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O que você acha da eutanásia e outras formas de abreviar a vida?

Por Maya Santana

O paciente em cuidados paliativos não necessariamente fica no hospital

O paciente em cuidados paliativos não necessariamente fica no hospital

O fim da vida é um assunto espinhoso. Não chega só para quem viveu uma vida plena, tranquila, e agora se despede tranquilamente da existência. O fim da vida pode ser uma luta contra uma doença incurável, contra dores insuportáveis e sem alívio, contra a falta de esperança. E a morte, às vezes, é dolorosamente demorada. Para abreviar o sofrimento, alguns optam por terminar a vida com o suicídio assistido. Existem também os médicos que, por pena, matam seus pacientes terminais para acabar com a dor. A isso se dá o nome eutanásia, palavra cuja etimologia vem do grego e significa “boa morte”.

No Brasil, a discussão sobre a autonomia do paciente quanto à própria morte ainda é incipiente. Não há qualquer projeto sobre o assunto tramitando na Câmara dos Deputados, por exemplo. O paciente terminal não tem muitas opções no fim da vida. Ele pode continuar o tratamento ou apenas esperar a morte chegar. Nesse caso, a opção é o cuidado paliativo — um conjunto de ações tomadas por uma equipe interdisciplinar de médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e outros profissionais que se juntam para tornar a vida do paciente o mais confortável possível.

“Buscamos, acima de tudo, a qualidade de vida. Trabalhamos a vida, enquanto ela existe, em uma abordagem multidisciplinar. Há o alívio da dor e dos sintomas, a avaliação dos procedimentos invasivos, mas também se enxerga o paciente como um ser vivo, que tem espiritualidade, que tem uma família que também precisa de apoio”, explica Anelise Pulschen, diretora do Hospital de Apoio de Brasília. No hospital, há uma ala dedicada a esse tipo de cuidado, e a maioria dos pacientes são oncológicos. A novidade é uma pequena área inaugurada para cuidado de pacientes geriátricos. O tratamento paliativo não acontece apenas nos últimos dias. É, na verdade, um trabalho que deveria começar com o diagnóstico.

O paciente em cuidados paliativos não necessariamente fica no hospital — alguns recebem atendimento domiciliar, outros comparecem ao hospital apenas para procedimentos. Quando a doença avançou tanto que o que resta é esperar, alguns pacientes preferem ou precisam do hospital para aplacar as dores. Nesse tipo de cuidado, não há UTI, entubação ou ressuscitação. “Não antecipamos nem adiantamos a morte, deixamos acontecer”, resume Anelise.

A VISÃO DA MEDICINA Segundo José Hiran Gallo, doutor em bioética e diretor do Conselho Federal de Medicina, a determinação médica hoje é garantir a autonomia do paciente. “Ele tem o direito de decidir se quer o tratamento ou não, e o médico tem que aceitar essa decisão. No caso do paciente incapacitado, se ele designou alguma pessoa para representar suas decisões, as informações serão levadas em consideração. Hoje, estamos preocupados em garantir uma morte digna”, afirma. Se o paciente não tem chance de recuperação, ele raramente vai para a UTI. O procedimento padrão é mandar o paciente para a casa, para o aconchego dos familiares, para passar os momentos finais perto de quem ama, com tratamento paliativo.

“O médico não pode dar um tratamento desumano ao paciente que está na fase final. Não se adia a morte por meio de métodos reanimatórios de alguém que está sofrendo sem esperança”, explica Hiran. A ortotanásia, que também é conhecida como eutanásia passiva, e que significa, ao pé da letra, morte correta, continua sendo a forma mais indicada para lidar com o paciente que está morrendo.

PERSPECTIVA RELIGIOSA As opções para abreviar a vida também são malvistas pela maioria das religiões. O consenso é o mesmo do suicídio, e só quem pode tirar a vida é quem a deu: o deus de cada religião. Dom Flávio Irala, presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, explica que as igrejas ainda não têm uma discussão acumulada sobre o assunto, e não há uma posição definida. “Nós valorizamos a vida com qualidade, com plenitude. E somos contrários tudo o que atenta conta isso. É um tema que ainda precisa de muita discussão”, afirma.

Para o espiritismo, por exemplo, a provação de viver com a doença e o sofrimento é um tipo de castigo. “O espiritismo considera que as doenças são efeitos relacionados aos ajustes de atentados cometidos contra a lei de Deus. Devemos aproveitar as enfermidades, mesmo as mais graves, como lições, ainda que dolorosas, as quais, sem dúvidas, nos fornecem melhores condições no plano espiritual e nas próximas reencarnações”, explica, em nota, a Federação Espírita Brasileira.

Pai Nino Dosumare, da Federação de Umbanda e Candomblé de Brasília e do Entorno, conta que as religiões entendem o assunto de forma parecida com o espiritismo. “Não aceitamos suicídio. Não tem perdão porque um ser superior nos deu a vida. E só ele pode tirar.”

EUTANÁSIA E SUICÍDIO ASSISTIDO Proibidas no Brasil, as duas opções são formas de acelerar a morte, seja por decisão médica, seja por decisão do paciente. A eutanásia é mais polêmica porque, neste caso, o paciente não opina: ou está inconsciente, ou sem lucidez. O médico decide abreviar a vida para acabar com o sofrimento. A linha mais aceita no mundo é o suicídio assistido. O paciente, ainda lúcido, com um mínimo de capacidade motora, toma a decisão e deve ser o responsável pelo ato final — seja tomar um remédio, seja abrir espaço para a via intravenosa.

Em nosso país, eutanásia e suicídio assistido são crimes. “É enquadrado como homicídio, já que há clara intenção de matar. No caso da eutanásia, o homicídio pode ser doloso ou culposo, a depender da conduta do médico. Se injetar uma substância letal, por exemplo, o homicídio é doloso. No caso do suicídio assistido, qualquer pessoa que auxilie ou instigue o suicídio no Brasil está cometendo um crime”, explica a advogada Lívia Magalhães, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-DF. A constitucionalidade da ortotanásia ainda é questionada no âmbito judicial. Clique aqui para ler mais.

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