
Márcia Lage
50emais
Fui ao cinema para assistir ao filme O Último Azul – e escrever sobre ele – mas a pauta mudou. A questão do envelhecimento no Brasil, tema da produção amazônica de Gabriel Mascaro, mostrou um de seus desafios ali mesmo, com a queda de dois idosos na moderna sala de projeção.
Cheio de degraus e de plataformas muito largas entre as poltronas, o espaço foi reformado para o conforto, em desfavor da seguranca. Há iluminação de led apenas no sentido horizontal das escadas. Entrar no ambiente é mergulhar na mais sinistra escuridão.
O primeiro a se esborrachar no piso acarpetado de preto foi um velhinho com dificuldade de locomoção, que chegou durante os trailer. Atrás dele vinha uma jovem com a lanterna do celular ligada. Mas o facho de luz tênue não foi capaz de clarear a inusitada distância entre um degrau e outro (quase um metro).
No fim da sessão, uma senhora se desequilibrou na altura da primeira plataforma e caiu de lado. Demorou a se levantar, ajudada por outros, com dor no joelho e no quadril direito. O gerente apareceu ante os protestos, e os presentes o aconselharam a contratar uma empresa especializada em sinalização para melhorar a segurança do cinema.
Duas quedas numa mesma sessão era um alerta grave sobre negligência na aplicação das normas de segurança e mobilidade para o público idoso e portadores de alguma deficiência.
Corta para o filme. Torço para que os renovadores permanentes da nossa previdência social jamais o vejam. Podem interpretar literalmente a narrativa e propor o confinamento de aposentados em colônias estatais, onde são tratados como cães sem dono. Essa é a linha central do longa, que se passa num Brasil ditatorial do futuro (Deus nos proteja!) repleto de dedos-duros pagos para denunciar os que se rebelam contra o absurdo.
A história, porém, é mais profunda. Fala da falta de oportunidades de escolha e da impossibilidade de sonhar e de planejar o futuro num país onde viver é um desafio permanente. A paisagem amazônica como cenário, com seus rios, igarapés, igapós, suas casas de palafita e seu povo abandonado a toda sorte de miséria, é uma metáfora perfeita. A paisagem, inebriante de tão bela, entorpece os sentidos, naturaliza o calor, romantiza o isolamento e banaliza a ausência do Estado na proteção de seus cidadãos.
É nesse universo que poucos brasileiros conhecem (mas que se repete nas periferias das grandes cidades, nas favelas e nos morros) que a protagonista Tereza ( Denise Weinberg) vive. Funcionária de um abatedouro de jacarés, ela tem 77 anos e passa os dias lavando o chão ensanguentado da fábrica. Não sabe de mais nada do resto do mundo.
Nem se viu envelhecendo, acostumada a trabalhar desde menina. Criou sozinha uma filha. Tem um neto. Nunca pensou em felicidade e outros supérfluos. Acha-se até privilegiada diante de outros que nem trabalho têm. Seu estreito universo explode quando o patrão a aposenta compulsoriamente. Desse momento em diante ela será tutelada pela filha e perderá toda autonomia.
Terá que se mudar para a Colônia dos idosos, onde todos são igualados como dementes e incapazes. Tereza busca sonhos aos quais se agarrar. Como voar, por exemplo. Um desejo inventado que a impulsiona a se jogar no mundo de águas e florestas que jamais explorou, onde encontra habitantes rudes, em permanente luta por mais um dia de sobrevivência.
A fuga de Tereza é externa e interna, por caminhos que ela constrói ao andar, se entregando ao desconhecido com sagacidade e disposição de aprender. Aos poucos se dá conta de que sua vontade de voar é um sentido figurado para o seu profundo desejo de ser dona da própria vida.
Veja o trailer:
Rodrigo Santoro, que tem papel curto mas muito relevante no filme, é quem lhe dá a primeira ferramenta: mostra-lhe como não é difícil dirigir uma embarcação. Um segundo nativo lhe apresenta a transgressão. E uma falsa freira, que já tem destino e barco, descortina para ela a possibilidade real de liberdade.
Muito mais idosa que Tereza, Roberta (Miriam Socarrás), tem salvo conduto para ir e vir por onde quiser. Como? Todo governo é corrupto e tudo na vida tem preço – revela a marinheira. Isso encoraja a protagonista a fazer o que for preciso para ganhar dinheiro e comprar sua alforria. Ao que a outra pergunta: por que só agora você pensou nisso? Porque o despertar da consciência acontece cedo ou tarde, responde Maria Betânia com a música Rosa dos Ventos, que encerra o filme. Sobem os créditos. Temos um bom aspirante ao Oscar.
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