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Por que as mulheres não podem envelhecer?

Por Maya Santana

Uma simulação da atriz Cameron Diaz mais velha usando photoshop

Uma simulação da atriz Cameron Diaz mais velha usando photoshop

Déa Januzzi

Ensina-me, Marisa Sanabria, esta difícil tarefa de ser mulher. Quem devo seguir para cumprir o meu destino? Sigo o exemplo de Nefertiti, de Morgana, de Perséfone ou de Medusa que com um simples olhar transforma os homens em pedra? Diga-me, Marisa, a quem devo imitar? O modelo da Virgem Maria ou da deusa Atena, que, por ciúme, exagerou no encantamento, dando a Medusa serpentes no lugar de cabelos? Ou serei Medeia, para cuidar do meu Jasão, com muita submissão? Ou resgato a imagem de Madalena?

Ensina-me Marisa, a retirar da mitologia o nobre, mas obscuro papel das mulheres. A descobrir um modelo digno, livre do medo, insegurança, sem tanta culpa, sem tanta humilhação, dor e tormento. Ensina-me, Marisa, a ser mulher neste mundo contemporâneo de amores líquidos, violência cotidiana, banalizada, radicalismo e fundamentalismo, apesar de você ter me sussurrado que o feminino é uma conexão e não exclusão.

Aprendi com você, Marisa, que o feminino sintoniza com inclusão, que não nos salvamos sozinhas, mas no coletivo. Repita para mim que a ideia falida do mundo contemporâneo é que se pode salvar apenas alguns, os ricos, os brancos, os alfabetizados, os homens, os heterossexuais. Nesse mundo patriarcal, não é Marisa, sempre deixamos muitos de fora. Pois a essência do sistema patriarcal é a exclusão e a implosão de tudo o que não está alinhado com o que se considera normal e correto.

Ensina-me Marisa que o feminino não julga, não exclui. Está focado no bem estar coletivo e na salvação da prole, num gesto de respeito às diferenças e na compaixão pelo outro. Repita para mim Marisa, que a vida não é previsível como os economistas tentam nos convencer. O feminino é imprevisível, surpreendente. É o milagre da existência, sem querer traduzir o mistério em uma fórmula matemática. O feminino é uma trama que vai sendo construída, feita, refeita, tecida no dia a dia – e com encantamento.

Ensina-me sobre o poder das feiticeiras, cubra-me com a força de Joana D’Arc, com o manto sagrado de mulheres que ousaram soprar a poeira da escuridão. Ensina-me, Marisa, onde está o feminino no meio da aridez do mundo? Conta-me sobre essa trama de ser mulher, de fazer e desfazer, de recortar, colar, para
formar um painel de movimentos, formas, sentimentos. Como um caleidoscópio de cacos coloridos, que juntos dançam e dançam.

Fale-me dessa essência de lua e noite, de dias gelados, mas também de girassóis. Deixa-me beber na fonte das sacerdotisas, com seus punhais que penetram o ventre da Grande Mãe. Deixa-me beber na taça, no graal, na fonte da vida. Conta-me sobre os rituais celtas, dos círculos do fogo e das anciãs e seus poderes mágicos. Deixa-me, Marisa, viver sem tantas inquietações, sem tanta raiva, sem tanta ambiguidade, sem tanta necessidade de afeto, de retorno. Deixa-me vestir saias rodadas outra vez, no lugar de casacos com ombreiras e botas para encontrar um lugar no mundo masculino.

Conte-me Marisa, por que as mulheres não podem envelhecer? Porque elas são excluídas do trabalho quando surgem as primeiras rugas? Ensina-me Marisa como envelhecer sem transformar o rosto e o corpo em uma caricatura de plásticas.

Mostra-me como ser múltipla e inteira. Como ser uma mulher de 60 anos, num mundo que não quer nem saber sobre a velhice que já está tomando conta do mundo como um terremoto? Por que, Marisa, as mulheres com mais de 60 ainda escondem a idade?

Ensina-se, Marisa, como perdoar as minhas próprias falhas, os meus defeitos, como conviver com os cabelos brancos? Com os esquecimentos, a visão encoberta por nuvens?

Ensina-me, Marisa, a ser dona de casa, a sempre achar a vida bela, leve, transparente, com novas receitas de doces e tortas, de sonhos e projetos que nunca envelhecem. Ensina-me a exorcizar os demônios de uma sociedade que não quer ver os seus velhos. Diga-me, Marisa, como falar do terremoto do envelhecimento. Como convencer as pessoas de que em 2050 o grupo de mulheres com mais de 85 anos vai ultrapassar o de todas as outras faixas etárias? Será que as mulheres vão continuar sós, Marisa, excluídas e invisíveis? Diga para o mundo, Marisa, que o culto à juventude não está mais afinado com a realidade. Está com os dias contados. Antes que seja tarde e sejamos sugados pela tsunami da velhice.

Déa Januzzi é jornalista e escritora PS: Marisa Sanabria é psicóloga, filósofa, criadora da Clínica do Feminino, tem 60 anos e é minha amiga de todas as horas.

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10 Comentários

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IaraJardin 17 de março de 2015 - 23:29

Tenho 60 anos,mente cheia de memórias,de 20,30,40,50,anos,as vezes me pergunto,passou,passei,ficou,fiquei?O que vem,prefiro mudanças ,dentro de mim,diárias,infinitas,sublimes,enfim,sou Assim!Uma metamorfose de anos afim.

IARA REGINA JARDIM GONÇALVES.

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Elzita Schulten 10 de fevereiro de 2015 - 11:32

Você fala com mais de 50 e com mais de 70, é dificel se vestir bem, ou ficas ridicula pois não uso mais salto alto.Eu gostaría de um meio termo. Gostei muito de ler, não estou só nesta situação, : Permanecer bonita, esta alegre, jantar para filhos netosisto até gosto, sair etc.
Gostei de sua página. Beijos.

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VERONICA 10 de fevereiro de 2015 - 07:49

Não sou boa com palavras ………….MAIS ESTA CRONICA É TUDO D MAIS LINDO …SERIO…E VERDADEIRO QUE JA LI…

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Carlos Cunha 9 de fevereiro de 2015 - 18:30

E esta tal eternidade que na verdade é preciosa quanto a mulher de nossa juventude. E esta tão juventude que é rápida como uma luz de um relâmpago e passa pela vida da gente feio potes de sorvetes que alimentamos no verão. A mente armazena lembranças e no coração a emoção dos versos de uma canção. O Homem de Nazaré nos remete ao ano de 1973 e e esta tal Jovem Guarda completa 50 anos. Pelo meus cálculos estou saindo de cena e alguém de sessenta anos vai tomar o meu lugar. Lembro do saudoso Escritor que perto de completar 60 anos fez uma cronica de despedia para o jovem de 50 anos. Com o tempo aprendemos a digerir verdades, mas esta tal idade que vai chegando nos faz acreditar que deve existir um plano B. Tenho saudades do Carteiro que habitava em mim e com ele pude viver emoções sem fim. Ele era rápido como um risco de luz a fazia cem metros em menos de 10 segundos. Quanto vezes achava graça no fusca que levava Paulo Isidoro, Toninho Cerezo e Reinaldo para casa. Lendo e relendo a Cronica de Déa despertou em mim uma ideia. Nas vestes de um peregrino o Mestre aparece sorrindo para a doce Maria e derrama sobre ela a luz e a graça de sua poesia. Ressoa nos dedos de um violão versos de uma canção: ‘ AH mulher deixa que minha paz penetre em tuas profundezas então haverás de descobrir que a minha graça e meu amor é algo de rara beleza! ‘ Como diz o sabio a beira do caminho: Esta expressão refere-se à cidade de Roma (urbi) e ao mundo (orbi). Utilitas publica … É uma interjeição latina extraída do Eclesiastes na tradução da Vulgata. … V anitos vanitatum, ovmia vanitas — “Vaidade das vaidades e tudo é vaidade”. Existe uma expressão poética onde a mulher é o centro das atenções, pois se você tirar a poesia da mulher do planeta azul ele se torna sem vida. Deus se alegrou em tecer a mulher com os dedos de suas mãos e inspirou o poeta a dizer: Deus ama tanto a mulher e deu ela esta característica tão peculiar. A mulher é vaidosa pela própria natureza, portanto jamais despreze a força de uma mulher.

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benvinda maria de assis 8 de fevereiro de 2015 - 20:03

Dea,querida. Amei.Voce sempre escrevendo tudo que o nosso pensamento,nossa emoção,
nosso mente,nosso espirito,nosso corpo quer e deseja manifestar. Com esta cronica voce
conseguiu superar.Estou verdadeiramente emocionada.Bjs Benvinda

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Célia de Freitas 8 de fevereiro de 2015 - 14:09

Belíssimo texto, Déa Januzzi! Belíssimo convite a reflexão! Conheço Marisa, conheço seu trabalho e as felicito pela coragem se colocarem em terrenos tão arenosos e difíceis de pisar, de estar. A própria reflexão acerca de questões que são colocadas à margem ou tratadas superficialmente, já são bastante para causar inquietude, angústia e uma vontade súbita de acreditar que tudo isso pode ficar lá na mitologia, nos contos; uma certa fantasia de que podemos ignorar todas essas questões e seguir como se nada disso existisse. Talvez por isso cada vez mais nos escondamos por trás dos milagres da juventude superficial, a fugir dessa realidade inevitável, o envelhecimento, que sabemos não é só físico…. Em 2050 eu estarei 5 anos mais velha do que vocês estão hoje e confesso agora em lágrimas, que desejo muito ter as respostas que você e tantas outras mulheres sábias buscam, porque eu já sinto e pressinto os desafios que aguardam minha geração. Meu abraço carinhoso.

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nuzia 8 de fevereiro de 2015 - 11:23

Maravilhoso! Basta para falar deste texto.

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leda maria soares cunha bello 8 de fevereiro de 2015 - 01:56

MARAVILHOSA MENSAGEM REALISTA, SENSATA, POÉTICA, LÍRICA.TUDO ISSO COMO UMA CANÇÃO MELANCÓLICA, UM ALERTA E MESMO ASSIM UMA COR DE ESPERANÇA, PARA NOSSA NETAS,NÃO PARA NÓS. POR ENQUANTO SEREMOS INVISÍVEIS. E PELA COR DE NOSSOS CABELOS, AS RUGAS INEVITÁVEIS, E PIOR, SEREMOS EVITADAS PELO NÚMERO DE ANOS EM NOSSOS CURRÍCULOS NO MUNDO DO TRABALHO,DO MERCADO. NOSSA INTELIGENCIA, PERCEPÇÃO, VALORES,EXPERIENCIA NEM SEQUER SERÃO LIDAS POR UMA SECRET´RIA QUE SELECIONA POSSÍVEIS CANDIDATAS PARA UMA ENTREVISTA.
PARABÉNS DEA. SAUDADES.

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stael 7 de fevereiro de 2015 - 23:30

como sempre maravilhoso.

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Josefina 7 de fevereiro de 2015 - 22:30

Um texto para refletir, profundo e humano!

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