
Miriam Moura
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“A linguagem deforma”. A afirmação foi feita por Mário Pedrosa, o grande crítico de arte do Brasil, em artigo publicado no Jornal das Letras, em 1953, com o título “A arte e as linguagens da realidade”. Cada frase, cada insight, cada parágrafo do intelectual é um ensinamento e uma predição do contexto atual, na era da hiper conexão informacional digital, com cerca de 186 milhões de brasileiros usuários da internet, 86,2% da população.
As reflexões são importantes para mostrar o processo de reforço de ideias preconcebidas, que adotamos desde a infância e reproduzimos como grilos falantes durante décadas, impregnando mentes de gerações. Foi isso que Mário Pedrosa alertou, de maneira brilhante, sete décadas atrás.
Os trechos do artigo são merecedores de muita atenção, especialmente na semana em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, em 20 de novembro. Algumas citações no texto são reproduções do pensamento do psicólogo e linguista inglês Charles Klay Ogden (1889-1957), que chegou a sustentar que a nossa herança linguística não foi apenas “uma vantagem imensa”, mas, “em menor escala, uma calamidade”.
Ogden escreveu que a linguagem é um “veículo automático da tradição, por intermédio dela recebemos prontinhas as receitas de muitas de nossas atitudes morais. E essas nos habituamos, desde crianças, a absorver e a transmitir às gerações sucessivas, sem qualquer dúvida ou exame crítico”.

O psicólogo inglês exemplificou que para crianças, as palavras “bom” e “mau” são duas máquinas prodigiosas de regulamentação ética. Elas são equiparadas para a criança aos conceitos primários de “permitido” e “não permitido”. A questão é que pouco a pouco perdem-se as origens desses conceitos, “e por fim a mente se limita a atitudes, vagamente esboçadas pelas palavras de aceitação ou recusa”.
Na mesma linha, Mário Pedrosa pontuou que “pesa sobre nossa mente um acúmulo de cristalização supersticiosa e emotiva que vem de outras eras”. E continuou: “Apesar do formidável aparelhamento expressivo que a ciência e a tecnologia moderna nos deram, o instrumento de pensar e de sentir na prática é ainda legado de uma época ultrapassada, quando nasceu o racionalismo abstrato. O pensamento reinante é ainda infestado de subjetivismo, todo armado de ideias preconcebidas, de emoções mal digeridas”.
Para Aracy Amaral, também crítica e curadora de arte, Mário Pedrosa era um profissional único, um crítico de arte incomparável, que integrou o pensamento crítico à sua atuação política e social, com uma visão que abrangia além da arte, incluindo política, arquitetura e preocupação com o Brasil.
No artigo de Pedrosa, publicado no volume “Obra crítica Vol.1” – Das tendências sociais da arte à natureza afetiva da forma”, edição da Companhia das Letras, o foco era a necessidade à época de letramento para as pessoas aprenderem a identificar a realidade tal como ela é, para uma melhor apreensão da arte. “Temos que retomar contato com a coisa, e não com a relação conceitual dela na nossa mente burocratizada”.
Mário Pedrosa afirmou que “a maioria dos homens de hoje não reage de outra forma às palavras que ouve nem às imagens reproduzidas aos bilhões”. Décadas após a publicação, é importante prestar atenção no cenário atual de comunicação no Brasil, onde a maioria da população conectada passa em média, três horas e 30 minutos diariamente nas redes sociais, com alta exposição à desinformação e fake news.
Lanço mão desse ensaio profético do eminente crítico de arte para ressaltar a necessidade premente na atualidade de letramento massivo contra a desinformação, fenômeno que tem na palavra, e nos diversos sentidos que foram sendo incorporados ao longo do tempo, um veículo eficaz.
Em tempos de infodemia (excesso de informação em circulação, tornando difícil a percepção do que é verdadeiro ou falso), aumenta a necessidade de prestar atenção nas reflexões feitas por Mário Pedrosa, como no trecho a seguir, uma citação do acadêmico e político norte-americano, Samuel Hayakawa (1906-92).
“Vivemos num mundo de imagens-clichês, tanto na linguagem verbal como na visual. É a civilização de hoje uma civilização exclusivamente de clichês, geometricamente multiplicados. Somos prisioneiros de antigas orientações amalgamadas nas línguas que herdamos. A linguagem da visão, talvez ainda mais sutil e completa que a verbal, determina a estrutura de nossa consciência. Ver dentro de limitados modos de visão não é ver, é enfeixar-se no mais tacanho paroquialismo de sentimento”.

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