
Miriam Moura
50emais
A coluna hoje é para falar sobre o último filme de Christopher Nolan, a adaptação para o cinema do clássico poema épico de Homero, “A Odisseia”. A montagem é um blockbuster legítimo: é o primeiro a ser rodado com câmeras Imax, tecnologia capaz de captar até 40% a mais do que câmeras comuns. É um dos mais aguardados lançamentos do ano, com orçamento de US$ 250 milhões (R$ 1,2 bilhão).
O ponto aqui é um convite para reflexão sobre a grande polêmica que a montagem vem despertando em críticos de cinema no mundo inteiro.
Para além das opiniões e resenhas sobre a fidelidade (ou infidelidade) à epopeia do retorno de um herói da Grécia antiga para casa, “A Odisseia” contemporânea do diretor Christopher Nolan é também protagonista de uma guerra cultural woke, estimulada pelo milionário Elon Musk (woke, em inglês, significa acordado; na gíria afro-americana passou a referir-se a uma postura de consciência política e social contra o racismo e a injustiça).
Ainda não assisti ao filme, mas fui invadida por posts, resenhas e críticas publicadas em vários idiomas. O filme lotou salas de exibição no mundo inteiro já no fim de semana de estreia.
Muitas reclamações
Gostaria de me deter em dois textos entre os vários que li. Um foi a crítica sobre o filme publicada na revista britânica “The Economist”. Já no título o tom veio contundente: “Uma adaptação muito tola de “A Odisseia”. A versão do diretor Nolan foi classificada de “um erro épico”.
O texto da Economist afirma que, mesmo antes do lançamento, em 17 de julho, a produção já colecionava reclamações sobre tudo, desde a atriz que interpreta Helena de Troia (a atriz negra Lupita Nyong) ao ator transgênero Elliot Page como o guerreiro Sinon.

O outro texto que vou comentar é o artigo da colunista de opinião do New York Times, Sharon Waxman, sobre “o fiasco de toda a polêmica woke” a respeito do filme, referindo-se a críticos que chamaram o filme de clássico e a “agitadores da internet incitados por Elon Musk, que desdenharam do filme por suas supostas escolhas woke”.
Gostei da abordagem da colunista do New York Times, que discorre sobre um debate mais animado e inteligente que surgiu no lugar de polêmicas woke e puristas sobre se o filme traiu ou não a epopeia do herói grego.
Verdadeiro projeto artístico
Para Sharon Waxman, é “mais relevante para a sociedade ocidental em meio a uma crise de identidade refletir se e quando uma guerra se justifica? “Que limites morais devemos aos nossos inimigos? Que transgressões merecem a punição máxima? E quem, no fim das contas, determina o conjunto de valores comuns da civilização?”
Concordo, mesmo antes de ver o filme, que essa é a reflexão que devemos estimular. Como diz a colunista: “De repente, surge uma conversa que realmente vale a pena ter”.
Na sequência, ela enumera alguns exemplos e cenas no filme sobre essas questões. E cita a classicista britânica Emily Hauser: “Eis um herói moderno de Hollywood que aprende a sentir remorso pelas atrocidades que comete e passa grande parte do tempo tentando justificar a perda de todos os seus homens, e retrospectivamente (com uma jornada final, não em Homero, para prestar-lhes homenagem) conquistando o seu perdão.”
A crítica do NYT afirma que “essa transposição dos valores ocidentais contemporâneos para o enredo de um poema épico grego é o verdadeiro projeto artístico do filme de Nolan, e proporciona um debate político mais relevante do que qualquer discussão sobre elenco sem levar em conta a etnia ou uma suposta diversidade, equidade ou inclusão”.

Crítica, profissão difícil
Três dias após a crítica negativa na revista The Economist, a correspondente de Opinião, Catarina Nixey, voltou ao tema na newsletter Plot Twist, boletim semanal cultural enviado para assinantes para admitir que “ser crítico é mais difícil do que parece”.
A jornalista fala como é árduo exercer a atividade como crítica cultural e mantém opinião negativa sobre o filme. “Ser crítico não é tão divertido quanto parece. (…) Assista a esta versão de três horas e verá que ela se arrasta tanto que parece estar sendo contada em tempo real”. A fotografia é bonita, reconhece. “Mas o roteiro é terrível. Sir Christopher é notoriamente sem senso de humor e grandioso”.
Achei peculiar a maneira direta como ela encaminha o final do texto, depois de descrever um pouco mais sobre a profissão de crítico: “Saí do cinema com medo pelo futuro da carreira de Sir Christopher. Agora, estou com medo pela minha própria”.
Como profissional de comunicação e curadora de conteúdo, o que espero é que uma montagem milionária de um diretor tão famoso, com elenco brilhante, sirva para provocar debates que inspirem a sociedade a evoluir e a entender as fragilidades que acompanham a humanidade desde a Grécia Antiga.
Veja o trailer:

Linkedin: LinkedIn.com/miriam-moura-025b5176
Leia também de Miriam Moura:
Uma pergunta à espera de respostas
É preciso reconhecer os benefícios da espera
Reflexões em torno das nossas festividades do final do ano
Precisamos refletir sobre o sentido das palavras
Souvenir, ou presentinho-lembrança: manifestação de atenção e afeto
O prazer de ler e despertar memórias
A magia do teatro transforma a língua inculta em alta cultura





