
Ricardo Bastos
50emais
Duas amigas conversavam na mesa ao lado da minha num café. Não prestei atenção de propósito, mas pude ouvir certas frases. Uma delas dizia que estava cansada do trabalho e começava a pensar numa mudança. A outra não esperou que terminasse.
“Eu, no seu lugar…”
Vieram, então, as soluções. Deveria conversar com o chefe, procurar outra empresa, fazer um curso, atualizar o currículo. Talvez fosse a hora de trabalhar por conta própria. Em poucos minutos, aquela mulher tinha recebido um plano de carreira completo. Faltava apenas perguntar o que ela queria fazer.
Fiquei pensando em quantas vezes repetimos a mesma cena. Um amigo conta que está tendo problemas no casamento e sugerimos uma conversa séria. Alguém reclama que dorme mal e indicamos médico, exercício, chá ou aplicativo. Uma pessoa diz que está triste e logo aparece quem recomende uma viagem, um hobby ou pensamentos positivos.
Temos uma dificuldade enorme de ouvir um problema sem tentar consertá-lo. Talvez isso aconteça porque aconselhar também é uma maneira de demonstrar afeto. Queremos ajudar. Depois de certa idade, então, acumulamos experiências suficientes para acreditar que alguma delas servirá para quem está à nossa frente. Já trocamos de emprego, terminamos relações, criamos filhos, perdemos pessoas, enfrentamos doenças e sobrevivemos a decisões ruins.
Mas o que funcionou para mim pode não funcionar para você. Uma separação que me libertou pode ser uma decisão precipitada para outra pessoa. O emprego que abandonei talvez seja justamente aquele que alguém precise conservar. Até nossas boas escolhas são fruto das circunstâncias em que foram feitas.
Há ainda outra coisa. Enquanto aconselhamos, frequentemente deixamos de ouvir. A pessoa começa a contar sua história e, antes que termine, já estamos procurando em nossa memória uma experiência semelhante. Esperamos uma pausa apenas para dizer: “Comigo aconteceu a mesma coisa”. E a conversa muda de dono.
Escutar exige um esforço consciente. É suportar alguns segundos de silêncio. É resistir à vontade de completar uma frase. É não transformar imediatamente a dor do outro numa lembrança nossa. Também é aceitar uma situação particularmente desconfortável para quem gosta de ajudar: talvez não haja nada que possamos fazer.
Nem toda conversa precisa terminar com uma solução. Às vezes, alguém quer apenas organizar os próprios pensamentos em voz alta. Quer reclamar sem tomar uma decisão naquele momento. Quer dizer que está com medo sem ouvir que precisa ser forte. Quer admitir que não sabe o que fazer sem receber imediatamente cinco possibilidades.
Naturalmente, há momentos em que um conselho é necessário. Amigos também existem para alertar, discordar e dizer aquilo que talvez ninguém mais tenha coragem de dizer. A diferença está em perceber quando nossa opinião foi pedida e quando apenas ocupamos com ela um espaço que deveria pertencer ao outro.
As duas mulheres do café continuaram conversando. Depois de muitas sugestões, a conselheira finalmente perguntou: “Mas o que você está pensando em fazer?” A amiga demorou alguns segundos. “Ainda não sei. Eu só precisava falar para alguém.”
Talvez seja uma das coisas que ainda precisamos aprender, mesmo depois de tantos anos conversando e de toda experiência que acumulamos. Sim, temos muitos conselhos a oferecer, mas a maturidade talvez esteja em saber quando guardá-los.
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