
Ricardo Bastos
Encontrei uma amiga numa festa e, em determinado momento da conversa, perguntei pelo ex-marido. Eles haviam se separado depois de quase 30 anos juntos, sem grandes brigas, pelo menos que eu soubesse. “Não sei”, ela respondeu. “Faz uns oito meses que não falo com ele.”
Estranhei. Eles tinham filhos adultos, amigos em comum e uma história longa, daquelas em que é difícil olhar uma fotografia antiga sem encontrar o outro em algum canto. Perguntei se não haviam continuado amigos. Ela sorriu antes de responder: “Não. Nós nos separamos.”
Achei graça, mas a frase ficou comigo.Talvez tenhamos acrescentado uma nova obrigação ao fim dos relacionamentos. Não basta terminar sem guerra, dividir o que precisa ser dividido e seguir a vida. Parece haver certa expectativa de que duas pessoas maduras consigam transformar automaticamente um casamento encerrado numa bela amizade.
Algumas conseguem. Conheço ex-casais que almoçam juntos, comemoram aniversários, conversam sobre os filhos e até conhecem os novos companheiros um do outro. A relação amorosa terminou, mas permaneceu um afeto que encontrou outra forma de existir. Quando funciona, pode ser muito bom.
Há também quem precise de distância para conseguir se separar de verdade. Não por raiva ou desejo de apagar o passado, mas porque continuar acompanhando a rotina do outro mantém aberta uma porta que a separação deveria ter fechado. Nem todo afastamento nasce de ressentimento.
Depois dos 50, essa história costuma ganhar outros contornos. Um casamento de décadas raramente termina apenas entre duas pessoas. Há filhos, genros, noras, netos, amigos, aniversários, casamentos e almoços de família. A separação acaba reorganizando uma pequena comunidade construída ao longo dos anos.
O ex pode continuar aparecendo no aniversário do neto, na formatura do filho ou três cadeiras adiante numa mesa de Natal. Conviver com respeito nessas ocasiões pode tornar a vida de todos mais fácil. Significa que duas pessoas conseguiram separar o fim do casamento dos vínculos familiares que permanecem.
Mas isso é amizade? Tenho minhas dúvidas. É possível respeitar alguém sem desejar sua companhia, conversar sem intimidade e torcer para que o outro esteja bem sem precisar saber como foi o fim de semana dele. Civilidade e amizade não são necessariamente a mesma coisa.
Durante muito tempo, talvez tenhamos confundido maturidade com capacidade de permanecer. Permanecer no casamento, permanecer próximo, permanecer disponível. Só que terminar também é uma decisão adulta, e cada relação parece exigir uma distância diferente depois do fim.
Para algumas pessoas, essa distância cabe numa mesa de restaurante. Para outras, precisa ser de alguns quilômetros. Há quem telefone para o ex quando acontece alguma coisa importante e quem prefira descobrir as novidades pelos filhos. Nenhuma dessas escolhas, isoladamente, revela a qualidade do relacionamento que existiu.
Há separações respeitosas que terminam em amizade e outras, igualmente respeitosas, que terminam em silêncio. O problema talvez esteja em imaginar que uma escolha seja emocionalmente superior à outra ou que continuar próximo seja necessariamente uma demonstração maior de maturidade.
Existe ainda outra questão quando alguém novo chega. Nem todo companheiro se sente confortável diante de uma intimidade construída durante 20 ou 30 anos. E nem sempre é fácil distinguir uma amizade verdadeira de um casamento que terminou oficialmente, mas continua ocupando grande parte da vida dos dois.
Lembrei então daquela conversa na festa. Minha amiga não falava do ex com raiva, não enumerou antigas mágoas nem tentou me convencer de que estava melhor depois da separação. Simplesmente não sabia como ele estava. E parecia perfeitamente tranquila com isso.
Talvez algumas pessoas permaneçam amigas porque descobriram que ainda gostam de caminhar próximas, mesmo sem o casamento. Outras seguem caminhos diferentes porque foi justamente isso que decidiram quando se separaram.
Continuar amigo pode ser uma bela forma de preservar o afeto. Despedir-se e ir embora com respeito também pode ser.
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