
Miriam Moura
50emais
Estou lendo um livro fascinante, um verdadeiro prazer em formato de letrinhas na tela (leio no Kindle). “O primeiro leitor” é obra recente do editor Luiz Schwarcz, que criou em 1986 a Companhia das Letras, hoje um grupo editorial do qual ele é CEO e a Penguin é sócia majoritária.
No universo literário e intelectual brasileiro o nome do editor, que é casado com a historiadora, antropóloga e acadêmica imortal da ABL Lilia Schwarcz, dispensa apresentações para todos que gostam de ler, adoram livros ou tem alguma proximidade afetiva com o mundo editorial.
Ler sobre as reflexões da trajetória de Luiz Schwarcz é dar um passeio pela história da formação do mercado editorial brasileiro. E que passeio! Cheio de bastidores, histórias deliciosas (há uma até sobre um banho que certa senhora deu em … Monteiro Lobato). Os capítulos fazem você conhecer um pouco mais sobre a vida profissional, em alguns casos recheada com alguns toques da vida pessoal, de nomes ilustres do mundo das letras.
A leitura do livro “O primeiro leitor – ensaio de memória” é envolvente e prazerosa. Além de algumas risadas com o texto, lembrei de uma cena de décadas atrás em Porto Alegre, no início de minha carreira como jornalista.

Certa vez a Cultura Inglesa da capital gaúcha ofereceu um almoço para a imprensa e convidou alguns notáveis do mundo literário de Porto Alegre. Sentado ao meu lado na mesa estava um senhor muito simpático, que começou a puxar uma conversa agradável sobre livros. Eu, que sempre tive vocação para compartilhar dicas (ainda não sabia que viria a ser curadora de conteúdo muitos anos depois), fiz grandes elogios ao livro que estava lendo então, ou havia acabado de ler.
O livro era “Ragtime”, de E.L.Doctorow, obra elogiada na qual o escritor fala sobre o espírito da América, utilizando-se do “idioma” musical dos Estados Unidos do início do século XX. O termo é originário da expressão “ragged time”, sobre o ritmo do rag.
Lembro da minha alegria (e certo orgulho, confesso …rs) quando, dias depois passo na famosa “Livraria do Globo”, no centro da cidade, e constato que o livro figurava na estante da frente, dos destaques, bem no centro.
O meu companheiro de mesa no almoço era da família Bertaso, na época proprietária da livraria icônica para os gaúchos da capital. Por lá passaram Érico Veríssimo, editor e tradutor na Livraria do Globo, e o poeta Mário Quintana, entre outros luminares das letras rio-grandenses.

Lendo as páginas do livro de Schwarcz não pude deixar de lembrar desse episódio que me deu muita satisfação, ser curadora de um importante editor do Rio Grande do Sul.
Algumas leituras são marcantes em nossas vidas e este livro, que ainda estou degustando, já entrou para a minha lista de favoritos de todos os tempos. Estou dando a dica para amigos, colegas e agora também aqui na coluna para vocês.
Ao escrever meu livro “Muito além do Media training – O porta-voz na era da hiperconexão”, em coautoria com Patrícia Marins, procurei respeitar com o maior rigor o objetivo de que fosse uma leitura que desse prazer em ler, com um ritmo e fluxo harmônico. Livros, mesmo que não sejam de ficção, precisam contar boas histórias e proporcionar fruição informativa.
Na resenha sobre “O primeiro leitor” para a revista 451, Paulo Roberto Pires reconta a parte do texto em que Schwarcz desenvolve a ideia de que o livro físico é a metáfora por excelência do livro como conceito. Para o autor, “as páginas arejadas, com entrelinhamento generoso, são, mais do que princípios estéticos, uma declaração de princípios, um convite para que o leitor ocupe, física e simbolicamente, os espaços em branco”.
Na leitura, lembrei de outra passagem, essa do grande escritor Jorge Luis Borges. Ele gostava de entrar em livrarias e tocar nos livros. Ao devolver um exemplar à prateleira, desculpava-se, dizendo que só não o levaria consigo porque já tinha um igual. Livros, para ele, eram como um artefato com propriedades quase mágicas, transportando para ideias e mundos imaginários.

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