fbpx

O que vinho tinto pode fazer por uma alma errante

Por Maya Santana

Muito mais do que você

Há uma embriaguez dos sentidos, um eterno pacto com a loucura

Déa Januzzi

Ninguém sabe o que um vinho tinto, uma música de Haendel, e uma orquídea amarela podem fazer por uma alma errante. Podem provocar um cataclisma, um maremoto, mas ao mesmo tempo podem inspirar versos largos, tão puros, tão cabernet sauvignon, tão rosso, tão tinto! Eu não entendo nada de vinho. Não sei o buquê, a safra, mas conheço o que um vinho tinto pode fazer no inverno dos nossos corações, mesmo em pleno verão. Enquanto ouço o minueto de Haendel penso que o vinho é uma companhia e me deparo com a orquídea amarela, presente de aniversário de alguém muito especial. Não sei porque, mas a magia do vinho com a música de Haendel, misturada com a orquídea amarela, entorpecem-me os sentidos, embriagam-me de emoção. Será que eu estou tonta?

Sim, há uma embriaguez dos sentidos, um eterno pacto com a loucura, com o insano, com o que não pode ser visto nem explicado. Com o indecifrável. Há uma boca suja de vinho tinto procurando outra boca, há um beijo rubro na taça de cristal buscando outra taça. Há o ranger dos dentes manchados de vinho tinto, de pura fantasia. Há um vulcão tingindo as emoções, com labaredas de música clássica, com a beleza de uma orquídea. Há um turbilhão dentro de mim! Que mãe é essa que degusta o vinho com o sabor da última esperança? Que mãe é essa que se desespera diante de uma orquídea, que anseia pela beleza da vida? Que mãe é essa que se embriaga de esperança todas as noites, que dorme ao som de Handel? Ai, mães do mundo, que mistério tem numa taça de vinho tinto que transborda ao som da vida, do vermelho do parto, da cruz dos braços que gemem amor, que suplicam por misericórdia?´

Que mulher é essa que tem uma dor incurável, insana, vermelha. Cor da paixão, do derrame, do vinho tinto? Eu sou a mãe das tempestades, dos relâmpagos, dos trovões. Mãe da inquietação, do porvir, do que nunca está pronto, do que virá. Sem forma, sem endereço, sem espaço – ilimitada. A minha alma voa por terras distantes. É uma alma andarilha. Que poder tem uma taça de cristal, cheia de vinho tinto?

O poder da chama, do fogo, do paraíso, da criação. Não, não sou normal nem nunca serei nesse porto da desesperança. Não quero mais nem menos. Não preciso de nada. Tudo está no seu devido lugar. Só não perguntei ao meu filho o que ela acha de uma mãe embriagada de vinho. Que o meu filho me perdoe, de ter uma mãe que precisa de vinho, de música, de poesia e de flor para viver.

Que o meu filho me desculpe de estar tão embriagada e tão lúcida para formar palavras incompreensíveis, mas tão claras, tão transparentes, tão óbvias, tão eternas… O que fazer com a mulher imperfeita, que clama por justiça, que se banha na erva daninha da poesia e da música clássica? O que pode alguém fazer com essa mulher antítese, contrária às correntes, avessa a certezas, a ordens estabelecidas? O que posso fazer assim tão vacilante, trôpega, desdobrada, com o peito aberto, temperado com vinho, música clássica e orquídea?

Leia também de Déa januzzi:
Procura-se companhia para sair de vez em quando

Ah, me desculpem, mas estou no fundo da taça de cristal. Sou uma espécie de borra, uma mancha na toalha branca. Sou tinta vermelha. Sou uva, melodia. Sou o fundo da garrafa, o resto da borbulha, espumante, verdadeira. Sou mãe dos vendavais, das tempestades, do amor infinito, que se completa na incerteza, no que não está programado, no que não tem receita. Nem contra-indicação. Eu sou a mãe do confronto. Não posso apenas ser mãe, porque o vinho me leva para longe deste planeta. Viro poeira galáctica. De lá, grito ao vento, desenho nas estrelas e escrevo nas nuvens: “Salvem essa mulher de si mesma.”

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário





11 Comentários

jorge 20 de junho de 2016 - 00:28

Quase tudo confere, mas aquelas derrapadas no texto… Para começar, afirmar que “Ninguém sabe o que um vinho tinto…” é pretensão demais. Você pode dizer “Eu não sei o que um vinho tinto…”. Acredite: muitas pessoas sabem. E depois, aquela orquídea amarela… Não, uma flor que não seja a rosa vermelha, não cabe num texto sobre vinho tinto! Ela acaba explicando a segunda derrapada do texto, que é Haendel, ou pior, um minueto. Depois você admite que não conhece nada de vinhos. Fala várias frases de tesão… sim, o vinho tinto seco provoca tesão. Se sente envergonhada com seu filho. Você estava descornada, sem ofensa, afinal isto é comum e normal. Mas para escrever sobre dor de corno, a bebida certa é whysky. Vinho tinto é para escrever sobre paixão.

Responder
Ligia 7 de fevereiro de 2015 - 03:11

Simplismente fantástico os textos , o sentido sensível quase poético….
Bravo!

Responder
Wilson Rosa da Fonseca 2 de fevereiro de 2015 - 14:40

Déa, estou embriagado com este vinho tinto, com que nos ofereces, nesta taça de cristal. Desta fonte maravilhosa de sua inspiração, também busquei e encontrei muitas vezes a essência de minhas poesias. Que não falte nunca, um bom vinho tinto, uma boa música o perfume de uma flor, enquanto viajamos, em nosso mundo de verdades e de sonhos. Salut! Tim tim!!!

Responder
Mário Reis 2 de fevereiro de 2015 - 13:32

Parabéns, Déa!!!!

Responder
Dirce Saleh 2 de fevereiro de 2015 - 11:30

Salve essa mulher que traduz em palavras o sentimento de todas ,nós mulheres que tentamos fazer uma pouco disso de vez em quando E é isso mesmo ,mulher emancipada M U L H E R.
Viva você!!!!
Que sejamos nós mesmo sempre LIBERDADE que ainda tardia !!!!!
Bijinhos ,nesse coração que explode e nos enche de coragem e lição.
Parabéns
Bjs
Dirce

Responder
nenezrick 1 de fevereiro de 2015 - 21:41

Que lindo texto!

Responder
Beatriz Lima 1 de fevereiro de 2015 - 21:15

Déa, que texto belo.Algumas frases me puxaram como isca faz com o peixe, mas desta vez não doeu, porque você mostrou para o mundo que não estamos sozinhas. E não é todo mundo que assumi ser ´mãe do que virá´ de viver com o coração aberto e não parar de contribuir para um movimento que quer mudar o mundo, para a melhor. Este foi o meu recado de hoje para você, e continue, por favor, a ser mãe do “amor infinito”. Obrigada pela honra de ter seu texto publicado na minha página do FB. Este foi um dos textos mais bonitos que li nos últimos tempos. Um recado para o mundo. Beijos

Responder
odette castro 1 de fevereiro de 2015 - 09:06

Mas não nos livre de ler seus desehos nas estrelas.

Responder
Ana lucia 1 de fevereiro de 2015 - 00:30

lindo Déa,me identifico cada fez mais com sua sensibilidade !!!!

Responder
Antonio f reis 1 de fevereiro de 2015 - 00:15

Tin Tin…………… Bravo…….bjs……

Responder
Genoveva 31 de janeiro de 2015 - 18:08

Déa,
Mais uma vez, mas hoje mais ainda, voce me lembra Clarice Lispector:
“Eu nunca fui uma moça bem-comportada.
Afinal, nunca tive vocação pra alegria tímida,
pra paixão sem beijos quentes ou pro amor mal resolvido sem soluços.
Eu quero da vida o que ela tem de cru e de bonito.
Não estou aqui pra que gostem de mim.
Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho.
E pra seduzir somente o que me acrescenta.
Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que as vezes me cansa.
Por isso, não me venha com meios-termos, com mais ou menos ou qualquer coisa.
Venha a mim com corpo, alma, voracidade e falta de ar!”
Carinho de Genô

Responder

Utilizamos cookies essenciais de acordo com a nossa Política de Privacidade e ao continuar navegando, você concorda com estas condições. Aceitar Leia mais