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“Preciso começar a planejar a minha velhice”

Por Maya Santana
Déa Januzzi, autora dessa e de tantos outras inspiradas cr\õnicas

Déa Januzzi, autora dessa e de tantos outras inspiradas crônicas

Déa Januzzi

Fiquei velha de um dia para o outro, mesmo que minha mãe tenha afirmado que a gente vai envelhecendo aos pouquinhos, que dá tempo de se acostumar. Uma ruga ali, outra acolá, o joelho enferrujado um dia, depois o primeiro dedo da mão que entorta por causa do anúncio de uma artrite. Os ossos rangem certas manhãs de inverno, o corpo pede um óleo para destravar. E assim, segundo minha mãe, a gente não amanhece com 100 anos não.

Confesso que envelheci em 24h devido a uma mordida da minha cachorra Frida. Ela mordeu do lado do meu pé direito. Vi estrelas. E quando acordei na manhã seguinte estava capengando, o pé inchado e vermelho. Ah, por que ela me mordeu? Da raça Lhasa Apso, Frida sempre foi assustada, morde a qualquer movimento abrupto, a ruídos altos, a fogos de artifício. No domingo à noite arrastei a cadeira da sala com muita força – e Frida voou no meu pé, com todo o instinto animal. Os dentes fininhos ficaram gravados em três buracos que escorriam sangue e água.

Deixei passar um tempo, mas o pé só inchava e doía. Ao colocá-lo no chão, dava choque, com uma dor insuportável. Amanheci na segunda-feira com mais de 100 anos, nuvens nos cabelos e nos olhos e dificuldade de ir do quarto para o banheiro. Em caso de dúvida, tateei, com um pé só até um posto de vacinação, onde me aplicaram vacina contra raiva e tétano. Disseram que o meu pé estava infeccionado. Saí de lá com receita de antibióticos por sete dias. E o aviso de que teria que ficar três dias em casa, na cama, sem fazer muitos movimentos. De molho.

Nem precisava de aviso. Amanheci com 100 anos, apesar de saber que hoje os centenários estão firmes, saudáveis, e até certo ponto ainda independentes. Alguns continuam inclusive com suas carteiras de habilitação, dirigindo o próprio carro.

No meu caso fiquei velha de dor. Não conseguia colocar o pé no chão sem gritar. Nem chegar à cozinha para fazer um café. Procurei amparo por todos os lados. Em 24 horas não conseguia mais realizar as atividades cotidianas. Me tornei dependente, como se o tempo tivesse pirado. Não conseguia mais ser dona da própria vida e dos meus afazeres diários, como tomar banho, escovar os dentes, ir ao trabalho. Esbarrava nos móveis, tropeçava nas próprias pernas, esbarrava na quina dos móveis. Você já notou que os móveis têm quinas? Pois é: quando você envelhece instantaneamente percebe que há tapetes demais, quinas demais para atravancar o seu caminho.

As várias tentativas de andar de um lado para o outro me mostraram o que é ficar velha de repente. Nesse dia descobri que o vaso sanitário do banheiro era muito baixo, que dentro do boxe não havia barras de segurança nem tapete antiderrapante. Descobri que nenhum prédio se preocupa com os mais velhos, que há escadas demais antes de chegar ao elevador, que a iluminação é muito fraca para quem não pode enxergar como antes. Descobri que o cenário urbano da cidade e a arquitetura dos prédios não favorecem os mais velhos, que acabam se tornando prisioneiros da idade.

Mas descobri também a gentileza do meu filho, que se ofereceu para me levar de um canto a outro, que fez chá de hibisco para mim e mais tarde lanche e jantar.

Descobri que passei a vida toda fazendo tudo sozinha, sem dar satisfação para ninguém nem por onde andava. Descobri que andei muito pela cidade, carregando sacolas de supermercados sempre cheias com compras pesadas. Descobri que exagerei em tudo, inclusive no vinho e no cigarro. Descobri que venho repetindo padrões, que não me cuido nem um pouco. Em 24 horas, me tornei refém dos meus exageros, indisciplina e inconstância. Em 24 horas, me vi velha, sem rumo, simbolicamente amarrada numa cama com o pé em cima de uma almofada. A mordida da Frida me obrigou a parar um pouco e a deixar que uma outra pessoa cuidasse de mim – atitude incompatível com o meu jeito de ser até então. Me senti um lixo, como um material descartável e pensei: será que as pessoas mais velhas se sentem assim como um trapo, um farrapo sem utilidade?

Em 24 horas, me lembrei de minha mãe reclamando das dores nos joelhos que a impediam de andar. Entendi porque ela resistia ao uso da bengala e não admitia nem o andador para facilitar os seus passos. Entendi que a dor do outro, por mais que você compartilhe continua sendo só a dor do outro. Entendi que preciso começar a fazer um planejamento para a velhice: onde morar, com quem, como.

Entendi que em breve eu é que vou precisar da bengala ou de um braço para me mover. Chegará o tempo em que não poderei mais correr, por falta de pernas firmes. Haverá, em breve, um tempo em que tarefas simples como tomar ônibus, ir ao banco, deitar e levantar da cama serão quase um luxo. Chegará o tempo em que fazer compras no supermercado será uma prova de fogo, mesmo que seja a dois quarteirões de casa. Um tempo em que terei de parar de correr, porque os passos ficarão cada dia mais curtos e pesados. Um tempo em que ir à farmácia, a alguns metros de casa, levará duas horas de trajeto, com meu passo incerto e trôpego.

Ah, mãe, amanheci com 100 anos!

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19 Comentários

Cleide 11 de agosto de 2016 - 21:18

Caiu como uma luva!
Passei esses últimos 10, 12 dias com minha tia em minha casa, ela com 82 anos e minha mãe com 81.
É pude ver a ação do tempo nos dando limites…

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Maria da Gloria Metzker 7 de junho de 2016 - 18:56

Déa, Parabéns pela crônica. Suas descobertas são a verdade de todas nós. No seu caso, creio que não houve um componente psicológico como no meu. Fui demitida sem motivos porque era a mais velha jornalista da redação.
Se era assim, decidi não mais pedir emprego a ninguém. Só que, um certo dia, também amanheci com 100 anos, diante da dores que assolaram meu corpo e minha alma. Um beijão.

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Carlos Rodolfo Fadino 6 de junho de 2016 - 23:23

Eu também pensei em planejar a velhice, e a primeira coisa que procurei foi informação sobre saúde, colecionei razoável quantidade de informações, informações que eu nem imaginava que existissem, por exemplo: o que comemos, o que bebemos, podem deixar nosso organismo ácido ou alcalino, ácido facilita proliferação de doenças, alcalino previne contra doenças, uma doença grave para o idoso, é a osteoporose, silenciosa, traiçoeira, também ligada á acidificação do organismo, a inteligência natural do organismo, ao equilibrar o PH do sangue, retira cálcio principalmente dos ossos, enfaquecendo a massa óssea, enfaquecendo o esqueleto. Aprendi também que as células necessitam de oxigênio, privadas de oxigênio, as células viram células cancerosas, veja o que diz Dr. Otto Heinrich Warburg, e a expressão gênica com as crucíferas, quem explica sobre isso é o grande mestre Dr. Lair Ribeiro, bem, agora temos a Internet para pesquisar, e a informação está ao alcance de todos.

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Fatima Santana 10 de agosto de 2015 - 21:23

Lindo texto

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Beatriz Lima 23 de junho de 2015 - 21:26

Déa, te conheço há 30 anos e esta experiência com a Frida doeu mais pelo fato de você adorar a cachorra e ela ter agredido você. Já quebrei o pé e fiquei 45 dias imóvel, andando de muletas, sem encostar no chão. É mesmo limitante, mas passa.

Seu texto é mais uma vez lindo e você fez da sua dor uma chamada geral para os cuidados que pessoas com alguma deficiência ou simplesmente pelo acúmulo dos anos não conseguem ter autonomia. Me recuso a imaginar você dependente de qualquer pessoa. 100 anos é muito tempo de vida e se você quiser vai chegar lá fazendo tudo que faz hoje, só não garanto que será correndo, mas andando firme e alegremente na região da Savassi e Serra. espaços que são tão seus.a. Beijo cara amiga.

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Carlos Cunha 9 de junho de 2015 - 00:30

DÉA JANUZZI; ” Com 20 anos em 1975 amava entregar cartas e jornais e fazia da Rua Goias o meu ponto de encontro. Gostava de ler os cronistas e amava as historias de Roberto Drummond e como é prazeroso devorar os escritos e aprender que a arte de viver se assemelha a arte de escrever. O Escritor é um garimpeiro solitário e seu salario é o prazer de saber que ele ganhou de Deus a arte de voar através da escrita. De tanto ler meus heróis escritores ousei rabiscar meus poemas e pude despertar mais feliz ao descobrir que aos 30 anos continuava sendo um eterno aprendiz. Um drama pessoal roubou de mim o prazer dos passos, pois meu tendão inflamou e lá esteva eu ao lado do meu Herói Dirceu Lopes que estava na sala de espera do consultório do Doutor Ronaldo Nazaré. O Jogador e o Carteiro morre duas vezes, pois a arte de andar e correr atras da bola é a mesma para quem ama dedilhar as cordas de uma viola, a mesma daquele que ama digitar suas mensagens nos teclados de sua maquina. Leio e releio o texto de Déa Januzzi e dou conta que a arte de escrever é balsamo para quem escreve e em certas ocasiões é remédio para quem lé. Foi lendo e relendo a minha miséria humana que notei que a U.T.I .do Hospital São José não era o fim. Tive experiencia semelhante ao Jonas da Bíblia: ‘ Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra. ‘ Mateus 12.40; o peixe que salvou minha vida foi a U.T.I. do Hospital São José onde fiquei 3 dias em maio de 2001. Quatorze anos depois chego ao 60 anos e observo a minha caçula Sara que esta com o mesmo 20 anos que tinha em 1975. É preciso apressar os passos, pois para quem ama vai ser sempre um fracasso afastar desta luz que nos abraça e sempre nos revela as muitas faces do amor daqueles que deixaram um legado de rara beleza. As vezes o Carteiro que fui se revela e com forte emoção removo da mochila imaginaria as cartas notáveis que sempre tinha nas mãos. Quão sublime são os dedos e a mão daquele derrama o seu coração ao escrever nas pedras do seu profeta a sua instrução, Um dia Deus usou uma pedra para comunicar com uma geração, hoje ele usa Escritores como Déa Januzzi para falar aos nossos corações. Não se iluda a juventude é um Deus nos acuda, e quão bom é a maturidade na presença do Pai eterno. Que Deus te abençoe!

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Genoveva 8 de junho de 2015 - 18:55

Dea,
Gosto de textos assim bem reais, mas é claro que precisamos tambem de um pouco ou até de muita poesia no dia-a-dia, para nutrirmos nossa sensibilidade. Estou sempre lembrando às pessoas muito exigentes com trabalhos domesticos (e por isso mesmo prefererem fazer tudo, pois ninguem faz como elas fazem) que se imaginem um dia doentes, na cama, ou então já envelhecendo e não dando conta e aí nesses momentos ter que obrigatoriamente aceitar que outro venha executar essas tarefas e até mais que isso, caso esteja dependente de cuidados de alimentação, higiene, etc. Também não gosto de pensar que venha passar por isso e ontem mesmo falavamos sobre essa situação num Grupo de pacientes com Mieloma Multiplo (cancer ainda muito desconhecido, até pela classe medica), onde há muitos casais e principalmente homens (marido e filhos) cuidando tão carinhosamente de sua esposa e mãe. O grupo já existe faz tres anos e foi criado por uma amiga minha que faleceu faz um ano, numa luta incrível para viver mais e mais…e desde então ficamos um pouco órfãos mas continuamos nos reunindo uma vez por mes e lá continuo aprendendo e me preparando para aceitar esses cuidados caso necessario, pois como já disse em outra cronica sua, sempre cuidei de mim mesma e até hoje (62 anos) gozo de boa saude, mas percebo já algumas dificuldades/lentidão fisicas apesar de só andar a pé, sempre subir escadas onde moro, buscar alimentação saudavel e não ter vicios …. mas adoro vinho, assim como voce!
Com afeto,
Genô

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Judy 8 de junho de 2015 - 08:37

Ó Déa, sinto muito que a lição foi tão dolorosa. Se a Frida pudesse falar penso que pediria desculpas e diria que ela foi um mero canal, que mandaram dar um grande susto em você que te faria parar de repente, ficar de molho uma semana, pensando. Frida te ama muito, depende de você como tantas outras pessoas que se alimentem das suas escritas. Agora faça o seu Plano para o Envelhecimento, cole na geladeira, dê uma cópia para o Gabriel e continue escrevendo suas crônicas, que com a sabedoria dos cem anos serão melhores do que nunca!
Grande abraço amiga.

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Vera 7 de junho de 2015 - 20:56

que bom ter as crônicas da Dea de volta!!

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Simone Keisen 7 de junho de 2015 - 18:20

Dea , querida!!! Adorei o seu texto!!!muito obrigada por escrever coisas tão claras e úteis.beijo grande!!!

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olga sérvulo 7 de junho de 2015 - 15:20

Adorei este texto, Déa. Acho que é até menos doloroso envelhecer 100 anos assim de chofre do que em doses homeopáticas, sentindo um pouquinho a cada dia… Coisas arrastadas não são muito de meu gosto…

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Aracelis Freitas 7 de junho de 2015 - 15:13

Parabéns pelo texto maravilhoso!
Com 69 já percebo muitas vezes que sou invisível!
Tenho pensado bastante em como viver daqui a uns anos!
Mas, vamos viver enquanto a gente não morre!
abraços!
Aracelis

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Luc Ramos 7 de junho de 2015 - 13:48

Parabéns Déa é bem assim o ato de envelhecer, tenho 70 anos e sinto todos esses desconfortos que vc mencionou. E até usando a minha veia de escritor aproveitei o ensejo e escrevi uma cronica no Facebook no meu site Luiz Carlos Luc Ramos a respeito da melhor idade. Um beijo carinhoso. Luc Ramos.

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Ana Lucia 7 de junho de 2015 - 11:06

Excelente…engraçado é que hoje amanheci com cem anos, não pela mordida da minha cadela, mais exatamente porque tenho que saber onde, com quem e como vou morar…

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Sônia gomes 6 de junho de 2015 - 22:03

Suas crônicas sempre me encantaram. Senti quando deixou de escrever no EM. O jornal de domingo perdeu , para mim , sua principal atração. Gostei muito de ler este seu texto , pois já passei por muitas das situações citadas. Como você, sempre fui e ainda sou muito independente e nas vezes em que precisei da ajuda de outros aprendi a desenvolver a humildade. Parabéns e continue a nos deliciar com seus textos aqui neste espaço. Um abraço de sua fã de 82 anos que até hoje está tentando planejar sua velhice

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Sergio Caldieri 6 de junho de 2015 - 21:30

Bela crônica talentosa jornalista Déa Januzzi, meus parabéns!

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Benedita Aparecida da silva 6 de junho de 2015 - 21:08

adorei essa crônica,eu me sinto assim as vezes com 100 anos de idade abrçs amada

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Rachel Kopit 6 de junho de 2015 - 20:11

Descobri que você sempre escreveu bem. Desde muito pequenina, no Colégio Municipal de BH… AS mazelas físicas ocupam nosso corpo, nossa mente e, não menos, o nosso coração. Um grande abraço, Déa.

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Carmen Netto Victória 6 de junho de 2015 - 18:52

Crõnica que nos leva a refletir. Mas se gostamos da vida torna o envelhecer mais leve!

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