
Ricardo Bastos
Outro dia, fiquei diante de um totem de autoatendimento no aeroporto como quem enfrenta uma prova oral.
A tela brilhava com excessiva confiança. Eu nem tanto. “Posicione o documento.” “Documento inválido.” “Centralize o rosto.” “Operação cancelada.”
Na fila atrás de mim, um rapaz de mochila executava tudo em velocidade sobre-humana, como se tivesse sido alfabetizado por máquinas desde o nascimento. Eu apenas tentava descobrir onde exatamente deveria colocar o passaporte sem parecer um ser humano recém-chegado ao planeta.
Existe uma pequena humilhação, nos tempos atuais, em pedir ajuda para uma máquina. E ela não aparece apenas nos aeroportos.
Está no restaurante, que substituiu o garçom por um QR Code. No estacionamento, que não aceita dinheiro nem conversa. No caixa do supermercado, onde a voz eletrônica anuncia para o mundo inteiro: “Item inesperado na área de empacotamento.”
Recentement, uma amiga passou um tempo enorme tentando comprar ingresso de teatro num aplicativo. Quando finalmente conseguiu, a peça já tinha começado.
A tecnologia prometeu facilitar a vida. Em muitos dias, parece apenas testar nossa autoestima e paciência.
O curioso é que nossa geração aprendeu coisas difíceis. Lidamos com cheque, máquina de escrever, enciclopédia, mapa de papel, declaração de imposto em formulário amarelo e telefone fixo compartilhado pela família inteira. Sobrevivemos a filas de banco debaixo de ventilador barulhento.
Mas basta um aplicativo exigir uma senha com símbolo, letra maiúscula e código enviado por SMS para nos sentirmos intelectualmente ameaçados. Talvez porque as máquinas sejam rígidas demais, não permitem erros.
Pessoas costumam perceber hesitação. Máquinas apenas repetem mensagens secas: “Erro.” “Inválido.” “Tempo expirado.”
Outro detalhe desconfortável é que a tecnologia transformou pedir ajuda em constrangimento. Antigamente alguém explicava: “Seu Ricardo, aperta aqui.” Hoje, quando não entendemos uma tela, parece que falhamos num teste invisível de atualização humana.
E, então, começamos a desenvolver estratégias discretas de sobrevivência. Fingimos intimidade com aplicativos. Tocamos a tela com convicção teatral. Apertamos botões aleatórios, esperando que algo funcione. Sorrimos para jovens atendentes como quem diz: “Claro que eu sei usar isso, só estou confirmando.”
Nem sempre cola.
Mas existe também algo de muito humano nessas pequenas derrotas tecnológicas. Outro dia vi um senhor pedindo ajuda para imprimir senha de atendimento prioritário num laboratório. A moça resolveu tudo em segundos. Ele agradeceu com um alívio quase infantil: “Essas máquinas me odeiam.”
Talvez não odeiem. Talvez apenas tenham sido criadas sem nenhuma delicadeza humana. Porque pessoas explicam olhando nos olhos. Máquinas apenas piscam mensagens apressadas.
No fim do embarque, depois de finalmente vencer o totem do aeroporto, sentei perto do portão e observei dezenas de pessoas inclinadas sobre telas, senhas, aplicativos, códigos e confirmações.
Pensei numa ironia curiosa. A humanidade inventou máquinas cada vez mais inteligentes. E continua procurando desesperadamente alguém que simplesmente diga: “Calma, eu te ajudo.”
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