Prisioneira das lembranças – Déa Januzzi

Por Maya Santana
Os sentimentos deixam marcas na borda esquecida da memória

Os sentimentos deixam marcas na borda esquecida da memória

Déa Januzzi

A gente também fica prisioneira das lembranças, refém das perdas. Basta um local e você vive tudo de novo. Como se estivessem enjaulados, os sentimentos urram, a gente vira bicho. Feridas antigas que pareciam cicatrizadas se abrem e sangram.

Foi assim numa segunda-feira. Fiquei presa, imobilizada enquanto esperava uma amiga na Rua Ceará, entre os quarteirões da Rua dos Otoni e Avenida Francisco Sales. Eu não conseguia ir para um lado nem para o outro. À minha esquerda, a entrada para o Hospital São Lucas, onde ela foi internada por causa de vômitos na madrugada de um dia de dezembro de 2008. Entrou apenas com sintomas de enjoo, apesar dos 91 anos. Entrou para fazer alguns exames de rotina, levada pela ambulância do seu convênio médico. Nada demais, diziam todos.

Do lado direito, a entrada para a internação e o CTI, onde a família só podia ter acesso em horários determinados e sem voz ativa quanto a procedimentos médicos invasivos. Uma via-crúcis de dias, de sentimentos conflitantes, de protocolos médicos sem qualquer afeto ou cuidado com quem já passou dos 90. Até que aquela senhora saiu do hospital para o Cemitério da Colina. A demora da amiga me torturava.

As lembranças podem atordoar, mas tem outras que voltam pelo cheiro, pelo gosto da comida, pelo canto de um pássaro. Um post do blog Balaio de Gato, de Cidinha Aráujo, também cutucou lembranças, mas desta vez menos amargas, mais soltas e livres, mesmo que de pássaros engaiolados. A postagem dizia assim, bem simples: “Desejo do dia: ser passarinho…”. Nem que por um dia, eu desejei ser passarinho e me reportei à varanda da casa do meu irmão, que foi vendida depois da morte dele. O meu irmão tinha uma varanda enorme aos pés da Serra de Santa Helena, em Sete Lagoas, na Região Central de Minas, com canários pendurados em gaiolas que ele tratava, com esmero, todas as manhãs. Os pássaros tinham nomes incríveis, dados pelo registro do canto: um se chamava Pavarotti, outro Cauby Peixoto pelo timbre dramático e barroco de seu canto. E por ser o cantor preferido de meu irmão.

As lembranças me remeteram aos pássaros-pretos do meu pai, uma terapia que ele não abria mão, de cuidar de cada um deles. De passar a mão na cabeça de um por um – e eles retribuíam em cântico. O post também despertou lembranças de alguns leitores. Como as de Luiz Edmundo Alves, que disse: “Fico tentando entender porque apego-me tanto a pássaros e a poemas sobre pássaros. Quis ser árvore para receber pássaros, mas o irmão de algum poeta fez isso melhor que eu. Quis alimentar pássaros, mas pássaros alimentam-se por conta própria e deram a entender que é suspeito serem alimentados por um humano. Quis me enganar com a premissa de que eu tinha, ou tenho, uma suposta fragilidade de pássaros, mas a fragilidade incomoda, carrega temor, e o temor constrói defesas. O voo é uma defesa contra a fragilidade, o canto é uma defesa contra as fragilidades todas, assim como a poesia. A poesia dos pássaros prende, queima, dói, depois liberta, enreda, carrega, inspira, comove, tal qual o momento fugaz de um pássaro abatido em pleno voo.”

Tenho também sabores grudadados no céu da boca. E cheiros que me embriagam e me levam de volta a um outro tempo: gosto de brigadeiro, de algodão doce, de maria-mole, de pavê de chocolate trazem a minha mãe de volta, em pleno fazer doméstico. Chego a vê-la na cozinha com irmã Juracy, a preparar os doces para as festas de aniversário dos filhos e sobrinhos. Chego a salivar, a pensar que hoje tem festa de aniversário em algum canto escondido das minhas recordações. Vejo Amélia e Juracy rindo e enrolando doces que depois serão distibuídos em forminhas de papel e colocados em bandejas de prata até a hora do aniversário.

Às vezes até o tanino de certos vinhos despertam emoções esquecidas, perdas irreparáveis, amores insondáveis, paixões obsessivas. Chego a sentir o gosto amargo do fim. Ou o ritual do amor em cada gole da taça de cristal que brinda comigo, que festeja ou se enche de lágrimas de cor rubra. Os sentimentos enchem a taça e transbordam. Deixam marcas na toalha, na borda esquecida da memória. Parecem beijos demorados, desses que tiram o fôlego, mas só duram nas lembranças.

De música, posso dizer que eu tenho meus Chicos Buarques, meus Caetanos,e até meus Alexandres Salles, que dizem assim: “O que foi que te fez esquecer os pecados de amor, o que foi que te fez esquecer? E você com essa cara de lua virada”. É assim, gestos, sabores, lugares, perfumes te fazem voltar aos pecados do amor. Para terminar me reporto a uma amiga que formou comigo na UFMG, em 1974 e que me fala de ausências: Lilian Ribeiro, que reverencia as mulheres de um tempo mais ameno, apesar de tempestuoso: “ Nós, mulheres, deusas desmemorizadas/ fadas despojadas/ feiticeiras Alzheimezadas/ canídeas desgarradas/ eternas pro-criadoras de sí mesmas/ progenitoras co-habitadas na essencia do ser: Mulher/ mulheres divinas/ divinamente eternas.” E que as lembranças construam a sua própria história, de dor, de amor, ou de amargor.


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5 Comentários

VITAL ABRAS 14 de janeiro de 2015 - 12:39

Essa é a Déa que conheço e admiro.
Show!!
Beijo querida, para vc e pro Gabriel.
Vital

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regina 14 de dezembro de 2014 - 23:44

Lindo texto…interessante lembranças ter cheiros e sabores. É uma forma de voltarmos ao tempo que tanto nos acalentou.

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valeria cotulio 8 de dezembro de 2014 - 02:28

LINDAS PALAVRAS ME FIZERAM VOLTAR NO TEMPO,CONSEGUI VISUALIZAR DONA JURACY E ADELIA PREPARANDO AQUELOS MARAVILHOSOS QUITUDES CHEIOS DE AMOR E DELICADEZAS…..

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Dirce Saleh 6 de dezembro de 2014 - 21:07

Boa noite , querida Déa Januzzi !!!

“E que as lembranças construam a sua própria história, de dor, de amor, ou de amargor. “rsrsrsrs!!!
È, e nossas décadas vão passando rs Eu tenho sete décadas de lembranças. Minha década de Amor Hummmmmmm …Ela ficou entre segunda e a terceira . Nossa foram momentos cheios de sonhos ,ternuras e prazeres A quarta e quinta foram histórias de prolongamentos das anteriores , mas as de sexta foi bem mais de dores ,perdas, saudades histórias que se compreende que, o que passou não volta mais. Oh… histórias ingratas as da sétima década as de amargor Amarga mesmo Há tempos estou numa fila interminável Mas ela tem uns flashes deliciosos de amores, Bate cada saudade tão gostosa.
Você tem razão” os sentimentos deixam marcas na borda esquecida da memória” e no lado esquerdo do peito…
Bjs, Excelente sua crônica!!!
Dirce Saléh

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Carlos Cunha 6 de dezembro de 2014 - 20:11

Estou numa roda de amigos levando um dedo de prosa. Eles falam do passado das lembranças e um deles fala com carinho de Guara. Cita Kafunga, Murilo e Ramos, Monte, Aroldo e Mexicano, Lucas, Carlaile, Lero e Livio. Julita já esta perto dos 90 e o irmão Manoel esta perto dos 80. Esta semana fui no troféu Kafunga e lembrei de Guara que também teria feito cem anos e do irmão da minha mãe Jerônimo que também teria feito cem anos. A vida da gente e a vida que vive dentro da gente. A vida é feito um rio de paz e o rio se apressa em correr na direção do mar. Além do mar um grito ecoa e o Poeta sugere que todo Natal é assim, pois as mesmas lembranças que habitam em você, habitam em mim.

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