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‘O mundo precisa remover essa nódoa medieval da nossa cultura’

Por Maya Santana

Mulheres ganham salários menores do que o dos homens mesmo desempenhando a mesma função

Mulheres ganham salários menores do que o dos homens mesmo desempenhando a mesma função

Maya Santana, 50emais

Esta crônica de Lya Luft foi publicada recentemente no jornal Zero Hora com o título “Direito de todos, e todas”. E fala da luta das mulheres para ter os mesmos direitos dos homens. Comentando sobre a forma desigual que homens e mulheres são tratados, a escritora menciona a questão dos salários. “Dois amigos empresários me afirmaram que, sim, no início da carreira, muitas vezes a mulher ganha menos do que o homem, mas depois, ‘conforme mostra suas qualidades, ela ganha o mesmo’. Quase não acreditei: ah, então, quando a inferior mostra serviço, ganha o mesmo que o mancebo? Que mundo absurdo, atrasado. Que mentalidade diminuta”, critica ela. E conclui:”O mundo precisa remover essa nódoa medieval e grosseira da nossa cultura.”Embora a autora não tenha mencionado a palavra machismo, trata-se disso: puro machismo.

Leia a crônica:

Já inventaram – inventam demais sobre a gente – que escrevo sobre mulheres, que falo para as mulheres… Só ainda não vi dizerem que escrevo como mulher. Mas há muitos anos, querendo me elogiar, um crítico de renome escreveu que, “embora sendo mulher, Lya Luft escreve com mão de homem”. Naquela época, ainda ficava aborrecida por um dia ou dois com essas eventuais bizarrices. Hoje, nem cinco minutos. (Nem tudo piora com o tempo…). Afinal, o que seria escrever com mão de homem? A alternativa seria: ou com coração de mulher? Um mais grosseiro, outra mais delicada? Um mais lógico, outra em devaneios? Um sobre temas importantes, outra sobre amenidades? Assisti a palestras e seminários sobre o tema, aqui e em outros lugares do mundo, e não vi chegarem a nenhuma conclusão razoável.

Mas, nessa gangorra natural nas coisas da moda, umas sérias, outras fúteis, a questão (grave) da mulher retorna sempre. Devo dizer – concordando com o que escreveu outro dia Cláudia Laitano aqui na ZH – que em minha casa, talvez sendo meu pai um intelectual liberal, nunca senti minha mãe inferiorizada, ignorada, ao contrário: ali havia respeito e parceria. Nem eu, na escola, na universidade ou na profissão, me senti submetida a algum patriarca. Talvez eu fosse demais distraída, ou simplesmente o fantasma saiba a quem aparece. Nunca trabalhei como funcionária de uma empresa: por estes dias, diante da minha curiosidade meio incrédula, dois amigos empresários me afirmaram que, sim, no início da carreira, muitas vezes a mulher ganha menos do que o homem, mas depois, “conforme mostra suas qualidades, ela ganha o mesmo”.

Quase não acreditei: ah, então, quando a inferior mostra serviço, ganha o mesmo que o mancebo, que, segundo essa afirmação, não passa por essa fase de experiência? Que mundo absurdo, atrasado. Que mentalidade diminuta. Que heroínas temos de ser nós, mulheres, se a sociedade do trabalho ainda pensa assim. Para não falar das grosserias eventuais com colegas, com amigas, com namoradas, com familiares, que se permitem isso, alguns trogloditas se achando o máximo. Apoio as atrizes que apareceram com camisetas iguais “Mexeu com uma, mexeu com todas” após incidente infeliz recentemente, numa grande empresa de comunicação, e apoiadas por ela.

Há muito pelo que lutar, porque às vezes aparecem manifestações patéticas de quem se diz “feminista”: “sou gostosa, tenho a boca vermelha, uso biquíni, mas sou capaz”. Tenho de ser gostosa? Usar batom cereja ou morango… ou não serei feminina?

O tema é sério e complexo, apesar das bizarrices e folclores que eventualmente se constroem em torno dele: o mundo precisa remover essa nódoa medieval e grosseira da nossa cultura, que ainda atinge tantas mulheres. Para que o bom combate possa se concentrar em dignidade e oportunidades para todos: velhos, crianças, homens, mulheres, de todas as etnias, orientações sexuais e classes sociais.

Com tanta coisa dramática nos convocando em tantos lugares e com tantas pessoas, violências indizíveis e brutais injustiças, ainda teremos que exigir e provar que, mesmo sendo “diferentes”, nós, mulheres, deficientes, negros, brancos, amarelos, gays ou outros, temos direito igual a manifestação, crescimento, oportunidade, realização e, sim, felicidade?

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2 Comentários

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Marco oliveira 7 de agosto de 2017 - 05:58

(Nao tenho diacriticos nesse computador) Como boa burguesa Lya Luft nao faz, falsamente, diferenciacao entre as mulheres. Nao sabe da enorme necessidade que tem as mulheres pobres de servicos como aborto, creche, transporte, saude, seguranca publica e instrucao para os filhos. Mulheres como Lya tem, e sempre tiveram, renda, propria ou do marido, pra resolver tudo isso. Aborto, escola, babah, empregada domestica, e mesmo ociosidade propria. Nao notam o onus economico, ou o risco de vida, de gravidez indesejada, que trabalhadores pobres, de salarios iguais entre mulheres e homens, por forca da CLT, que nao tem renda pra prover o devido aas suas vidas ou dos filhos, e que isso parece tornar-se problema apenas quando fica por conta somente da mulher, parecendo que quando ha um homem isso inexiste. O discurso burgues de Lya transforma um problema social (e economico) em problema de genero, com a distorcao habitual dos intelectuais. Se houvesse renda, aborto, creches, escolas, transporte, saude, seguranca, etc. a situacao da mulher nao seria muito melhor? Menos oprimida, inclusive por um marido abusivo? A agressao sexual, tal como a corrupcao, eh uma questao endogena, cultural; ou institucional, de seguranca publica? Lya continuarah tendo olhos somente pra mulheres de suas relacoes sociais? Chamando-as de “universais”? Cinismo ou estupidez?

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‘O mundo precisa remover essa nódoa medieval da nossa cultura’ | JETSS – SITES & BLOGS 2 de agosto de 2017 - 11:15

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