Obrigada por me falar, pela 1ª vez, dos novos caminhos da idade

Por Maya Santana
O que é a idade para alguém que me ajudou a sair do chão e voar?

O que é a idade para alguém que me ajudou a sair do chão e voar?

Déa Januzzi

Certo dia, ela comunicou que iria parar de atender, que se mudaria para uma cidade do interior onde morava a irmã dela e os sobrinhos netos. Fechou o seu apartamento no Bairro Sion e foi embora, depois de uma longa jornada como psicanalista.

Fiz terapia com ela por mais de 10 anos. Ela esteve presente nos meus desencontros, desamores, afetos, decepções e conquistas e até no meu jeito enlouquecido de ser mãe sozinha. Com ela, aprendi a elaborar os meus despropósitos, o meu desequilíbrio financeiro, a minha vida de filha e de mãe. Ela foi embora e eu não a vi mais.

Ela nunca me disse a idade, acho que é coisa de psicanalista que não se revela, mas uma foto no facebook a denunciou . Ela estava lá na foto, sentada na mesa. Parecia o aniversário de alguém que não sei quem. Ela estava lá, sentada, quieta, parecia mais velha. Mas era ela, a psicanalista que me ajudou a enfrentar os meus fantasmas, que me tirou do inferno dos meus dias e, inclusive, a mergulhar dentro de mim mesma para descobrir a cada dia a criatividade e a simplicidade das palavras.

Quanto mais eu fazia terapia, mais o texto ficava limpo, claro, assim como os meus sentimentos iam tomando forma, desfazendo nós, bordando novas poesias. Depois de cada sessão, as palavras iam ganhando força, claridade, tons maiores, vigor.

Eu a reconheci na mesma hora. Era ela na foto, sentada à mesa, parecia mais frágil, um pouco mais velha, mas com o mesmo colar de pérolas a enfeitar os seus dias. Ela estava lá na foto, mais frágil do que sempre a vi. Para mim, ela não tinha idade. Era poderosa, soberana, a ouvir os meus desvarios, a dar sentido às minhas emoções. Ela estava lá naquela mesa da foto – e eu usei o facebook para perguntar se era ela mesma. Sem mais nem menos, alguém respondeu rapidinho que sim, era ela aos 91 anos. Segredo revelado, fim de um mistério que deveria ser preservado, como ela sempre quis.

Afinal, o que é a idade se ela me socorreu nos meus infortúnios de uma vida inteira? O que é a idade para alguém que me ajudou a sair do chão e voar? Ah, que saudade de Ghislayne Penna, do percurso feito entre a minha loucura e a quase sanidade. Um percuso de dor e alegria, pelos caminhos do seu consultório. Primeiro, na Avenida Brasil, depois na Rua Espírito Santo, até chegar à Rua São João do Paraíso, no Bairro Sion, onde ela reservou um quarto para atender.

A casa consultório parecia com ela, limpa, cheia de quadros e de lembranças, silenciosa, nobre. Um livro novo, sempre aberto em cima da mesa, indicava o gosto pela leitura. Na casa consultório, a paciente ia todas as semanas para falar dos seus desvarios e colocar em ordem a bagunça interna.

Ah, que saudade da minha terapeuta que me acolheu por tantos anos, que arrumou a minha casa interna, que pôs mais molho no meu texto, que me falou em limite, que fez uma verdadeira faxina na minha alma.

Ao vê-la sentada naquela mesa, me vi de novo rebelde, insatisfeita, jovem ainda, a lembrar dos maus amores e dos bons amigos, a exercer ainda uma profissão formal, a buscar sentido para a vida.

Então, não resisti. Pedi o seu telefone para o cara do facebook que nem sabia quem era. Telefonei. E do outro lado da linha, a voz dela dizendo “alô” e me levando pelos canais sintonizados do ser. Conversamos como antes, e ela confirmou os seus 91 anos, mas disse que já não era mais a mesma, que vivia só, numa casa grande da cidade do interior e às vezes perdia as coisas, mesmo que anotasse antes; que os olhos já não viam tanto como antes e que a memória dava suas cambalhotas. Mas ela estava lá, do outro lado da linha, com a mesma nobreza de sempre, com a voz tranquila, mesmo com alguns percalços.

Nem eu sou mais a mesma, gostaria de dizer para quem, hoje, também me ajuda a envelhecer com lucidez. Mais uma vez, ela me ouviu, falou mais do que eu, já despojada do seu papel de psicanalista. Juntas, conspiramos sobre o envelhecer. Obrigada, Ghislayne por me ouvir mais uma vez. Obrigada por me falar, pela primeira vez, dos novos caminhos da idade. Em tributo aos 91 anos de minha terapeuta, eu fico mais forte, mais viva do que nunca, com mais vontade de tecer sonhos e projetos. Obrigada a quem me ajudou a entender que a vida não é um paraíso não, mas não precisa ser um inferno!


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10 Comentários

Maria Esther 21 de março de 2016 - 08:43

lindo texto! Também sinto muitas saudades dela… um exemplo de vida!

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Margarida Morgan 10 de março de 2016 - 13:56

Essa é mesmo a Ghislayne que conheci – não como psicanalista mas como uma boa e leal amiga! Foi contemporânea da mamãe, no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em tempos muito idos, de Belo Horizonte…
Reconfortante suas palavras sobre ela e você: – uma verdadeira lição de vida!

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Wilson Garzon 10 de março de 2016 - 12:58

Na qualidade de meio-sobrinho e meio-filho, sinto-me emocionado por seu depoimento despojado e sincero. Déa, na maior parte da minha existência ela foi o ser humano mais importante em minha trajetória como homem e cidadão. Gracias…

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Lorrie 8 de agosto de 2016 - 12:15

Bom, movimento muito bom, mas me parece que falta um pouco promover o uso de capacetes para andar de biiccleta, muitas pessoas consideram feio, mas a realidade é que pelo menos se você estiver indo para lançar o asfalto para qualquer queda seria melhor feito com capacete.

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Jacques 10 de março de 2016 - 12:00

Agradeço por seu maravilhoso texto sobre minha tia Ghislaine, você soube descrevê-la da forma que eu enxergava mas que não conseguia expressar em palavras.
Você disse tudo e tocou fundo o coração! Obrigado.

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Giselle 6 de março de 2016 - 18:38

de emocionar…como sempre :*

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Cris Cavalieri 6 de março de 2016 - 13:04

Lindo depoimento!
E… se tudo der certo, chegaremos lá!

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Elza Cataldo 5 de março de 2016 - 21:05

Lindo depoimento, Déa. Sempre acho que quando uma pessoa homenageia uma outra com generosidade, gratidão e poesia é porque ela também possui estas qualidades. Viva longa à Ghislayne, de quem tive a sorte de ser aluna!

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odette castro 5 de março de 2016 - 19:56

que lindeza doída! principalmebte pra quem ta resistindo nesta coisa de adolescer, arranjar um novo amor e ir com ele tomar vinho em Cascais,rs,,,,enquanto ele nao vem, a gente pode tomar um aqui na savassi ne??? bj

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Vera Lucia 5 de março de 2016 - 19:51

Muito lindo seu texto!
Obrigada por compartilhar.

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