fbpx

“Perdoe essa mulher em busca de si mesma”

Por Maya Santana

O tecido macio, leve, solto, escorregava pelo meu corpo como uma carícia

Abri os braços, para me imolar no altar das melhores intenções e perdoar essa mulher em busca de si mesma

Déa Januzzi

Foi como mágica. O sari indiano chegou no meio de um turbilhão de coisas por fazer. Os sete metros de seda cor púrpura, com barras douradas, transportaram-me para um outro mundo. Dei voltas no meu corpo com o tecido, como me ensinou Gislaine D’Assumpção, que acabara de chegar da Índia com aquele presente de dar inveja a todas as mulheres exaustas do mundo ocidental. Um milagre aconteceu depois que dei as três voltas na saia e as sete dobras para ajeitar o sari nos ombros. Ao me olhar no espelho, flutuei com aquele exercício de ser mulher. O bindi na testa, a maquiagem indiana, completou a vestimenta de uma mulher altiva, poderosa, que parecia ter saído de um conto das Mil e Uma Noites.

Como se ouvisse a música de Ravi Shankar ao fundo, tentei alguns movimentos, ainda desajeitados, de braços, pernas e quadris. Fiz alguns contorcionismos, para aprender a ser mulher e me despregar do chão, até que fui para o mundo da Lua, onde cabem todas as estrelas estampadas do sari indiano.

O tecido macio, leve, solto, escorregava pelo meu corpo como uma carícia, com um toque de seda. Não pensei mais em nada, esqueci de horários, compromissos, das compras, do relógio de ponto, da agenda a cumprir. Bailei pela sala como uma dançarina indiana, envolta em seus segredos. O incenso de mirra, elevou-me às alturas, como se eu estivesse dentro de uma moldura dourada.

Ninguém pode entender os segredos que um vestido pode guardar, de lembranças esquecidas, de salões que tocam Chopin. Neste momento, eu queria saber tocar piano como um Chopin e ser tocada como um piano de Chopin. Com o sari, eu me transformei na própria sinfonia, orquestrei os meus ais, regi os meus sentimentos, dei corda nas minhas emoções, fantasiei a realidade.

Vestida de indiana, viajei pelos templos, sorvi o luar como se fosse chá de hortelã, bebi do cálice mais profundo da alma, me reencontrei com os meus sonhos, estendi o meu corpo no tapete das ilusões afrodisíacas. Fartei-me de beleza, da arte de ser mulher, colocando a mesa bem servida da intuição, da sensibilidade e dos sentimentos sagrados. Mas também cometi os meus pecados imperdoáveis. Fui profana, violentei a mesmice da vida, vesti o manto mágico das bruxas, exorcizei os meus demônios, bani da face da terra as fogueiras da Inquisição, perdoei os atentados contra mim mesma.

Com o sari, senti o calor do coração, cozinhei, em fogo brando, os ingredientes mais nobres para a refeição do despertar.Tomei vinho com gosto de amoras silvestres. Dormi com a tentação estampada no olhar, em lençóis de seda, deslizando pelas curvas da cama, que parecia um navio em alto mar, com os ventos da liberdade soprando na proa. Então, abri os braços, para me imolar no altar das melhores intenções e perdoar essa mulher em busca de si mesma.

Déa Januzzi é jornalista e escritora.  Esta crônica foi publicada originalmente no jornal Estado de Minas

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

3 + 7 =

3 Comentários

Avatar
lisa santana 1 de março de 2014 - 02:19

Déa, é ótimo te ler.

Responder
Avatar
MARINEZ MARAVALHAS 24 de fevereiro de 2014 - 05:05

Belo texto

Responder
Avatar
Neuza Ladeira 20 de fevereiro de 2014 - 14:20

Déa,
Amei o texto Meus parabéns
NL

Responder