
50emais
Assim como o Brasil, vou envelhecendo mais rápido do que gostaria. Cheguei aos 75. Física e mentalmente, me sinto muito bem. Como trabalhei a vida inteira e me preparei financeiramente para essa etapa da vida, os meus problemas com a idade, envelhecendo entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, são de outra ordem. O pior deles, a meu ver, é o preconceito (simplesmente por eu ser mais velha), ainda muito forte no Brasil.
Envelhecer já não é fácil, mas torna-se um processo ainda mais problemático para a maioria da população num país como o nosso, devido a uma combinação de fatores econômicos, sociais, culturais e de saúde. Para as mulheres, as dificuldades costumam ser ainda maiores, resultado de desigualdades acumuladas ao longo da vida inteira.
A expectativa de vida aumentou nas últimas décadas, e o número de pessoas com mais de 60 anos cresce em ritmo acelerado. Apesar disso, o país ainda não se preparou adequadamente para oferecer condições dignas de envelhecimento à população.
Falta dinheiro
Uma das maiores dificuldades é exatamente a questão financeira. Muitas mulheres passaram boa parte da vida dedicadas ao trabalho doméstico e ao cuidado dos filhos, atividades essenciais para a sociedade, mas que não geram renda nem contribuições previdenciárias suficientes. Como consequência, chegam à velhice com aposentadorias menores ou dependentes da renda de familiares.
A desigualdade salarial também produz efeitos duradouros. Mesmo quando trabalham fora, as mulheres costumam ganhar menos que os homens em funções semelhantes. Essa diferença se acumula durante décadas e se reflete diretamente na qualidade de vida na aposentadoria.
Outro problema é a solidão. As mulheres vivem mais do que os homens e, por isso, é comum que cheguem à velhice viúvas. Muitas vezes os filhos já constituíram suas próprias famílias, e a rede de convivência diminui gradativamente. O isolamento social pode favorecer quadros de depressão, ansiedade e perda da autoestima.
Cabelos brancos e rugas
A saúde representa outro grande desafio. Embora as mulheres costumem procurar mais os serviços médicos, enfrentam doenças crônicas, dores articulares, osteoporose e outras doenças próprias do envelhecimento. O acesso a especialistas, exames e tratamentos nem sempre ocorre de forma rápida e eficiente.
E há, claro, como mencionei, o preconceito relacionado à idade. Mesmo com o envelhecimento visível da população – basta você olhar à sua volta -, as pessoas ainda valorizam excessivamente a juventude, principalmente quando se trata da aparência feminina.
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O preconceito é tão grande que há várias palavras para nomeá-lo: etarismo, idadismo, ageísmo. E se reflete na pressão que as mulheres, principalmente, sofrem para esconder os sinais do envelhecimento, como cabelos brancos, rugas e mudanças corporais. Essa cobrança pode afetar a autoconfiança e a percepção que a gente tem do próprio valor.
Mercado de trabalho
No mercado de trabalho, o etarismo é uma realidade. Mulheres acima dos 50 anos frequentemente encontram mais dificuldades para conseguir emprego ou recolocação profissional. O preconceito combina idade e gênero, criando uma barreira dupla para quem deseja continuar ativa.
Outro aspecto importante é a sobrecarga do cuidado. Muitas mulheres idosas continuam responsáveis por maridos doentes, netos ou familiares dependentes. Mesmo após décadas dedicadas aos outros, seguem exercendo funções de cuidadoras, frequentemente sem apoio adequado.
A violência contra a pessoa idosa é outra preocupação crescente. Mulheres idosas estão entre as principais vítimas de abandono, negligência, violência psicológica e até violência financeira praticada por familiares ou pessoas próximas.
Libertação e realização
Apesar dos desafios, envelhecer pode ser uma fase rica em descobertas, liberdade e realização. Muitas mulheres encontram novas oportunidades para estudar, viajar, praticar atividades físicas, desenvolver projetos pessoais e fortalecer vínculos sociais.
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Para que isso seja possível, porém, é necessário que o Brasil invista mais em políticas públicas voltadas ao envelhecimento. São fundamentais melhores serviços de saúde, incentivo ao envelhecimento ativo, combate ao preconceito etário, proteção social e apoio às cuidadoras. Também é importante mudar a forma como a sociedade enxerga a velhice. Envelhecer não deve ser visto como um problema, mas como uma conquista. Afinal, viver mais é uma das maiores vitórias da humanidade.
O grande desafio brasileiro é garantir que esses anos adicionais sejam vividos com dignidade, segurança, autonomia e qualidade de vida. E isso é especialmente urgente para as mulheres, que representam a maioria da população idosa e carregam as marcas profundas das desigualdades.
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