
Márcia Lage
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Na academia onde todos me tratam por Dona, não sou a única incluída naquele universo de encontro com a saúde física e mental, interação social, lazer e afeto. Velho é o que mais tem lá, tentando melhorar a postura, afinar a cintura, reduzir o colesterol, perder a barriga, ganhar força muscular.
Depois das escolas inclusivas, as academias de ginástica devem ser o lugar onde todas as pessoas são aceitas e tratadas com respeito. Ali estão portadores de deficiência, adolescentes em formação, gestantes, idosos, obesos, pretos, brancos, amarelos, pobres, ricos, remediados, os LGBT+, toda a fauna humana em sua diversidade e direitos.
Alegre como um tico-tico, o militar reformado chega cedo, às vezes com caixas de salgadinhos para todos. Cumprimenta um a um pelo nome, faz a resenha do dia e defende suas ideias de segurança pública que deixam a maioria em silêncio. Apesar dos exageros verbais, é um bom camarada. Todo mundo gosta dele.
Figura onipresente e muito amada também é um garoto de cerca de 28 anos, com um espectro de autismo. Tem uma memória invejável. Cumprimenta a todos pelo nome e sobrenome e, vez ou outra, com a ficha completa do indivíduo, que ele pesquisou nas redes sociais.

Faz aulas de street-dance, forró, hidroginástica, alongamento e musculação. Mora bem perto da academia. Vai e volta em casa entre uma atividade e outra. A mãe, que também é aluna, afirma que o filho melhorou cem por cento com a convivência e os exercícios.
Um outro aluno tem uma perna fina e sem firmeza para andar. Não sei se de nascença ou consequência de um acidente. Mas é incrível seu desenvolvimento.
Quando começou ficava isolado numa sala, andando com dificuldade de um lado a outro. Não falava com ninguém. Em poucos meses já interage, pega peso, anda na esteira, fortalece a perna e demonstra melhorias também na autoestima e no humor.
O cego chega sozinho, dobra a bengala e aguarda que algum treinador o veja. A série que ele faz fica gravada no aplicativo da academia, que ele ouve com fone de ouvido.

Depois de cada exercício é conduzido pelo professor ao próximo aparelho. Não pode se ver no espelho, como os demais. E nem precisa. Tem completo domínio da postura e está com o corpo muito bem trabalhado.
As gordinhas capricham nos modelos das roupas e gostam mais de dançar do que de puxar ferro. Esbanjam charme nas aulas de dança, batendo cabelo, fazendo beicinho, sensualizando ao ritmo do forró ou do street dance. Buscam saúde e alegria. A perda de peso, se acontecer, é só um acréscimo.
Aceitos e respeitados em seus limites e propósitos, os alunos chegam quando querem, se exercitam no seu tempo e obtêm resultados maiores do que o esperado.
O ambiente inclusivo, multigeracional e acolhedor faz de uma academia de ginástica o espaço de convivência mais agradável e curativo nos dias de hoje.

Pena que as academias ao ar livre, que custam tanto às Prefeituras, não disponham de profissionais da educação física para orientar os frequentadores e criar essa atmosfera de aceitação e segurança que existe nos espaços pagos.
Instaladas e abandonadas de qualquer jeito, terminam se transformando em brinquedos para crianças. Ou apodrecem ao relento, num desperdício de dinheiro público.
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