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Os novos velhos

Por Maya Santana

Pedro Paulo Cava, 62 anos, diretor e produtor de teatro

Pedro Paulo Cava, 63 anos, diretor e produtor de teatro

Déa Januzzi

A construção de um cenário para o envelhecimento digno no ano de 2050 já começou. Os protagonistas da mudança de paradigma são os próprios idosos, que, cada vez mais, tomam para si as rédeas do futuro. Para quem ainda pensa que passar dos 60 é tornar-se incapaz de ter os mesmos desejos e de fazer as mesmas atividades da juventude, os novos idosos estão aí para provar o contrário. Também chamados de geração A, os que estão na faixa etária entre os 60 e 75 anos revolucionam o conceito do que é envelhecer.

Para eles, a fase boa da vida começa justamente ali, nos 60. “É a fase mais livre, mais bem aproveitada, mais amada, mais focada”, dizem ao serem confrontados com a pergunta sobre o significado de entrar no que ainda chamamos de terceira idade. Os novos idosos fazem parte de um grupo antenado, que se preocupa com a saúde, gosta de viajar e de se relacionar. O termo geração A significa que são ativos, autônomos, animados, autênticos. É o A de agora. São os atores da gerontolescência, cujo termo o gerontólogo Alexandre Kalache criou justamente pela necessidade de encapsular numa única palavra essa revolução que está ocorrendo no processo de envelhecimento.

Da mesma forma que nas décadas de 60 e 70 eles reinventaram o conceito de juventude. “Agora, essa geração está reformulando o jeito de envelhecer”, explica o especialista. “Para eles, o conceito de idoso está intrinsecamente ligado à ideia de liberdade. Velho é quem não tem mais autonomia”, argumenta Tatiana Soter, diretora de planejamento da agência de publicidade Quê, uma das coordenadoras do estudo que foi feito em parceria com a empresa de pesquisa Casa 7. Para saber o que a geração A pensa, sente e como vive, foram ouvidos cariocas das classes A, B e C.

O levantamento do perfil desse grupo etário preenche uma lacuna de conhecimento focado no segmento. As respostas aos questionários indicaram que eles se enxergam como adultos experientes, e não velhos. Idosos, na visão deles, são seus pais e eles provam a diferença exibindo fotos dos genitores quando tinham a mesma idade.

Embora esse público seja uma parte significativa da população – a geração A é representada por 62% dos cariocas de 60-75 anos –, eles não se sentem contemplados nos anúncios, não se enxergam nos títulos das revistas e, portanto, se sentem invisíveis.

Paradoxalmente, têm vida ativa, trabalham, se divertem e querem consumir. “E querem fazer tudo isso agora, pois não têm tempo a perder”, anuncia Tatiane. Uma das mudanças significativas desse grupo é o papel que ele passou a ocupar na estrutura familiar. Enquanto a sociedade ainda enxerga as pessoas dessa faixa etária como dependentes da família, a pesquisa revelou que esse público, na verdade, é mais provedor (71% dos casos) que dependente (19%). Para provar sua autonomia, eles também não querem viver sob controle familiar. Em 33% dos casos, a geração A opta por morar sozinha.

Preocupados com a saúde, 43% deles praticam atividade física e 38% seguem dieta alimentar. “Eles consideram que saúde é seu principal patrimônio, sua principal moeda. Ela é o passaporte para serem ativos e felizes”, revela Tatiana. Além de eleger a liberdade (86% dos entrevistados) e a família (92% dos casos) como seus principais valores, prezam a responsabilidade. Isso significa que querem aproveitar, consumir, viajar, mas não querem deixar os filhos endividados. Só fazem o que cabe no seu bolso e praticam o consumo consciente.

As viagens são importantes para se sentirem vivos e ativos e a relação com os netos é outra fonte de satisfação e vitalidade. Embora não queiram perder a liberdade, eles consideram importante ajudar os filhos a criarem os pequenos. Para os que trabalham fora, o contato com as novas tecnologias é algo natural. O mundo digital, para eles, é a porta para o diálogo com a família e para a interação com os mais jovens, que já conseguem olhar os avós de uma forma bem diferente da maneira como eram vistos há 20 anos.

Para a geração A, o cuidado com a beleza também é importante, mas eles querem lançar mão de recursos que lhes permitam melhorar a aparência e não camuflar a idade que têm. Sobre a moda, eles têm uma queixa. “As marcas não olham para esse público e comprar roupas se torna muito difícil. Não queremos parecer a vovozinha nem a periguete, mas não encontramos no mercado o meio-termo.”

Embora o estilo de vida do Rio de Janeiro fortaleça algumas características encontradas nos novos idosos, Tatiana acredita que é possível entender a maior parte delas como algo que faz parte da geração em questão, independentemente do lugar em que vivem.

Com esse perfil, os integrantes da geração A acabam ensinando para os mais novos uma receita de envelhecimento e, acima de tudo, ressignificando a velhice ao provar que o avanço da idade não impede que sejam ativos, autônomos e participantes. E muito menos que não possa haver interação entre as gerações. “Daqui para a frente, tudo passa a se estabelecer como numa via de mão dupla, com jovens e idosos trocando experiências e afetos. Isso muda todo o panorama futuro da velhice.”

No Dia Internacional do Idoso, que é comemorado amanhã, o caderno Bem Viver fala de uma velhice imaginária em 2050, quando o Brasil terá mais idosos do que jovens (na proporção de 170 para 100). Ouviu geriatras e estudiosos do envelhecimento para saber como chegar lá com saúde e qualidade de vida. Vai mostrar ainda que os velhos de 2050 serão muito diferentes dos de hoje, pois terão mais poder de compra e de consumo, mais vitalidade e saúde, vão viajar mais pelo mundo, pois fazem parte de uma geração diferente dos pais e avós – a Geração A (ativos, autônomos, animados e querendo fazer tudo agora).

Este artigo foi publicado originalmente no jornal Estado de Minas como parte de uma reportagem, pela qual Déa Januzzi foi agraciada com o Prêmio Longevidade de Jornalismo Bradesco Seguros 2012.

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4 Comentários

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lisa santana 13 de abril de 2014 - 18:07

Déa querida, a matéria é ótima! Ainda não estou lá, mas é muito bom saber que outras possibilidades já são realidade.

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Ana 13 de abril de 2014 - 10:55

Boa matéria. Avante!

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Dèa Januzzi 13 de abril de 2014 - 00:54

A todos os meus amigos e amigas com mais de 60 anos, proponho a revolução dos velhos, um complô contra o medo de envelhecer, contra a ditadura da juventude eterna. Um complô contra a gerontofobia, que é um termo mais pesado e ousado que a homofobia, é a violência contra os velhos, que vão se tornando invisíveis para a sociedade.
Proponho a Copa Internaciconal contra o medo da velhice.

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Tereza Gruber 7 de janeiro de 2019 - 21:54

Ola Déa Januzzi, Meu nome é Tereza , nos conhecemos em uma viagem para Espanha nos anos 80. Eu trabalhava em uma agencia de viagem. Gostaria de me comunicar com vc. sobre o seu blog entre outras coisas

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