
Maya Santana
50emais
Decidi contar o que aconteceu com meu irmão de 80 anos como um alerta, já que tantas famílias, hoje, têm em casa pelo menos uma pessoa idosa.
Meu irmão é cadeirante desde 2019, quando sofreu um AVC, e perdeu o movimento no lado esquerdo do corpo. Passou a depender de cuidadoras.
Todos os dias, o ritual se repete: ele acorda, é levado ao banheiro, depois desce para tomar um pouco de sol e o café da manhã no pátio interno, que nós chamamos de terreiro.
Uma área bonita, com piso de pedra – parte das alterações feitas na casa para evitar escorregões e quedas de seus moradores, todos com mais de 60 anos -. cercada de todo tipo de planta.
Alimentado, ele sobe para o banho. Em seguida, retorna ao terreiro, para ler os jornais do dia e aguardar o almoço. Foi numa manhã dessas que, em questão de segundos, aconteceu o terrível acidente.
A cuidadora havia acabado de estacionar a cadeira de rodas dele perto da mesa. Pediu que esperasse um pouquinho enquanto ia lá dentro buscar os óculos de leitura.
Sem que ninguém percebesse, com a perna direita ele levou a cadeira para o centro do pátio e puxou o freio para o lado, destravando as rodas. Como a área é meio inclinada, a cadeira ganhou velocidade. Desceu embalada uns cinco metros até bater num enorme vaso de flores de cimento e lançar meu irmão para fora.
Sufoco e correria para resgatá-lo. No hospital, depois de exames, os médicos constataram fratura gravena cabeça fêmur. A cirurgia, que deveria durar 20 minutos, segundo nos disse o cirurgião, levou uma hora e meia. “Foi uma das mais longas que já realizei,” comentou o médico.

Terminada a operação, houve a transferência para o CTI. Foram três dias lutando pela vida. Quando recebeu alta, uma semana depois, e voltou para a casa, muitas vezes ele se perguntava: “Por que será que eu fiz isso comigo?”
Esse acidente, que marcou profundamente meu irmão e a família, fez com que a gente se preocupasse com a cadeira de rodas, já que o freio é num lugar que qualquer um pode desengatar. Como vamos fazer para impedir que que meu irmão se coloque em risco novamente? Chegamos a pensar em instalar uma grade na área.
Mas alguém teve uma ideia melhor: levamos a cadeira a uma oficina mecânica e conseguimos trocar o local do freio. Foi colocado embaixo do assento, dificultando em muito o seu manuseio por quem está sentado nela. Com isso, eliminamos o problema.
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Mas fica a questão da cadeira de rodas. Há muitas reclamações em relação a esse meio de locomoção cada vez mais requisitado no país, porque a nossa população está envelhecendo muito rapidamente.
As cadeiras, mesmo as mais caras (não estou me referindo às motorizadas), deixam muito a desejar, principalmente, em termos de segurança e de conforto. Meu irmão, se queixa com frequência de desconforto.
É só fazer uma rápida pesquisa na internet, para encontrar relatos os mais variados de descontentamento com a qualidade da vasta maioria das cadeiras de rodas a venda nas lojas especializadas.
Uma realidade inaceitável num Brasil que, em 2030, estará entre os cinco países com população mais envelhecida do planeta.
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