
50emais
Durante muitos anos, a conversa sobre obesidade ficou presa a uma conta simples, altura, peso e Indice de Massa Corporal, IMC. Bastava o índice ultrapassar determinado número para a pessoa ser enquadrada numa categoria. O método continua útil como triagem, mas já não dá conta, sozinho, de explicar o que acontece no corpo de cada um. Em janeiro de 2025, uma comissão da The Lancet Diabetes & Endocrinology propôs uma mudança importante nessa leitura, diferenciar obesidade pré-clínica e obesidade clínica, além de considerar outros critérios além do IMC para avaliar o excesso de gordura corporal.
A mudança ajuda a esclarecer uma dúvida comum. Há pessoas com obesidade que mantêm pressão arterial, glicemia e colesterol em níveis aceitáveis, trabalham, caminham, dormem razoavelmente bem e não apresentam, naquele momento, sinais claros de comprometimento orgânico causado pelo excesso de gordura. Pela nova proposta, esses casos podem se enquadrar em obesidade pré-clínica, quando há excesso de adiposidade, mas ainda sem evidência de dano funcional relevante. Isso não significa ausência de risco. Significa que a pessoa pode estar numa fase anterior, em que o corpo ainda não mostra, de forma evidente, o impacto desse excesso de gordura.
Já a obesidade clínica é definida quando o excesso de gordura corporal passa a provocar manifestações concretas, como sintomas, limitações funcionais ou alterações em órgãos e sistemas. A comissão descreve esse quadro como uma condição em que a obesidade já afeta a saúde de forma objetiva e mensurável, exigindo tratamento baseado em evidências para melhorar ou até reverter manifestações clínicas quando isso for possível.
O IMC perdeu valor?
Não exatamente. O IMC continua útil como ponto de partida, sobretudo em estudos populacionais e na triagem inicial. O problema é tratá-lo como resposta final. Ele não mostra onde a gordura está concentrada, não diferencia massa muscular de gordura e não revela, sozinho, se o organismo já sofre algum dano funcional. Por isso, a proposta da Lancet recomenda combinar o IMC com outras medidas, como circunferência da cintura, relação cintura-quadril ou relação cintura-altura.
Leia também: Agonorexia: termo que médicos estão usando para falta exagerada de fome
Esse ajuste parece técnico, mas tem efeito prático. Uma pessoa pode ter IMC elevado e boa capacidade funcional, enquanto outra, com índice semelhante, já convive com apneia do sono, dores articulares, dificuldade para subir escadas, alterações metabólicas ou piora da pressão arterial. O número, sozinho, não conta a história inteira.
Existe obesidade com exames normais?
Sim, e esse debate não é novo. A literatura já vinha usando a expressão obesidade metabolicamente saudável para descrever pessoas com obesidade que, ao menos por um período, mantêm marcadores metabólicos preservados. Uma revisão publicada em 2024 na Nature Reviews Endocrinology afirma que esse conceito continua útil para estratificar risco e entender que nem toda obesidade se comporta do mesmo jeito. Ao mesmo tempo, os autores deixam claro que isso não equivale a risco zero. Em geral, esse grupo tem risco cardiovascular um pouco mais alto do que pessoas metabolicamente saudáveis sem obesidade, e esse perfil pode mudar com o tempo.
É aqui que mora o cuidado com a linguagem. Falar em “obesidade saudável” pode induzir a erro. O mais correto é dizer que existem graus e perfis diferentes de risco. Há pessoas que ainda não desenvolveram complicações detectáveis, mas isso não elimina a necessidade de acompanhamento. A leitura mais honesta, nem todo excesso de peso produz o mesmo impacto imediato, mas também não deve ser tratado como detalhe irrelevante.
O debate ainda está aberto
A proposta da Lancet teve repercussão positiva, mas também recebeu críticas. A EASO, associação europeia dedicada ao estudo da obesidade, concordou que o IMC isolado é insuficiente, mas afirmou que o novo enquadramento pode representar um retrocesso se a discussão ficar excessivamente focada em nomenclatura e menos em cuidado prático. A entidade defende uma abordagem que reconheça a obesidade como doença crônica e exija manejo ativo e individualizado.
Leia também: Experimentei a canetinha da magreza. E emagreci minha vontade de viver
Em outras palavras, nem todos os especialistas veem da mesma forma a nova divisão entre obesidade pré-clínica e clínica. O consenso maior está em outro ponto, avaliar a obesidade de forma mais completa, com atenção à distribuição da gordura, à presença de sintomas, aos exames, à funcionalidade e à trajetória de saúde da pessoa.
O que isso muda depois dos 50
Para pessoas maduras, essa mudança de olhar faz bastante sentido. Depois dos 50, especialmente com a menopausa, é comum haver redistribuição da gordura corporal, com aumento da gordura abdominal, justamente a que costuma se associar a maior risco cardíaco. Nessa fase, avaliar apenas o peso na balança empobrece demais a conversa. Sono, mobilidade, circunferência da cintura, pressão arterial, glicemia, colesterol, disposição e impacto do corpo na rotina passam a dizer muito mais. A proposta da Lancet reforça esse tipo de avaliação mais completa.
Esse cuidado é ainda mais importante num país em que o problema cresce. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em janeiro de 2026 mostram que a obesidade entre adultos no Brasil aumentou 118% entre 2006 e 2024, segundo o Vigitel 2025. No mesmo período, também cresceram diabetes, hipertensão e excesso de peso. O tema, portanto, já não pertence apenas à discussão acadêmica, ele está no cotidiano de milhões de brasileiros.
A pergunta mudou
Talvez a principal mudança de paradigma seja esta, a pergunta já não é apenas “qual é o meu IMC?”. São várias as perguntas: onde está concentrada a gordura, meus exames estão estáveis, eu ronco, durmo mal, me canso mais, perdi mobilidade, sinto falta de ar, minha pressão subiu, minha glicemia mudou?
Leia também: Toda a família dele é gorda. Ele driblou a obesidade com disciplina e uma boa dieta
Quando o olhar se amplia, o cuidado melhora. Nem toda obesidade se manifesta do mesmo jeito. Nem toda pessoa com obesidade está na mesma condição clínica. E nem por isso faz sentido ignorar o que o corpo pode sinalizar. O avanço da ciência aqui não está em suavizar o problema, mas em tratá-lo com mais precisão e menos simplificação.





