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A vida é uma sucessão de sustos. Mas um, a cada 15 minutos, definitivamente deve causar danos ao coração. Pior é que a razão desses sustos veio exatamente de um exame que se tornou comum hoje em dia: o tal MAPA (Monitoração Ambulatorial da Pressão Arterial).
Era pra ser só uma consulta preventiva com a geriatra no check-up anual. No doppler das carótidas, fiquei embevecida com o canto de passarinhos que fluía das minhas veias. Parecia o som de um entardecer à borda de um riacho.
O médico fez cara de “deixa de ser inocente” e me pediu para ficar quieta e calada. O tal riacho estava assoreado por ilhas de colesterol e o canto dos pássaros era o esforço do sangue para navegar entre as placas. Aconselhou que eu procurasse um cardiologista o mais rápido possível.
O cardiologista pediu mais exames. Um de esforço na esteira, que a médica suspendeu antes de eu ficar cansada, porque disse que a pressão estava subindo demais; e o MAPA, que detecta se o paciente caminha para uma hipertensão, já é candidato a remédios que previnem surpresas como infarto e AVC.
O exame é que quase me infartou. Ele consiste na aferição da pressão arterial por 24 horas, por meio de um medidor amarrado ao braço e um monitor que registra a variação nos momentos mais inesperados.
Você está concentrado em alguma atividade ou absorto num pensamento e vruuummm! Um ruído do monitor aciona o medidor que aperta o braço e ESTÁTUA! Como na brincadeira infantil, é preciso parar tudo e ficar imóvel, sem nem respirar profundamente, até que o torniquete volte a se afrouxar.
A percepção do tempo, meus amigos, não é a que o relógio registra. No MAPA, 15 minutos não passam de segundos. Você mal sai de um sobressalto e lá vem outro. O coração sobe para a boca, a garganta fica seca, as pernas têm que ser descruzadas. E a gente descobre que vive de pernas cruzadas, que mania horrorosa!
E se não estiver sentado pode estar cozinhando: abrindo a geladeira, quebrando um ovo, fazendo uma vitamina, ESTÁTUA! O leite derrama, a gema escorre e enquanto você limpa a sujeira provocacada pelo susto, lá vem outro terremoto.
Pior é para dormir. Está quase relaxada nos braços de Morfeu, começando a sonhar com uma coisa boa e vruuummm! O aparelho apita, o medidor faz o torniquete no braço, o coração dá um pulo e a pressão vai às alturas! Aí dá sede, vontade de ir ao banheiro e, de novo, vruuuuuummm! Que pesadelo!
Quem inventou esse mapeamento deve ter ligação direta com os porões da tortura. São 24 horas de terror e suspense e a enfermeira ainda me perguntou se tudo tinha corrido bem, quando voltei para devolver o aparelho.
– Bem como? Isso é uma fábrica de estresse!
Passei a noite em claro, carreguei esse aparelho para tudo quanto é lado, não tomei banho e vim dirigindo acossada por esses apitos que quase me mataram. Se eu não era cardíaca, agora vou ser. Tenho certeza que o resultado vai dar positivo para hipertensão.
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