
Marina Hope
50emais
Tenho 75 anos. Lido bem com meu envelhecimento – com a parte boa e com a parte não tão boa. Na verdade, nessa altura da vida, o que mais me aborrece é ser tratada – no banco, no supermercado, na loja, na repartição pública, no bar, seja lá onde for – com um certo desdém, com displicência, como se, por ter envelhecido, não merecesse atenção, não tivesse mais valor. Isso me deixa exasperada.
O que acontece é que os brasileiros realmente discriminam os mais velhos. Isso ocorre por uma combinação de fatores culturais, econômicos e históricos. O etarismo — preconceito contra pessoas idosas, aquelas com mais de 60 anos — existe no mundo inteiro, mas, no Brasil, ganha características próprias porque o país envelheceu muito rápido sem se preparar para isso.
Já foi jovem
Durante décadas, o Brasil foi visto como um país jovem. A valorização da juventude virou quase um ideal nacional: corpo jovem, produtividade, aparência, velocidade, novidade. Envelhecer passou a ser associado à perda de valor social. Em muitos ambientes, especialmente no trabalho, o idoso é tratado como alguém “ultrapassado”, mesmo quando possui experiência e conhecimento.
Há também uma questão econômica importante. Em uma sociedade desigual como a brasileira, muita gente vê o envelhecimento com medo: medo da pobreza, da doença, da dependência e da solidão. O velho acaba se tornando um símbolo dessas inseguranças coletivas. Em vez de enxergar a velhice como uma etapa natural da vida, parte da sociedade a trata como um “problema”.
Idoso invisível
Outro ponto é que o Brasil nunca construiu uma cultura forte de respeito intergeracional como existe em alguns países asiáticos ou mediterrâneos. Aqui, frequentemente o idoso é invisibilizado. Isso aparece em pequenas atitudes diárias: piadas sobre idade, dificuldade de contratação após os 50, desprezo pela opinião dos mais velhos, abandono familiar, impaciência no atendimento, falta de acessibilidade urbana e representação limitada na mídia.
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Existe ainda uma contradição brasileira: o país diz respeitar os idosos, mas idolatra a juventude. Basta observar a pressão estética, a obsessão por parecer jovem e o mercado bilionário de “anti-idade”. Muitas pessoas têm medo de envelhecer porque aprenderam que envelhecer significa perder espaço, desejo, autonomia e importância.
Ficando velho
A discriminação também cresce porque o envelhecimento populacional aconteceu rápido demais. O Brasil levou poucas décadas para deixar de ser um país jovem. A sociedade, as empresas e o Estado ainda funcionam com mentalidade voltada para adultos jovens. Isso cria choque entre gerações e sensação de que os idosos “pesam” sobre a Previdência ou a saúde pública, uma visão muitas vezes injusta e simplificada.
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Mas esse cenário começa a mudar. O aumento da população acima dos 60 anos está obrigando o país a rever preconceitos. Dados do Censo 2022 do IBGE mostram que o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em 12 anos. Em cinco anos, o Brasil terá uma das populações mais idosas do planeta em números absolutos – isso quer dizer que o Brasil estará entre os países com o maior número total de idosos do mundo. O país deixou de ser uma nação predominantemente jovem e caminha rapidamente para um perfil semelhante ao de países europeus e asiáticos envelhecidos.
Valorizar o idoso
Hoje existem idosos trabalhando, estudando, viajando, empreendendo, namorando e ocupando espaços antes considerados “de jovens”. A ideia de velhice está sendo redefinida.
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O problema é que o Brasil envelheceu antes de aprender a valorizar o envelhecimento. E talvez a maior ironia seja esta: uma sociedade que discrimina os velhos está, ao mesmo tempo, discriminando o próprio futuro — porque todos, se tiverem sorte, envelhecerão.





