
Miriam Moura
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A palavra estilo tem 15 acepções no dicionário Houaiss, mas atualmente é frequentemente associada à moda: estilo de se vestir. “Fulana é muito estilosa”, dizemos quando queremos elogiar a maneira de alguém se vestir. A origem deriva do termo latino stilus (ou stylus), que designava um instrumento metálico pontiagudo usado na antiguidade para escrever.
“Conjunto de tendências, gostos, modos de comportamento característicos de um indivíduo ou grupo”, descreve o dicionário, exemplificando: “Essas cores não fazem meu estilo”. Para a consultora de moda Glória Kalil, a receita para se ter estilo é realizar um exercício diário de autoconhecimento. “Descubra quem você é vista-se de acordo com a sua personalidade. Não tem erro”, diz a especialista, autora do livro “Viajante Chic”.
Fiquei refletindo sobre esse tema ao ler há poucos dias uma conversa com vídeo entre a famosa editora da Vogue, Anna Wintour, e sua sucessora Chloe Malle, que assumiu em setembro. Ambas transparecem “estilos” diferentes. Wintour, ícone no mundo fashion e na cultura pop, sempre impecável e elegante com óculos de sol estilosos. Ou seja, estilo tem a mais a ver com personalidade do que com a moda. Quando gosto muito de uma roupa ou acessório, costumo chamar de “statement piece”, uma declaração, uma peça marcante, uma manifestação de estilo próprio.
O jornal New York Times publicou uma entrevista entre as duas com acesso a trechos de vídeo (11/2), no formato de uma conversa franca. Gostei de ver Anna Wintour, a editora mais famosa do mundo com 37 anos na Vogue, incentivar os jovens líderes a experimentarem e a correrem riscos, mesmo que suas apostas nem sempre deem certo. O importante, frisou, é que eles façam tudo para se tornarem “vozes de sua geração”.

Linguagem e visão de mundo
Em estudos e leituras sobre artes plásticas aprendi que o sentido de estilo na arte tem nuances próprias. Segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, “o estilo (em arte visual) é como uma linguagem, com ordem interna e expressividade próprias, que admite uma intensidade variada. Alguns elementos podem se repetir em obras de períodos ou autores diversos, sendo os estilos determinados pelos diferentes modos de reuni-los numa forma única.”
No âmbito da história da arte o estilo “é um objeto essencial de investigação”. O conceito tanto pode ser usado para aglutinar seguidores de um artista, como a escola de Leonardo, de Rembrandt, como para designar um momento histórico na arte, como o Renascimento, barroco e outros.
Na crítica de arte o estilo de um artista é uma linguagem estruturada que comunica sua visão de mundo, emoções e intenções. O crítico analisa o estilo com uma lente tripartida, examinando tanto a forma (técnica), como os contextos histórico e sociocultural.
O site arteref.com, focado em notícias de arte contemporânea, define o trabalho do crítico de arte como uma união entre o objetivo e o subjetivo. Ao buscar respostas para julgar beleza e importância em um trabalho artístico, o crítico examina fatores como realismo, beleza, transmissão de emoção, formalismos e conceitos. “Novas gerações de críticos alteraram para sempre a percepção do público sobre estilos estéticos; estimularam significativamente essas mudanças de gosto”, segundo artigo da equipe editorial.
A Enciclopédia Itaú Cultural diz que o aprofundamento das pesquisas sobre a origem dos diferentes estilos é capaz de mudar o julgamento sobre determinados movimentos artísticos. A publicação cita o historiador de arte austríaco Alois Riegl (1858 – 1905), que desenvolve em seus livros (como “Questões de Estilo”, de 1893, e outros) o argumento de que cada época tem um estilo baseado numa kunstwollen (vontade artística ou formativa) particular que explica mudanças e desenvolvimentos históricos e regionais.

O historiador se opõe às teorias que entendem a história da arte com base no revezamento contínuo de períodos de apogeu e declínio. Um exemplo disso seria menosprezar o barroco, visto como a decadência do classicismo renascentista. O crítico rejeita esse tipo de visão, por entender que suprime “a vontade espiritual original por trás de cada estilo”.
Não tenho a pretensão aqui de esgotar campo tão rico de análises e teorias, mas a questão do estilo na arte sempre foi tema de meu interesse, como também na literatura e no cinema, razão pela qual valorizo o trabalho de críticos de arte. Como pontua o texto no site arteref.com, “o crítico é frequentemente confrontado com uma escolha: defender velhos padrões, valores e hierarquias ou defender aquilo que é novo e subversivo. Assim, ao mesmo tempo, há críticos reacionários e de vanguarda.”
Bom carnaval!

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