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Muita mulher passa tempos tentando dar nome ao que sente. O sono piora, a menstruação muda, a memória parece falhar, o humor oscila e o corpo responde de um jeito novo. Como essa fase costuma coincidir com trabalho, filhos, pais idosos e excesso de tarefas, é comum atribuir tudo ao estresse. Nem sempre é só isso. Em muitos casos, o que está em curso é a perimenopausa, a transição que antecede a menopausa.
O tema ganhou atenção em Jundiaí nos últimos dias. Em 16 de março de 2026, a prefeitura divulgou o trabalho de uma rede de cuidado que vem tratando climatério e menopausa com orientação em grupo e equipe multiprofissional. No relato publicado pelo município, uma mulher disse que começou a perceber fluxo menstrual irregular e falhas de memória antes de descobrir que vivia a perimenopausa. A história ajuda a explicar por que tantas mulheres demoram a ligar os sintomas à transição hormonal.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a menopausa marca o fim das menstruações por perda da função folicular dos ovários, e a idade em que ela acontece naturalmente costuma ficar entre 45 e 55 anos. O diagnóstico da menopausa só se fecha depois de 12 meses consecutivos sem menstruar. Já a perimenopausa é o período de transição até esse marco, quando os ciclos podem ficar irregulares e os sintomas aparecem com intensidades diferentes de mulher para mulher.
É justamente aí que mora a confusão. O Ministério da Saúde lista entre os sinais mais comuns dessa fase as irregularidades menstruais, os fogachos, as alterações do sono, da libido e do humor, além de ressecamento vaginal, dor na relação, sintomas urinários, ansiedade, irritabilidade, perda de memória e insônia. O Instituto Nacional sobre Envelhecimento dos Estados Unidos, ligado ao NIH, também observa que podem surgir dificuldade de concentração, sensação de “mente nublada”, mudanças no corpo e maior irritabilidade. Quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, não é raro a mulher concluir que está apenas cansada demais.
Nem toda mulher vai ter todos esses sintomas, e nem toda experiência será intensa. A OMS lembra que algumas atravessam a transição com poucos incômodos, enquanto outras têm sintomas capazes de afetar rotina, trabalho, relações e qualidade de vida por vários anos. Isso ajuda a desmontar dois erros comuns, o de achar que sofrimento nessa fase é frescura, e o de tratar a menopausa como uma doença. Não é uma doença, mas pode pedir cuidado.

O sangramento costuma ser um dos primeiros sinais a chamar atenção. Ciclos mais curtos ou mais longos, fluxo que muda de volume e intervalos imprevisíveis podem fazer parte da transição. Mas há um limite para o “isso deve ser normal”. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, o ACOG, alerta que sangramento anormal pode ser sinal de outros problemas e merece avaliação, sobretudo quando é muito intenso, aparece entre menstruações, após relação sexual, dura mais do que o habitual ou acontece depois da menopausa.
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As queixas cognitivas também pedem menos ironia e mais escuta. Falhas de memória e dificuldade de foco são relatadas com frequência nesse período, e o NIH afirma que pesquisadoras ainda estudam como essas mudanças se relacionam às alterações hormonais e ao envelhecimento. Isso quer dizer duas coisas ao mesmo tempo, a primeira é que o sintoma existe e não deve ser minimizado, a segunda é que ele não autoriza conclusões apressadas nem autodiagnóstico.
O sono ruim entra nesse pacote. A NIA informa que, na menopausa e na transição, a falta de sono pode aumentar irritabilidade, tristeza, esquecimento e risco de acidentes. Em outras palavras, dormir mal não é apenas um detalhe, porque piora a sensação geral de descontrole e pode fazer a mulher acreditar que está “dando conta de menos”, quando parte do problema tem base física e hormonal.
Também vale falar do que quase sempre fica para depois. Secura vaginal, dor na relação e mudanças no desejo sexual são frequentes nessa etapa. O NIH destaca que a vagina pode ficar mais seca ao redor da menopausa, e que isso pode tornar o sexo desconfortável. Não é um assunto menor nem um preço inevitável da idade. É questão de saúde e de bem-estar, e existem formas de cuidado.
A boa notícia é que há tratamento, e ele não é igual para todas. O NIH e o ACOG apontam que as opções incluem mudanças de estilo de vida, medicamentos não hormonais e terapia hormonal, escolhidos conforme sintomas, histórico pessoal, presença de útero, riscos e preferências da paciente. Para fogachos e suores noturnos, a terapia hormonal sistêmica costuma ser a forma mais eficaz de alívio. Para ressecamento vaginal e dor na relação, tratamentos vaginais locais com estrogênio podem ser indicados. Tudo isso deve ser definido com avaliação médica, não por modismo nem por propaganda.
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Esse ponto é importante porque a desinformação circula fácil. O ACOG chama atenção para o risco de promessas simplificadas, especialmente em torno de hormônios “bioidênticos” manipulados sem base adequada. Menopausa não se resolve com receita pronta, e o que funciona para uma amiga pode não servir para outra. O tratamento começa pela escuta correta dos sintomas e pela avaliação clínica.
Outra informação que costuma surpreender é esta, gravidez ainda pode acontecer durante a perimenopausa. A OMS recomenda manter contracepção até completar 12 meses seguidos sem menstruar, justamente porque a ovulação pode ocorrer de forma irregular nesse período. Para quem achava que essa preocupação já tinha passado, vale conversar com a ginecologista.
Quando procurar ajuda? Quando os sintomas começam a atrapalhar o cotidiano, quando o sangramento foge do padrão, quando surgem dor, tontura, insônia persistente, tristeza ou ansiedade que não cedem, quando há desconforto sexual ou urinário, e sempre que houver dúvida sobre o que o corpo está sinalizando.
A OMS afirma que a falta de informação e de acesso ao cuidado ainda é um problema em muitos países, e por isso reconhecer a fase é parte da proteção da saúde.
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No fundo, a perimenopausa pede duas coisas simples, informação boa e menos culpa. Nem tudo é estresse. Nem tudo é “coisa da idade”. Há uma transição real em curso, com efeitos físicos, emocionais e sociais.
Dar nome ao que acontece não resolve tudo, mas já muda a forma como a mulher olha para si mesma, e isso costuma ser o começo de um cuidado fundamental para se ter boa saúde.





