
Márcia Lage
50emais
Fiz tanto estardalhaço com as fraudes no INSS que tenho de ser justa agora: a instituição me devolveu o total que me foi subtraído sem meu consentimento, por uma empresa que sumiu do mapa.
A correção foi pífia: 14 reais sobre um rombo total de R$ 474,58. Meu conhecimento de matemática não é suficiente para descobrir que índice foi aplicado, depois de um ano entre os saques não consentidos e a restituição.
Desconfio que não foi nem o índice da poupança. Por isso guardei o dinheiro nessa modalidade de investimento (a mais baixa de todas) para ver quanto vai render daqui a um ano. Só então terei ideia do quanto perdi de fato.
Espero que a polícia federal esteja atrás desses golpistas. E que eles indenizem a União pelo empréstimo de quase 6 bilhões que tomaram do povo, obrigando o INSS a bancar o prejuízo dos seus segurados, sabe-se lá a que custo.
Até julho, o governo já havia devolvido quase 230 milhões desse roubo. Ainda tem muito a devolver e é justo que cobre das empresas fraudadoras juros e correção monetária, nos índices do IPCA ou da Selic. Não é assim com os bancos?
Quando fazem empréstimos consignados aos aposentados e pensionistas, cobram juros médios de 1,75% ao mês. Esses juros vão se acumulando em prazos longuíssimos de até 70 meses.
Por quase seis anos o beneficiário compromete um terço do seu salário com parcelas fixas mensais que nunca são reduzidas, mesmo se ele antecipar parcelas. A única coisa que diminui para ele é o tempo de liquidação do empréstimo. Se não antecipar nada, vai pagar ao banco três vezes mais do que contratou.
A regra devia valer para a devolução das fraudes, você não acha?
O mais estranho de todo o procedimento é que, para aceitar o valor restituído pelo INSS, o prejudicado tem de abrir mão de qualquer ação na justiça contra as empresas e instituições fraudulentas. Um tipo de anistia antecipada.
Eu resisti a assinar o acordo. Só o fiz porque recebi do Tribunal de Pequenas Causas duas cartas dizendo que minha ação tinha sido “inexitosa”, porque a empresa que me fraudou não foi encontrada para receber a intimação. Em nenhum dos endereços que anexei ao processo.
Assim, data venia, encerravam meu caso. E que eu ficasse satisfeita com a generosidade do governo em tomar minhas dores e devolver o roubo com correção de 14 reais em um ano.
Aceitei contrariada. Em menos de uma semana o dinheiro estava na minha conta. Veio como benefício a mais.
Só falta ser acrescido ao imposto de renda e a Receita Federal transformar a generosidade em dívida. Deus me proteja!
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