
Miriam Moura
50emais
Você já parou para refletir do que precisamos para (re)aprender a admirar e dar valor aos pequenos momentos do dia que trazem sensação de bem-estar? Confesso ter me esquecido deles em meio a atividades de trabalho, na correria do dia a dia, até ler duas interessantes matérias em duas das mais prestigiadas publicações americanas – a The Atlantic e a lendária The New Yorker.
A Atlantic é conhecida por reportagens de alto padrão factual. A principal proprietária é Laurene Powel, viúva de Steve Jobs, fundador da Apple. Fundada em 1925, a New Yorker influenciou gerações de profissionais de comunicação com padrão de jornalismo aprofundado, comentários políticos e culturais, ficção, poesia e humor.
A matéria na The Atlantic despertou minha atenção a partir do título: “O ingrediente que falta na vida moderna”, autoria de Ian Bogost. O subtítulo era ainda mais instigante: “Por que precisamos de admiração”. O texto aborda, de maneira leve e convincente, como a cultura de otimização, que vem sendo construída desde a industrialização em meados do século XIX, fez da eficiência um ideal central da vida profissional. E depois, quando os escritórios superaram as fábricas como símbolo de trabalho, a eficiência tornou-se mais abstrata.
Com o tempo, todos passamos a nos gerenciar proativamente, lembra o autor do texto, até otimizar nossas próprias agendas e intervalos para o almoço. “As pessoas deixaram de questionar a finalidade das atividades e passaram a se perguntar como realizá-las melhor, mais rápido ou de forma mais completa”, continua.
Assim, chegamos ao padrão de hoje, no qual a eficiência permeia todos os aspectos da vida contemporânea. “Todo o prazer torna-se instrumental, com cada instrumento focado nos resultados que pode produzir”. E aí, o texto nos “apanha”, nos mostra aonde estamos:
“A otimização é ótima se você quer chegar a algum lugar no futuro. Mas é péssima para o momento presente. Quando as metas se sobrepõem à experiência, você perde a liberdade de vivenciar a vida como ela acontece”. Bingo, como se diz aqui na terrinha. Quando perdemos essa capacidade (de vivenciar a vida) não estamos mais vivendo plenamente.

O autor do texto conta que chegou à conclusão de que o antídoto é o deslumbramento, “a mais imensa das nossas sensações”. Concordo com ele. A boa notícia é que esse deslumbramento pode surgir em qualquer lugar: ao olhar a natureza, seja ao contemplar a aurora boreal na Noruega ou a apreciar as cores dos ipês no Brasil. Em Brasília é uma visão exuberante, contagiante. Distraídos com as mensagens do celular, quase não temos tempo e olhos para os enxergar ou, pior, vermos as lindas cores dos ipês nos Stories e Reels do Instagram.
A coluna de hoje é um convite a prestar atenção a esses momentos do cotidiano, para lembrar que nossa capacidade de admirar pode diminuir, “mas ela está sempre conosco, esperando para ser redescoberta”, como conclui o jornalista da Atlantic.
Nostalgia do Século XX – A nostalgia está em alta e pode ser considerada uma nova tendência, conta a revista New Yorker. O interessante é que não é exatamente nostalgia por uma década específica, mas por uma “mistura de modas do Século XX amontoadas umas sobre as outras, criando um verdadeiro caos de referências históricas”.
A leitura dos dois textos me levou à conexão dessa onda nostálgica à perda de nossa capacidade de nos deslumbrar, de desfrutar momentos do presente. A tendência de sentirmos falta de coisas do passado, estilos de roupa, modelos de calças, bolsas baguete, chapéus e óculos deve ser porque de alguma forma a gente gostaria de sentir a sensação de viver mais intensamente pequenos momentos do presente.
A matéria da New Yorker, escrita por Rachel Syme, trata da nostalgia por aromas de perfumes que foram sucesso em décadas passadas. Lançamentos recentes são releituras de fragrâncias cultuadas nos anos 90, como a nova linha de perfumes da Gap, lançada para o verão de 2026.
Como é costume na New Yorker, o texto contextualiza seus leitores com reflexões que enriquecem a narrativa, apontando exemplos que comprovam a volta a costumes e comportamentos do século passado. A jornalista cita um autor americano: “Estamos vivendo, como escreveu o crítico George W. S. Trow, dentro do “contexto da ausência de contexto”, onde tudo o que consumimos é tão mediado e remixado que se tornou uma vaga panqueca de saudade de um tempo passado”.

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