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Por que as nossas cidades são inimigas do idoso?

Por Maya Santana

Beatriz Segall se feriu feio ao levar uma queda na calçada no Rio em meados de 2013

Beatriz Segall se feriu feio ao cair numa calçada no Rio, em 2013

Déa Januzzi

Se pudesse, convidaria o médico e especialista em envelhecimento populacional, Alexandre Kalache para pedir urgência aos governantes do mundo e à sociedade em geral na implantação do Guia Global da Cidade Amiga do Idoso, elaborado por ele em 2005 e com a adesão de algumas cidades no Brasil, como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Em Copacabana onde nasceu e mora atualmente, Kalache, de 69 anos, tem como projeto de vida envelhecer melhorando a vida dos idosos.

Salve, Kalache, porque o assunto não é brincadeira. As cidades hoje são inimigas cruéis das pessoas com mais de 60 anos. São tombos, pernas quebradas, cotovelos escoriados, braços engessados depois de quedas homéricas em buracos, deslizes nos passeios das grandes cidades, declives inesperados, ruas sem tampas de bueiros, sem as mínimas condições para quem passou dos 60 anos. Eu mesma levei um tombo inesquecível por causa de um buraco no passeio da minha cidade, que me deixou feridas no corpo e na alma, afetou a minha auto-estima e me custou meses de tratamento. Até hoje, o meu cotovelo tem as marcas do tombo e perdi os ligamentos do joelho direito, imagine Kalache! E olha que eu só tenho 62 anos.

Anos antes, minha mãe que não está mais entre nós para sentir os percalços da idade, caiu num degrau falso no meio da rua e quebrou o pulso. Mas Alexandre Kalache enxergou o enorme desafio que os países em desenvolvimento terão pela frente se não começarem a pensar e agir sobre o envelhecimento da população imediatamente. Em 2050, o mundo terá 2 bilhões de idosos segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais de 80% deles estarão vivendo em países como o Brasil. Aqui a porcentagem de pessoas idosas vai pular de 9% para 18% até 2022. Como adequar a sociedade a essa mudança demográfica brutal? “Começando a pensar e a planejar já”, disse ele.

Sim, Kalache, já, pois as cidades são cruéis para quem tem mais de 60. Andar na rua pode ser uma armadilha perigosa para derrubar velhos. Conheço pessoas que se trancaram dentro de casa depois de um tombo. Como Renée de Lima Viana, de 101 anos, que, mesmo de braços dados com a filha, foi sugada por um buraco no meio do tortuoso caminho. E nunca mais quis por os pés na rua. Ela é hoje refém da velhice e de uma cidade que é uma via-crúcis, um verdadeiro pesadelo para quem envelhece.

Exemplos não faltam de cidades inimigas dos idosos. Pode perguntar a qualquer um. Todos têm um ou dois casos para contar sobre os percalços do caminho de quem está envelhecendo nas cidades contemporâneas. Só para citar um deles – o de uma atriz famosa, Beatriz Segall, que em julho de 2013, aos 88 anos na época, foi ao Rio para assistir à peça “O tempo e os Conways”, na Casa da Gávea, no Baixo Gávea. Assim que chegou ao teatro, tropeçou na calçada e bateu com o rosto no chão. A calçada estava esburacada. Ainda bem que ela foi socorrida prontamente e teve o poder de processar a prefeitura do Rio de Janeiro.

Mas imagine, Kalache, os inúmeros velhos anônimos que tropeçam, caem, machucam, perdem movimentos sem serem ouvidos. Velhos invisíveis, sem voz e sem recursos financeiros e sociais!. Os milhares de velhos que vivem nas cidades inimigas dos idosos. Salve, Kalache, venha em auxílio de todos nós!

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4 Comentários

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Estela Rufino 19 de abril de 2015 - 20:31

Isso é muito preocupante!
A reportagem cita os idosos, mas eu vejo no dia a dia – ainda não cheguei aos 60 mas por estar com a saúde debilitada e sem a agilidade de outrora. Hoje vejo com medo o que antes observava e repudiava. Digo medo pois há uns 15 dias não tive coragem de ir à fisioterapia por medo de cair ao descer do coletivo e mais medo ainda de atravessar a rua. Transito desumano e passeios caóticos e insignificantes. Que no caso de Belo Horizonte, afeta à todos, são verdadeiras armadilhas, com ou sem chuva, com o aumento de veículos e o alargamento das vias o que era ruim e pequeno tornou-se péssimo e insignificante.
Semana passada mesmo comentei sobre isso, sobre um projeto de longo prazo – 20 anos creio – para mudar o que protela por décadas sem fim e que piora a cada dia.

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Marlyana Tavares 19 de abril de 2015 - 14:55

Oi Déa, vi o compartilhamento da Sandra no Facebook e entrei o blog para conferir. Muito pertinente a crônica, ótimo texto como sempre e parabéns ao blog, conciso, limpo e variado.
Bj

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Thelma Lopes Campbell 19 de abril de 2015 - 01:56

Temos que exigir das autoridades pensarem na população idosa, melhorando o calçamento das ruas e passeios, buracos, desníveis, lixos, etc… nas ruas das cidades. Talvez até fazendo um passeio com corrimões e pisos especiais para idosos, cadeirantes, cegos e portadores de outras necessidades, porque; quem não morrer jovem, vai necessitar destes cuidados um dia!

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Magda Campbell 18 de abril de 2015 - 21:14

Déa Januzzi,
Gostei muito de sua crônica sobre o perigo das cidades para o
idoso.
Eu mesma levei vários tombos, enfiando o pé em buracos nas
ruas, escorregando em passeios íngremes e outros problemas.
Fiz o curso ” Antiquedas” através da Academia da Cidade por
4 meses.
Aprendi que o idoso precisa ter mais equilíbrio e firmeza!
Exercício físico fortalecendo os membros é uma necessidade.
Adequação do calçado tb..
Sugiro que vc faça uma entrevista com professores e médicos
que atendam esta área para maiores esclarecimentos.
Sinceramente, grata.

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