vc tb pinta pois entre as artes o que retratamos é o sentimento
Ai entendi sua fala, amiga: Frida pode ser qualquer uma de nós, mulheres que fizeram do trabalho, das paixões, na casa, da luta, da dor ou da alegria, territórios abertos de criação e de redenção.
No seu cotidiano te acho a Frida rsrsrs. Excelente maneira de um dia estarmos frente a nós mesma.
Bjs
Dirce Saleh

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