
50emais
Há um paradoxo difícil de ignorar na democracia brasileira: as mulheres são maioria entre os eleitores, mas continuam sendo minoria nos espaços onde as decisões políticas são tomadas. No ranking mundial de representação feminina na política, o Brasil ocupa o 133º lugar entre os 183 países avaliados, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e da União Parlamentar Internacional. Nas eleições de 2026, elas representam 52,84% do eleitorado brasileiro, cerca de 83,8 milhões de pessoas. Ou seja, mais da metade dos brasileiros aptos a votar é mulher.
Mas basta olhar para os parlamentos e para os cargos executivos para perceber que essa maioria eleitoral não se transforma em uma presença proporcional no poder. Nas eleições gerais de 2022, por exemplo, apenas 91 mulheres foram eleitas para a Câmara dos Deputados, aproximadamente 18% das cadeiras. Para o Senado, foram apenas quatro.
Por que isso acontece? Há muitas respostas possíveis. Mas três palavras ajudam a entender o problema: machismo, dinheiro e violência. Machismo, primeiro. Durante séculos, a política foi considerada um território masculino. Aos homens caberia governar, disputar eleições, negociar, ocupar cargos e tomar decisões. As mulheres teriam a função de, principalmente, cuidar da casa, dos filhos e da família.
Dinheiro é o segundo obstáculo
A sociedade mudou. As mulheres estudaram, conquistaram independência financeira, ocuparam o mercado de trabalho e chegaram a praticamente todas as profissões. Mas a política ainda carrega muito daquela velha estrutura.
Uma mulher candidata frequentemente é julgada não apenas por suas ideias e propostas, mas pela aparência, pela roupa, pela idade, pelo comportamento e até pela maneira como fala. Quando é firme, pode ser chamada de agressiva. Quando é conciliadora, pode ser considerada fraca. Esse duplo padrão ajuda a manter a política como um ambiente predominantemente masculino.
Leia também: Violência política impede que mais mulheres se candidatem
O segundo obstáculo é dinheiro. Campanha eleitoral custa caro. É preciso ter estrutura, equipe, comunicação, deslocamento, publicidade e acesso às redes de apoio político. E quem chega às eleições com menos recursos ou menos espaço dentro dos partidos parte de uma posição desigual.
Menos de 34% dos candidatos são mulheres
A legislação brasileira criou mecanismos para ampliar a participação feminina. Os partidos precisam destinar recursos públicos às candidaturas de mulheres segundo as regras eleitorais. Para 2026, o TSE divulgou os percentuais de candidaturas que orientam a distribuição do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral. Mesmo assim, a distância permanece.
Em 2026, foram registradas 20.560 candidaturas para as eleições gerais. Apenas 7.165 eram de mulheres: 34,85%. Os homens representaram 65,15%. Ou seja: a mulher é 52,84% do eleitorado, mas representa apenas 34,85% das candidaturas consideradas para as eleições gerais de 2026.
E chegamos à terceira palavra: violência. Não se trata apenas de agressão física. A violência política de gênero pode ser moral, psicológica, sexual, econômica e também ocorrer nas redes sociais. Pode aparecer em ameaças, perseguições, humilhações, ataques à reputação e tentativas de silenciar uma mulher que ocupa ou pretende ocupar um cargo público.
As terríveis consequências da violência
O próprio TSE destaca que a violência política pode ter como objetivo impedir, dificultar ou restringir o exercício dos direitos políticos das mulheres. Desde 2021, a violência política de gênero é crime no Brasil.
Leia também: Com as eleições chegando, ela precisa ser lembrada
Um estudo publicado em 2026 pelo TSE, analisando notícias sobre as eleições municipais de 2020 e 2024, identificou manifestações de violência política contra mulheres em diferentes regiões do país e destacou a presença de violência simbólica e psicológica, muitas vezes não reconhecida como violência ou crime eleitoral.
É importante perceber o efeito disso. Quando uma mulher é atacada simplesmente por participar da política, o problema não termina nela. Ele afeta todas as mulheres que poderiam pensar em seguir o mesmo caminho.
Importante para a democracia representativa
É como se a sociedade dissesse: você pode votar, mas entrar na sala onde as decisões são tomadas será muito mais difícil. E há uma contradição ainda maior. As mulheres não são apenas maioria entre os eleitores. Elas são também diretamente afetadas por decisões políticas relacionadas à saúde, educação, violência doméstica, creches, aposentadoria, trabalho, igualdade salarial, cuidado com idosos e tantas outras questões.
Ter mais mulheres na política não significa que todas pensarão da mesma maneira ou defenderão as mesmas propostas. Mulheres não constituem um bloco político único. Elas têm diferentes ideologias, partidos, origens sociais, raças, religiões e visões de mundo.
Mas uma democracia representativa precisa permitir que mulheres tenham condições reais de disputar e exercer o poder. Não basta convidá-las para votar. É preciso garantir que possam também ser votadas, eleitas, governar, legislar e participar das decisões.
Decisões que afetam a vida de todos nós
O Brasil já deu passos importantes. Existem cotas de candidaturas, regras de financiamento e legislação contra a violência política de gênero. Mas os números mostram que a igualdade de participação ainda está distante.
Talvez a pergunta que devêssemos fazer neste ano eleitoral seja simples: Como pode uma democracia considerar normal que mais da metade de seus eleitores seja mulher, enquanto os lugares de poder continuam ocupados majoritariamente por homens?
As mulheres brasileiras só conquistaram o voto em 1932, depois de muita luta. Agora, o grande desafio é fazer com que a maioria que existe nas urnas também tenha espaço proporcional na construção das decisões que afetam a vida de todos nós.
A empresária Luiza Trajano lidera um movimento, “Pula para 50”, que busca exatamente aumentar a presença das mulheres nas esferas de poder. Olha o que ela diz numa entrevista à CNN:
Leia também: Representação feminina brasileira na política ainda é uma das menores do mundo





