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O que pode ela fazer a não ser embalar o tempo nos braços?

Por Maya Santana

Aos 84 anos, a atriz Wilma Henriques está trocando seu apartamento por uma casa de repouso

Aos 84 anos, a atriz Wilma Henriques está trocando seu apartamento por um asilo

Déa Januzzi

Todas as manhãs, ela sai de casa de braços dados com a filha, para a caminhada do dia. Elas andam devagar, uma respeitando a dificuldade da outra. Parecem sintonizadas, não apenas com a cadência dos passos, mas se complementam. Dão voltas no quarteirão, mas os moradores do bairro não olham diretamente para as duas. Parecem temer a visão inevitável do envelhecer. Todos desviam o olhar daquela cena de mãe e filha em busca do sol e da dignidade de envelhecer.

Também confesso a minha dor ao olhar para as duas, que caminham silenciosamente em direção à velhice. Tento desviar a visão dos cabelos ralos e brancos, das rugas pelo corpo, dos braços flácidos, das pernas trôpegas que já não caminham sozinhas. A cena seria corriqueira, se a senhora mais velha não tivesse nos braços uma enorme boneca, que se parece com um bebê de verdade.

A mais velha segura a boneca firmemente. Apesar de não conseguir mais segurar nem a si mesma, ela parece decidida em sua função de embalar o bebê de borracha, alheia às verdades e mentiras da vida. A boneca está vestida para os dias frios de julho, com um gorro e uma linda manta de lã. A boneca nem sabe que já se anuncia o verão e o calor está de matar. Não sente que o céu está incrivelmente azul, bem parecido com os seus olhos de boneca.

Ninguém sabe o que aquela senhora sente com o bebê nos braços, mas ela está bem, na tarefa mais antiga do mundo: a de ser mãe, de cuidar de outras pessoas.
Ela só aprendeu a cuidar e não a ser cuidada. O que pode uma mulher de 90 anos fazer, já com sinais visíveis de demência senil e perdas cognitivas, a não ser embalar o tempo nos braços? O que pode realizar uma senhora de passos tão lentos e doloridos, num mundo tão veloz?

Ela não tem mais liberdade para definir o próprio destino. Não tem mais independência para planejar uma velhice diferente. Sabiamente, a filha lhe devolveu a alegria de viver, colocando em seus braços o sentido de toda uma vida, um bebê, mesmo que de mentira. Nem nota que o bebê não mexe, não fala, não anda. Ela cuida do bebê com tanto amor que ninguém ousaria duvidar da existência viva daquela boneca.

Olho para aquela senhora a desfilar com a boneca, e penso nos velhos deste Brasil, que já vivem o rigoroso inverno de seus dias. Olho para aquela senhora, a desfilar com a boneca e me pergunto o que será dos velhos de um futuro tão próximo, que já está grudado na pele. Pergunto-me o que será de nós, mulheres velhas do presente que tiveram o direito de escolher ter ou não filhos. Com uma família pequena, de um ou no máximo dois filhos, cachorro e passarinho? O que será dos velhos do presente que nem filhos tiveram?

Aquela senhora que segura a boneca viveu em outra economia, em outra realidade. Em outro mundo financeiro. E, nós, da geração baby boomers, que esticamos o tempo, os recursos da medicina, da estética, que debelamos infecções em nome da longevidade? O que será de nós que só agora estamos ouvindo falar em economia da longevidade? Em envelhecimento ativo? Não sei, mas já sinto o peso de ser velha num País sempre em crise. Olha que não tenho nenhuma boneca para carregar nos meus dias de solidão. Olha que sou mãe de filho único, mas de uma geração que pôde escolher e que abriu as portas da casa, abandonou a cozinha, os afazeres domésticos, invadiu o mercado de trabalho e pode desmitificar a maternidade, para dizer abertamente, sem preconceitos: Sou mãe, mas não sou santa!

O que será de nós, velhos artistas, intelectuais, poetas, escritores que nunca pensaram que o amanhã é agora? O que será de nós? Apesar de especialistas reconhecerem que a riqueza é só meio caminho para o bem-estar na velhice. Não todo o caminho. Vivo em crise por não ter acertado ainda a direção. Nem sei se vai dar mais tempo. Tenho mais passado do que futuro nesta vida. Conserto um dente aqui, outro lá no fundo. Recorro a lentes intraoculares, tomo remédios e vitaminas, mas vai chegar uma hora que não terá mais jeito de consertar. E que o motor vai fundir para ser colocado num cemitério de carros velhos.

Só para citar um exemplo recente, diferente da mulher que segura a boneca. Aos 84 anos e mais de 50 de muito trabalho e de uma carreira de sucesso, que lhe valeu o título de a primeira dama do teatro mineiro, a atriz Wilma Henriques está saindo de cena. Vai se recolher a uma casa de repouso em Belo Horizonte. E vai precisar também de ajuda dos colegas de profissão para sobreviver.

A decisão veio por vontade própria, por causa das dificuldades financeiras que tem enfrentado. Solteira e sem filhos, recentemente a atriz fraturou o fêmur depois de levar um tombo dentro de casa. Foi submetida a uma artroplastia total do quadril, recebeu alta, mas por sua permanência longa na cama, teve que voltar ao hospital onde ficou mais duas semanas.

Wilma Henriques, então, tomou a decisão de mudar-se para uma instituição de longa permanência, pois não tem mais condições de manter um apartamento, despesas, administração doméstica, entre outras exigências financeiras e cotidianas.

O que será de nós, pobres velhos? Sem convênio de saúde, sem filhos, sem dinheiro guardado, sem boa aposentadoria, sem recursos para comprar um apartamento, sem um lugar para viver a velhice em paz? O que será de nós, velhos do aluguel, dos postos de saúde, da falta de lazer e prazer? Velhos malabaristas da vida? O que será de nós, pobres velhos!

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4 Comentários

Mirian 6 de outubro de 2015 - 15:40

Que triste ser velho neste país que não se pensa nos velhos.
Que triste , principalmente se dependermos do governo para que nossas aposentadorias fossem dignas para vivermos os últimos momentos. Mas, os que estão no governo, já estão garantidos com suas aposentadorias gorduchas a custa de nós simples mortais e o sofrido velho brasileiro.
Enfim, é muito triste ser velho e ser velho desassistido.

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celma paes sales 5 de outubro de 2015 - 10:21

você expos com tremenda clareza a realidade dos idosos neste pais,eu que ja estou no meio dp caminho da velhice vejo todos os dias amigos relegados a própria sorte,fico sempre a imaginar se chegarei a ficar tão idosa quanto a minha pequenina mãe que hoje lúcida e andando bem devagarinho no auge dos seus quase 94 anos tem filhos para cuidá-la ,dar-lhe banho e muito carinho,tb tenho filhos que sei não me deixarão sózinha e nem me colocarão em um asilo,mais quantos idosos terão este previlégios,só deus para olhar por eles,

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Judy Robbe 5 de outubro de 2015 - 03:33

Muito bom Déa! Abraços.

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Maria Jurema Martins da Silva 3 de outubro de 2015 - 20:25

O Brasil é CAMPEÃO no desprezo pelos idosos. Não existe SUPERVISÃO dos orgãos públicos sobre as condições de vida dos idosos. Tem que ter uma campanha do tipo “Como você está Idoso ? ” porque existem idosos que não estão em asilos mas estão abandonados dentro de casa e ainda têm suas aposentadorias utilizadas por filhos e familiares.Só peço ao bondoso Deus que me proteja porque neste País não existe controle da comunidade idosa !!!

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