
Pedro Augusto Leite Costa
50emais
A gente perdoa, mas não esquece. Quem te fez mal sempre aparece. Nos sonhos, em visões repentinas, nas contínuas visitas do acaso. Assim, e contra as recomendações dos amigos, amigas e terapeutas, resolvi ir à luta.
Em Hong Kong, esta cidade-resistência da democracia, me deparei com o Da Xiao Ren 打小人, um ritual folclórico tradicional que tira aquele encosto que, você sabe, te acompanha e me acompanha há muito tempo.
Por encosto, refiro-me a má sorte, escorregão na escada, ter o celular roubado ou uma doença que vai te tirar o prazer de viver. Minha vida, como a sua, é uma mistura de felicidade e dor, encontros e desencontros, destino que Caetano Veloso definiu com precisão: “Toda hora é cheia de inferno e céu”.
A região do Da Xiao Ren 打小人 é feita de pequenos altares debaixo dos viadutos, cheios de velas, pedras negras, incensos e alguma fumaça para te envolver no astral do ritual. Fica na área de Wan Chan, o centro antigo de Hong Kong, a ex -colônia britânica, onde praticamente um bilhão de pessoas (está é a minha impressão) conseguem ir e vir em pacífica ordem.
Você encontra estes altares, dá 50 dólares de HK para uma senhora (geralmente idosa) , ela pede para você desenhar a figura do que te aflige (um inimigo, uma ex-namorada, a sogra, um rival qualquer). A partir dela, ela pega o papel e bate continuamente até desintegrá-la em pedacinhos. Até dá pena do encosto. Tudo vira fiapo. Depois, depois, ela joga o fiapo num latão com fogo. Ai o encosto morre queimado.
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É bom que se diga que não quero o mal de ninguém. Quero só o bem da humanidade. Mas, também por ter nascido em Minas Gerais, não consigo viver mais com a martirizante memória do que já vivi. A morte de gente querida, gente que se aproveitou de mim, a rejeição de quem eu amava de paixão, o gerente que nao me deu o empréstimo, o dia em que fiquei dependurado de cabeça para baixo numa cachoeira, um cara que me deu um murro quando eu saia do metrô em Londres….enfim, coisas da vida.
Com o Da Xiao Ren, próximo a Queen ‘s Road East, você tem três opções: amaldiçoar, afastar o infortúnio ou resolver conflitos. Ou tudo junto. Originado de crenças populares em feitiçaria e Feng Shui, é visto como uma forma de “transferir a má sorte” para a efígie, protegendo o cliente (no caso, eu) de danos, resolvendo disputas ou até mesmo buscando vingança (simbolicamente).
A rápida cerimônia, derivada da cultura cantonista (toda esta parte do sul de China é o Cantão) é um ritual folclórico tradicional de Hong Kong no qual um praticante do ritual (frequentemente mulheres idosas) “bate” em efígies de papel que representam inimigos, rivais ou fontes de má sorte de um cliente, com o intuito de amaldiçoar, afastar o infortúnio ou resolver conflitos. É comumente realizado sob os viadutos de Wan Chai, um local icónico para esta prática.
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No detalhe, o praticante (a tal senhora idosa) usa um sapato ou um bastão de madeira para golpear efígies de papel (identificadas com o nome e/ou data de nascimento do alvo), entoando encantamentos em cantonês. Ofertas como incenso, velas e arroz são preparadas para invocar o poder espiritual.
Sai do ritual de alma lavada. A vida é muito curta para carregar esta, digamos, mochila de desilusões. A gente sempre quer ser feliz, ter uma vida interessante (não necessariamente nesta ordem), e jogar os encostos da lata de lixo ou na fogueira daquela rua de Hong Kong.
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