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Teatro aborda o envelhecimento, com as suas dores e alegrias

Por Maya Santana

Juçara Costa, de 64 anos, Matilde Biadi, de 77, e Heloisa Duarte, de 62.

Juçara Costa, 64, Matilde Biadi, 77, e Heloisa Duarte, 62, dão show de interpretação

Déa Januzzi

Imagine um dramaturgo e filósofo que também é neurocirurgião, desses médicos formados na estirpe dos valores humanos, do respeito e cuidado com os pacientes. Jair Raso, de 57 anos,trabalha no Hospital Biocor, coordena o Serviço de Neurocirurgia e Neurologia do Hospital Unimed BH, tem um blog e recentemente lançou o livro “A caneta que mata – crônicas médicas, outras nem tanto”, pela Ophicina de Arte & Prosa. Um dos defensores e praticantes da humanização do atendimento médico, ele diz coisas assim: “A medicina é morada do humano. Mais do que qualquer outra profissão, alia o apreço e busca pelo conhecimento e cultura, com o exercício do apuro técnico e da compaixão”.

Pois, então, corram para assistir a peça Deleite, Depois,Delete (DDD), em cartaz até o dia 24 deste mês, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. O tema é o envelhecimento, com todas as suas dores e alegrias. Autor e diretor da peça DDD, Jair Raso,que também está chegando aos 60 anos, confessa que a velhice não é desculpa para o isolamento.

E dá a receita: ”O melhor remédio para se enfrentar os limites impostos pelo tempo é rir de si mesmo e nunca se aposentar da vida, ter sempre uma atividade para exercitar os neurônios e não perder a memória, que está fundada em um tripé: motivação, atenção e funcionamento do cérebro”.

A pergunta é inevitável: perda de memória seria um sinal de envelhecimento? Explica que“nem sempre as falhas de memória estão atreladas ao mau funcionamento do cérebro. Podem ser causadas por desinteresse e falta de atenção”.

O diretor Jair Raso

O diretor Jair Raso

Prepare-se, portanto, para encarar a velhice com bom humor e leveza, sem tanto sofrimento. Pois para Jair Raso, este é o melhor caminho para uma velhice saudável.No palco, estão as irmãs Damásia, DasDor e Deusdete. Das Dor e Deusdete moram e envelhecem juntas, mas são reféns de valores ultrapassados. Damásia teve outra trajetória: ela se casou, tem um filho, ficou viúva e namora um rapaz que conheceu pela Internet. E é pela Internet que ela mostra às conservadoras irmãs que o mundo online está ao alcance de um clique. As irmãs são as atrizes Matilde Biadi, de 77 anos, Juçara Costa, de 64 e Heloisa Duarte, de 62.

A personagem Damásia, interpretada por Juçara Costa, vai fazer uma revolução na vida das duas irmãs, quando chega para visitá-las com um computador de presente, essa poderosa ferramenta de contato e convivência digital que elas até então desconheciam.

Damásia também tem estilo próprio, usa roupas coloridas, ousadas, contemporâneas. A cada apresentação, ela está com um look diferente. Todo o figurino foi criado pelo também diretor de teatro Kalluh Araújo, com estampas de Juçara Costa, que além de atriz é uma conhecida artista plástica. Os adornos usados pela atriz são de Renata Murta que caprichou na confecção, com contas e pedras de enlouquecer mulheres de todas as idades. As peças do cenário são do antiquário Chafariz. O palco é a vitrine. E quem gostar dos objetos pode comprá-los no final da temporada. Como também todas as roupas e bijuterias usadas em cena.

Envelhecimento ativo
Juçara Costa viu que não tinha mais tempo.Percebeu que estava envelhecendo, quando teve um problema sério nas pernas, que lhe valeu um poema do artista plástico Miguel Gontijo: “Pernas cansadas de decifrar estrelas, por isso, preciso inventar escadas”. De lá para cá, “fui sentindo que meu corpo estava envelhecendo. Em 2015 fiz uma cirurgia para colocar uma prótese no quadril, raspei o cabelo para que os brancos nascessem soberanamente, assim como uma nova mulher. Foi dessa maneira que criei coragem, com o sentimento maior de que não tenho mais tempo para ficar esperando o País melhorar, as pessoas me reconhecerem como artista ou a dádiva de patrocinadores e leis de incentivo. Decidi abraçar a minha vida com o que tenho”.

Matilde Biaggi, de 77, nasceu na Itália, veio para o Brasil ainda criança, fez Teatro Universitário (TU), atuou em muitas peças, mas sempre como atividade paralela, pois “não havia nenhuma possibilidade de sobreviver de teatro naquele tempo. Hoje, alguns conseguem, mas fui atrás de um trabalho formal numa companhia aérea, onde entrei como secretária e saí como diretora, no Brasil. Hoje, aposentada, volto a fazer teatro, que é um deleite.”

Heloisa Duarte, de 62, também fez de tudo para sobreviver além do teatro, mas está amando fazer a personagem Deusdete, que é reprimida e controlada por Das Dor, mas que redescobrirá a alegria com a chegada de Damásia.

Impressionada com o tanto de remédios que as duas irmãs tomam, Damásia diz que elas podem substituí-los por uma caipirinha, uma taça de vinho, viagens e namoro pela internet. Pelo prazer de viver o tempo que lhes resta.

Juçara Costa: como  a moderna Damásia, ela revoluciona a vida das irmãs

Juçara Costa: como a moderna Damásia, ela revoluciona a vida das irmãs

Aliás, o autor e diretor da peça quer passar esta mensagem. Chega de tanto remédio, de pílulas da felicidade. Como médico, ele diz que é preciso “desprescrever”, “desmedicalizar”.

Às vésperas da estreia da peça DDD, Jair Raso resolveu fazer uma pesquisa sobre a velhice com os seus contatos no facebook.“Afinal, essa comédia gira em torno de três senhoras às voltas com a internet. Pensei ser mais do que adequado usar a internet para esse diálogo.Lancei a seguinte pergunta: qual a doença mais grave da velhice?”.Para sua surpresa, a resposta mais frequente não foi uma doença, mas a solidão. “Vinte e dois por cento das respostas apontavam a solidão como a doença mais grave da velhice. Se acrescentarmos abandono, invisibilidade e outras palavras que expressam o mesmo sentimento, o número de respostas é ainda maior.”

Ele esperava que as pessoas fossem se referir ao Alzheimer, ao derrame ou Parkinson, doenças comuns no envelhecimento. Foram poucas essas respostas.

Jair Raso diz que “solidão não é uma doença. Segundo o Houaiss, solidão é um estado, uma sensação de quem se acha ou se sente desacompanhado, só, isolado do mundo. O poeta Caetano Veloso, em sua canção “Desde que o samba é samba”, lembra que a solidão apavora, ‘tudo demorando em ser tão ruim’”.

Pode ser a razão dessa resposta prevalente. “Não sei a idade da maioria das pessoas que respondeu à pesquisa. Certamente, não são todos idosos e falam da velhice como uma reflexão, baseados em suas experiências familiares ou em suas expectativas. Talvez seja esse o recado. A velhice, tal como a solidão, apavora. Ouvi num filme italiano que a doença mais grave da velhice é a aposentadoria.Penso ser a inatividade, física ou mental.”

SERVIÇO
Até 24 deste mês
Sexta e sábado, às 21h/Domingo, às 19h
Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa
Praça da Liberdade, 21 – Funcionários, Belo Horizonte.

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