"Olhos acesos na escuridão desses dias"

Por Maya Santana

Os olhos falam mais do que meras e vãs palavras

Os olhos falam mais do que meras e vãs palavras


Déa Januzzi
Os olhos falam mais do que meras e vãs palavras. Eles choram, porque as lágrimas purificam o corpo, a alma e a mente. Lágrimas são a água benta do corpo, que vai lavando os medos, as incertezas, o desespero. Vão desentupindo os canais bloqueados das emoções.
Parei de chorar há tempos, porque lágrimas derramadas em público revelam a sua condição de mulher, a sua fragilidade diante dos obstáculos. Afinal, no lugar que as mulheres escolheram não cabem lágrimas nem emoção nem sentimento, só argumentos. Neste lugar tão sonhado pelas mulheres, as lágrimas podem perturbar o outro ou, então, desandar num pranto capaz de lavar a sujeira acumulada pela opressão.
Lágrimas podem revelar insegurança, como se ninguém neste mundo sentisse medo, como se todos fossem sempre fortes, super-mulheres versus super-homens, que não sentem, não choram, apenas vão levando a vida sempre igual.
Mas alguns olhos suplicam. Há uma urgência no olhar das mulheres, um pedido de socorro. Há uma aflição instaurada nos olhos das mulheres. E os olhos dos homens? Nossa, dizem muito, penetram, açoitam, almejam, desejam, mas ficam apenas úmidos. Ns olhos dos homens as lágrimas secaram, ficaram represadas na margem do lago.
Os olhos dos médicos escondem os segredos de vida e morte, têm ar de salvação. Os olhos dos médicos remendam dores, escondem a finitude humana, a imperfeição do corpo. Os olhos dos amantes pecam, mas também guardam os mistérios do amor, do desengano, da traição, da fome de amar.
Os olhos da mãe doente pedem paz e ao mesmo tempo socorro. Ficam olhando para longe, talvez, conversem com Deus, passeiem pelo paraíso que ela não encontrou na terra. Os olhos da mãe doente falam mais do que todas as palavras não-ditas. O olhar assustado da mãe enferma passeia pelos recônditos, brinca com a gente de abrir e fechar e falar e suplicar.
Os olhos de Luiza indagam, decifram o mundo. Nos olhos do filho, a rebelião está instalada, pronta para desaguar num oceano. São olhos jovens, acesos na escuridão desses dias. Alguns olhos mendigam, outros transbordam. Mesmo que ela faça voto de silêncio, seus olhos vão denunciar o que não lhe agrada. Não dá para esconder nem fugir do seu olhar atento.
Luiza precisa muito dos olhos abertos e firmes de sua mãe Mariana, que não pode se descuidar e deixar de ver o caminhar da filha, a beleza que ela está pronta para conquistar. Os olhos vêem o que querem ver, mas não se pode fechá-los para a magia da vida. Quando for preciso, diga com os olhos o que o coração sente. Não fique cego pela dor, a ponto de não enxergar o amanhã.
Mesmo que as palavras tenham poder, os seus olhos vão dizer o que está lá dentro, nas profundezas. Às vezes, porém, é preciso fechar os olhos para ouvir a voz interior e, então, ver além dos olhos.
Os seus olhos míopes vêem a lua imensa, transcendental, como ninguém mais consegue ver. Só mesmo os míopes, que têm a consciência ampliada, que habitam em outra dimensão, que fazem rascunhos às escuras, mas que enxergam de perto. Para falar com um míope é preciso se aproximar bem, até tocar a ponta do coração.
Mesmo que ela não possa ver sem as lentes de contato ou sem os óculos de grau, ela enxerga longe e decifra o olhar de quem está quase cego.
Mesmo que ela não tenha mais identidade sem as lentes de contato, seus olhos continuam a traduzir seus pensamentos. Olhos telúricos, de procurar poesia em tudo, até nos lugares mais estranhos.
Os olhos dela falam muito mais do que as palavras. Mas às vezes também ficam assustados diante da imensidão da busca.
O olhar dela, às vezes, foge para bem longe, para não ver a realidade distorcida. Os olhos dela se escondem atrás de um mundo míope.
Esta crônica foi publicada originalmente pelo jornal Estado de Minas, com o título “Olhos Míopes”.


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0 Comentários

Thelma Campbell 4 de março de 2014 - 01:57

Oi Déa,
Adorei sua crônica, você escreve com o coração aberto, com palavras doces, é uma delícia de ler, mande mais!
Abraços,
Thelma

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Ana Paula palhares 2 de março de 2014 - 19:15

Adoro as cronicas da Dea. Leio sempre que posso e as guardo no coracao. Teem Cheiro e gosto, lembrancas e cores. Eternas

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Maria do Carmo Moreira 2 de março de 2014 - 10:31

Ei Déa,
por favor, não deixe de escrever.
Você é tão talentosa, faz bem para nossa ALMA ler o que escreve.
Publique aqui, publique acolá, mas não deixe de avisar.
Bjs,
Maria do Carmo

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