
Ricardo Bastos
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Na década de 1950, estudar até a quarta série primária era privilégio para poucos. Foi até aí que chegou Alberto Aguiar, o Beto, cearense de São Benedito, até que o peso da vida pedisse trabalho.
Com suas mãos precisas, foi mecânico de máquinas de escrever e calculadoras, um mecanógrafo das engrenagens miúdas.
Criou três filhos, viu nascer seis netos, segurou as pontas da vida e comprou muitos materiais escolares para apoiar os sonhos deles.
Com o tempo, Ana Paula começou a notar que o pai passava horas diante da televisão, sem compromissos ou novidades no dia a dia. Parecia que a vida estava perdendo a capacidade de surpreendê-lo. Lembrou-se então de como ele sempre foi comunicativo, “boa praça” com todo mundo, e de como estava se fechando, cada vez mais sozinho.
Foi aí que decidiu agir. Servidora pública na Secretaria de Educação do DF, Ana Paula encontrou uma forma de reavivar aquele brilho: deu-lhe um caderno novinho, mas desta vez como aluno. Matriculou o pai, aos 80 anos, na EJA (Educação de Jovens e Adultos) da rede pública do DF.
Nas redes sociais, resumiu com o coração:
“Tantas vezes ele comprou meu material pra estudar… desta vez pude retribuir. Te amo, pai.”
Assim, Beto retomou a escola, não por obrigação, mas para honrar um direito interrompido décadas atrás e para mostrar à turma que aprender é um ato de amor à vida.

Seu sorriso, firme com a mochila nas costas, confirma que a educação, para todos, em qualquer idade, transforma corações e destinos.
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Já beneficiou milhões, mas enfrenta desafios: entre 2018 e 2023, houve queda de 27% nas matrículas, de 3,5 milhões para 2,5 milhões.
Ainda assim, essa modalidade devolve autoestima, cidadania e esperança a quem foi excluído, não só alfabetizando, mas reintegrando pessoas à vida e ao futuro.
Para Beto, esse recomeço tem cheiro de caderno novo e sabor de vitória. Na EJA, ele vive o que muitos apenas sonham: a chance de reescrever a própria história.
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E Ana Paula mostrou que amor também é abrir portas para que nossos pais descubram novos caminhos. Que filhos podem, e devem, cuidar dos sonhos de quem sempre cuidou dos nossos.
Se você conhece alguém que um dia precisou deixar a escola para trás, talvez este seja o momento de fazer como Ana Paula: oferecer a chance de aprender.
Nunca é tarde para começar de novo, e cada lição, no tempo certo, é sempre um aprendizado.
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