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"Pela primeira vez eu ouvi o meu gato miar"

Por Maya Santana

Jornalista Ana Maria Cavalcanti, 68

Jornalista Ana Maria Cavalcanti, 68


Ana Maria Cavalcanti
Quando me dei conta que estava ficando surda, meu mundo caiu. Era 1994 e eu tinha acabado de chegar a Londres, pra morar, pela segunda vez. Depois de muitos exames, nenhuma anomalia foi encontrada.
Os médicos ingleses concluíram que minha surdez era genética. O problema não tinha solução, pelo contrário, só iria piorar com o passar dos anos. Meu irmão, começou a ficar surdo recentemente.
Comecei a usar usar aparelhos de audição. Os meus eram digitais, caros, de alta tecnologia, programados por computador. Eu estava trabalhando na BBC e minha chefe me ajudou a pagar.
Minha vida social mudou bastante: era impossível ir a lugares barulhentos – festas, bares, reuniões. E o pior, fiquei insegura para trabalhar
Na BBC Brasil, eu era repórter, editora e apresentadora da editoria de Cultura. Acabei me afastando de meus colegas: morria de vergonha de ser surda. Só depois de fazer um curso de leitura labial, em uma escola londrina, é que comecei a enfrentar o problema com mais força e desenvoltura.
"Eu trabalhava na BBC, em Bush House, no centro de Londres

“Eu trabalhava na BBC, em Bush House, no centro de Londres


Mesmo surda, consegui fazer dois cursos: um sobre História da Arte e outro sobre a Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Apresentei trabalhos e seminários. Mas sempre tinha que avisar aos professores e colegas que falassem mais alto e mais devagar.
Em 2004, um novo abalo sísmico em minha vida: constatei que não conseguia mais usar o telefone e só via televisão se tivesse legendas. Fiquei revoltada, me senti humilhada. E veio a depressão.
Pedi demissão da BBC. Meu chefe me perguntou mais de uma vez: “ É isso mesmo que você quer? Eu não tinha dúvidas. Não queria prejudicar meu trabalho. Além do mais, meu pai estava muito doente, em São Paulo.
Já não ouvia, mesmo com aparelhos sofisticados

Já não ouvia, mesmo com aparelhos sofisticados


Voltei ao Brasil em 2004. Gostei de ter voltado. Gravei o piloto de um programa de TV sobre diversidade sexual, o Tutti Frutti, que ainda tento comercializar, e fiz vários outros trabalhos interessantes.
Enquanto isso, a minha audição ia piorando. Até que chegou a hora que os aparelhos auditivos já não adiantavam muito, mesmo os mais potentes e sofisticados.
Já estava ficando desesperada, quando ouvi falar do implante coclear. Ele funciona como uma espécie de ouvido biônico, dividido em duas partes: uma que fica dentro da cabeça – que o médico coloca através de cirurgia com anestesia geral. A outra fica do lado de fora.
O implante é muito recomendado para quem tem surdez profunda e também para crianças que nascem surdas. Quanto mais cedo colocarem o implante, melhor.

Dois dias depois da operação, fui pra casa. Levei vida normal durante um mês. Mas, claro, estava cheia de expectativa. Com 30 dias, o aparelho foi ativado.
Ri muito. O som era igual a um patinho fazendo quém quém. Mas adoro meu “patinho interior”. Hoje, entendo muito mais o que as pessoas dizem, ouço a campanhia tocar e ouvi, pela primeira vez, meu gato miar. Adorei!
Fiz a operação em novembro de 2010, no Hospital das Clínicas, especializado em implante coclear. Estou muito feliz. O implante custa 60 mil reais, fora a operação. Mas pode ser feito através de convênio e ainda pelo SUS, de graça. Pelo SUS é preciso fazer a inscrição pela internet. Há uma fila de espera. A boa notícia é que a fila anda e não pára.
Ana Maria Cavalcanti, jornalista, 68 anos, publicou este artigo originalmente no 50emais em 2012.

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0 Comentários

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Mirian 18 de abril de 2014 - 14:17

Parabéns a você Ana e vá em frente sempre.
Parabéns também a você Maria da Conceição, exemplos de superação.
Beijos.

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ana maria 4 de abril de 2014 - 00:03

Esta resposta vai para a Maria Conceição que escreveu contando que tb é surda.
Queria dizer a vc o seguinte: não sei pq seu médico não aconselhou o uso do implante coclear. Sugiro que vc ouça a opnião dos especialistas no Hospital das Clínicas. Não perca a oportunidade. Entendo que vc se vira bem do jeito que está. Mas não custa tentar. Eu super recomendo o uso do implante coclear. A criança que nasce surda, deve usar o mais rápido possível.
Abraço

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MARIA DA CONCEIÇÃO SOUZA LIMA TEIXEIRA 2 de abril de 2014 - 22:16

OLÁ, ANA MARIA! LI SUA HISTÓRIA E SEI EXATAMENTE O QUE VOCÊ SENTIU AO PERDER A AUDIÇÃO. TAMBÉM PASSEI PELA MESMA DOR E SUPEREI O MAIS RÁPIDO QUE PUDE. VEJA MINHAS REPORTAGENS NA INTERNET SOBRE PROFESSORA SURDA( EM 2008 REDE GLOBO E 2011 NA RECORD) OBRIGADA POR TER COMPARTILHADO SUA HISTÓRIA. FORTE ABRAÇO.

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MARIA DA CONCEIÇÃO SOUZA LIMA TEIXEIRA 2 de abril de 2014 - 22:04

OLÁ, ANA MARIA! LI SUA HISTÓRIA E SEI EXATAMENTE O QUE VOCÊ SENTIU AO PERDER A AUDIÇÃO. TAMBÉM PASSEI PELA MESMA DOR E SUPEREI O MAIS RÁPIDO QUE PUDE. SOU SEPARADA HA DEZ ANOS E SEI QUE MINHA DEFICIÊNCIA PESOU MUITO NA BALANÇA. NUNCA TIVE VERGONHA DE ME TORNAR SURDA, MAS O EX-MARIDO NÃO SUPORTAVA A SITUAÇÃO. FUI MUITO MAL TRATADA POR ELE , POR COLEGAS E PELA PESSOAS NAS RUAS E , A CADA SITUAÇÃO TRISTE EU ME FORTALECIA AINDA MAIS, É ISSO AÍ! FIZ DE CADA PERDA E TRISTEZA UM DEGRAU DE SUBIDA NA MINHA VIDA. PASSEI A SER CORAJOSA, A ENFRENTAR SITUAÇÕES DIFÍCEIS, O QUE ANTES NÃO FAZIA. AO CONTRÁRIO DE VOCÊ , NÃO ABANDONEI O TRABALHO. SOU PROFESSORA ALFABETIZADORA NAS REDES ESTADUAL E MUNICIPAL DE ENSINO EM MINAS GERAIS. MESMO SURDA ESTUDEI O CURSO SUPERIOR DE MAGISTÉRIO E A PÓS GRADUAÇÃO EM PSICOPEDAGOGIA. QUERIA ESTUDAR MAIS MAS, O TEMPO E O DINHEIRO SÃO CURTOS. ESTOU AGUARDANDO APOSENTADORIA PELO ESTADO( 30 ANOS DE EFETIVO TRABALHO). SE VOCÊ PUDER DÊ UMA OLHADINHA EM DUAS REPORTAGENS : UMA DA REDE GLOBO EM 2008 – PROFESSORA SURDA – EXEMPLO DE VIDA ; E NA REDE RECORD EM 2011 – PROFESSORA APRENDEU A LER OS LÁBIOS. SOU MUITO FELIZ M SER SURDA POIS, PARA MIM , A SURDEZ ME FEZ OUVIR A MINHA VOZ INTERIOR E ME FEZ SENTIR O QUANTO SOU FORTE E ESPECIAL. NÃO POSSO FAZER A CIRURGIA COMO VOCÊ FEZ. MEU MÉDICO NÃO ACONSELHOU. TAMBÉM NÃO SEI SE QUERO ME TORNAR OUVINTE NOVAMENTE. DESCOBRI TANTAS COISAS LINDAS ATRAVÉS DA SURDEZ! SOMOS FORTE E ESPECIAIS! TODOS SOMOS E PRECISAMOS DESCOBRIR ISSO SEM TER DE PERDER FUNÇÕES DO CORPO. É POR ISSO QUE GOSTO DA MINHA PROFISSÃO ,POIS É ATRAVÉS DELA QUE LEVO O SABER DAS LETRINHAS, A AJUDA NA DESCOBERTA DO MUNDO E TENTO FAZER COM QUE AS CRIANÇAS E SUAS FAMÍLIAS ACREDITEM MAIS EM SUAS POTENCIALIDADES PARA O BEM. OBRIGADA POR TER COMPARTILHADO SUA HISTÓRIA CONOSCO. TAMBÉM VOU COMPARTILHÁ-LA PELO FACEBOOK JÁ QUE , FOI POR LÁ QUE DESCOBRI. FORTE ABRAÇO DE QUEM MUITO ADMIRA SUA CORAGEM E FORÇA DE VENCER. VAMOS DIVULGAR MAIS TODAS AS CONQUISTAS E SUPERAÇÕES QUE SOUBERMOS. QUANTO MAIS PESSOAS SOUBEREM DOS ESFORÇOS PARA SERMOS FELIZES , MENOS HAVERÁ AUTODESTRUIÇÕES NO MUNDO.

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Déa Januzzi 2 de abril de 2014 - 20:39

Oi, Ana, passei a te admirar mais ainda.

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lisa santana 2 de abril de 2014 - 01:35

Adoro sua disposição a superações, Ana. Bjs.

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aparecida 2 de abril de 2014 - 01:16

Parabens pela disposição e muito obrigada por publicar o artigo, que poderá ajudar tantas pessoas com o mesmo problema, às vezes com condições financeiras e tantas sem condições, mas que podem fazer o implante via SUS.
Isto se chama SOLIDARIEDADE. Que Deus te abençoe

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Leandro Shakir 2 de abril de 2014 - 01:07

ALém de tudo, você é linda.
Como diz o meu guia espiritual: “quem tem ouvidos que ouça…”

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Olenka Franco 1 de abril de 2014 - 19:38

Ana,
Você é admirável por tudo que fez e faz, mesmo com a surdez…
Mas o mais novo, que você não contou, é que você está dançando lindamente! bjs!

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