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“O sexo é um direito das mulheres na velhice”

Por Maya Santana

Elza Berquó, de 83 anos, é demógrafa, estudiosa do envelhecimento

Elza Berquó, de 83 anos, é demógrafa, estudiosa do envelhecimento

Graziele Oliveira, Época –

A população brasileira vem envelhecendo e, entre os que ultrapassam os 60 anos, as mulheres são maioria. A demógrafa Elza Berquó, de 83 anos, uma das fundadoras do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), é uma estudiosa desse contingente da população. Em um de seus estudos, a pirâmide da solidão, ela mostra que existem muitas mulheres sem parceiros na faixa acima dos 60 anos, e atribui isso à regra cultural segundo a qual as mulheres se relacionam principalmente com homens mais velhos. Nesta entrevista, ela diz que nessa faixa etária existem também muitas mulheres homossexuais, como as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg na novela Babilônia.

ÉPOCA – Mulheres bissexuais ou lésbicas, que esconderam isso durante a vida toda, podem assumir relacionamentos homossexuais com mais facilidade na velhice?
Elza Berquó – Elas podem. Mas não precisa ser uma pessoa que não tinha saído do armário. Essa mulher pode ter sido casada, tido filhos. Então, encontra outra e tem alguma química entre elas. E aí pronto! A velhice não é um momento em que permitiu a elas sair do armário. Foi o momento em que elas reconheceram que podiam. A outra mulher não está esperando que você seja uma beldade, porque a velhice é perversa mesmo com relação ao físico. Não tem como. Então você tem de estar bem com você e com o mundo, produzindo sua vida e fazendo coisas de que você gosta.

ÉPOCA – O que a senhora achou do beijo gay protagonizado pelas atrizes Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro na novela Babilônia, da TV Globo?
Elza – Essas duas estão dentro daquele perfil que eu falei. Acho que são atrizes muito valentes. Tiveram a coragem de ser personagens dessa cena. Aquilo que vai na televisão é recolhido daquilo que está aparecendo na sociedade, e vice-versa. Então, já deve haver situações, em número tal, em que mulheres idosas estão vivendo juntas e se amando. Fiz um estudo com a Universidade do Texas sobre uma nova novela da Globo em que ia surgir um novo tipo de homem – um que não é machista, não é gay e não mata a mulher quando ela o trai. Chamava-se O rei do gado (1996). Um nome simbólico porque gado tem chifres, não é? O personagem de Antonio Fagundes era um novo homem que estava surgindo na sociedade. Era um homem com uma sensibilidade e compreensão que não precisa matar uma mulher por adultério. Meu segundo marido era exatamente esse tipo de homem sensível. Agora, acho que está surgindo um novo tipo de mulher idosa na sociedade. As coisas estão acontecendo, e a novela é feita para você se reconhecer lá, para você não se sentir a última perdida no mundo. Então isso valida muitas vidas. Esse é o papel da televisão.

ÉPOCA – Essa cena sofreu muitas críticas negativas. O que a senhora achou da reação das pessoas?
Elza – Muitas pessoas viram lá o que não tiveram coragem de fazer e têm medo de mostrar-se a si mesmas. E as que veem aquilo com naturalidade ainda são uma minoria. Mas que já está acontecendo, por isso foi para a novela. Ninguém inventa um caminho na novela. Ela tem de cobrir o que está acontecendo na sociedade e dar alguns passos para ver se a sociedade quer aquilo ou não.

ÉPOCA – Há especialistas que dizem que as pessoas nascem gays. É possível que as pessoas se tornem homossexuais na terceira idade?
Elza – Não acredito que alguém nasça gay. As pessoas nascem com seus cromossomos XX e XY. Agora, o que você pode ter é um ambiente. A relação com a mãe é um dos elementos condutores de comportamentos de filhos que se manifestam como homossexuais. Isso vai aparecendo ao longo da vida. O ambiente, o contexto familiar, as carências. Ninguém nasce assim. Ninguém nunca comprovou que o gênero é definido ao nascer. O sexo sim. Clique aqui para ler mais.

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1 Comentários

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lisa santana 27 de julho de 2015 - 20:11

Este artigo é ótimo.

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