
Miriam Moura
Março é o mês em que a temática da desigualdade de gênero toma conta da esfera da internet, em função do Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 8. Neste início do segundo quarto do século 21, ainda persistem no Brasil como em muitos outros países, muitas assimetrias quando se fala em oportunidades, direitos e poder para homens e mulheres.
Estimativas registram que as mulheres brasileiras ganham, em média, 78% do rendimento dos homens e enfrentam maior informalidade, além de arcar com o dobro de horas em trabalhos domésticos. Há vários outros tristes dados que comprovam a disparidade e desequilíbrio de condições para mulheres e homens.
No mercado de trabalho e renda, mesmo sendo maioria em curso superior, ainda há sub-representação em cargos de liderança, com menores salários em funções equivalentes. Isso sem falar no feminicídio, o mais assustador dos rankings, no qual o Brasil atingiu níveis recordes em 2025.
Meu objetivo aqui na coluna é abordar algumas questões no âmbito da sociologia da cultura, literatura, teatro e outros que trazem reflexões e estimulam debates e polêmicas sobre o tema. Quero começar trazendo à tona a teoria do “sexo frágil”, que desinforma homens e mulheres há séculos, além de servir como uma ferramenta de perpetuação de desigualdades de gênero.
A teoria é uma construção cultural e social histórica que rotula a nós, mulheres, como seres delicados, vulneráveis, passivos e emocionalmente frágeis. A masculinidade, em contraste, é considerada forte, ativa e racional. Mesmo que a visão seja refutada por muitos estudos históricos, sociais e biológicos contemporâneos, ela ainda influencia corações e mentes, e não só masculinos.

Segundo comprovou pesquisa realizada em 2018 da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, EUA, os homens são o verdadeiro sexo frágil. O estudo contrapõe o senso comum de que as mulheres são mais “fracas” em termos de resistência. Os autores mostraram que durante momentos históricos em que ambos os sexos enfrentaram altos níveis de mortalidade, as mulheres sobreviveram entre seis meses a quatro anos a mais do que os homens
Vale destacar o papel exercido por Simone de Beauvoir. Um de seus livros mais conhecidos,“O segundo sexo”, foi o ponto de partida de toda uma geração de feministas. Outras obras da intelectual, como “Memórias de uma moça bem-comportada”, foram igualmente importantes e decisivas: ajudaram a “nomear um mal-estar difuso e a entender a situação da mulher como produto da história e da sociedade”, como afirmou a socióloga brasileira Maria Lygia Quartim de Moraes.

Não poderia deixar de lembrar também a famosa frase dita por Hamlet, que já gerou milhares de análises, interpretações e críticas ao longo dos séculos. “Fragilidade, teu nome é mulher” (frailty-thy-name-is-woman). Shakeaspeare e o príncipe Hamlet foram muito mencionados nesses dias em torno do Oscar, pelo filme “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, vencedor de vários prêmios no cinema e o Oscar de Melhor Atriz para Jessie Buckley, que interpreta o papel de Agnes Hathaway, companheira do dramaturgo.
A fala é do príncipe Hamlet no seu primeiro solilóquio (Ato 1, Cena 2), para expressar profunda amargura e desilusão com a rapidez com que a mãe, Gertrudes, se casou com seu tio Cláudio após a morte de seu pai. Segundo especialistas na obra do mais famoso poeta e dramaturgo da língua inglesa, os versos refletem uma visão misógina e a raiva de Hamlet contra a suposta inconstância feminina.
Para finalizar, deixo uma curadoria de leitura sobre mulheres geniais e transformadoras. Na presença delas, todo homem fica frágil, pode acreditar! O livro “Afiadas – As mulheres que fizeram da opinião uma arte”, da jornalista e crítica canadense Michelle Dean.
Mistura de biografia, crítica literária e história cultural, o livro fala sobre a vida de mulheres brilhantes que, apesar de subestimadas por homens, moldaram o rumo do século XX com contribuição para a história cultural e intelectual dos Estados Unidos. Entre outros, nomes como de Dorothy Parker, Rebecca West, Hannah Arendt, Susan Sontag, Pauline Kael e Joan Didion são exemplos inspiradores pela precisão de pensamento e sagacidade.

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