Lya Luft: Quando morre alguém que amamos, todo o resto diminui

Por Maya Santana
Uma dor indizível

“O mundo é pura sombra, o planeta não gira, e se gira não interessa”

Hoje não vou me alongar sobre o espantoso analfabetismo brasileiro que inclui universitários, o que para mim nem foi choque nem novidade: há anos sabemos disso. E, quanto mais baixamos o nível do ensino pensando agradar aos mais simples e incluir os mais despossuídos, em lugar de lhes prestar um favor, apenas lhes oferecemos coisas piores.

Poderíamos, em lugar disso, oferecer excelentes cursos técnicos, de onde sairiam para profissões extremamente necessárias ao país, e que eventualmente pagam melhor do que muitas profissões liberais.

Hoje quero esquecer educação, deseducação, abandono, desinteresse, incompetência, mediocridade: quero falar da morte dos nossos afetos, de mais um amigo perdido. Figura inesquecível, de quem não darei o nome, pois tantos mereceriam estar aqui citados.

Quem o conheceu sabe de quem falo. Quero nele homenagear os bons afetos que nos ajudam a viver, e a crescer, especialmente aqueles que foram originais, inimitáveis como este, e que nos fazem sentir quanto nos dedicamos a bobagens, sofremos por tolices, nos desperdiçamos em futilidades (não que futilidades não sejam necessárias, ou seríamos uma manada de bois obtusos ruminando o nada).

Mas devíamos lhes reservar um espaço um pouco menor, e quem sabe o choque da morte, da doença, do drama humano, em qualquer idade e lugar, nos fizesse rever alguns conceitos, elaborar alguns valores – ainda que por poucas horas ou semanas.

Quando morre alguém que a gente ama, seja amigo, amado, alguém da família, todo o resto diminui, fica encoberto por um nevoeiro, tudo para. O mundo é pura sombra, o planeta não gira, e se gira não interessa. Estamos petrificados no choque, na dor, na inconformidade, às vezes na autocompaixão.

Conheci um viúvo que diante da mulher morta gritava: “Como é que isso foi me acontecer?”. Ele tinha sofrido esse último tipo de traição: a amante Morte sempre vence. Tanto mais quanto mais não aceitarmos, com o tempo, que aqueles que morrem apenas se transformam; enveredam por outra dimensão; vão crescer e se aperfeiçoar mais; ou se escondem, fingem-se de mortos e nos espiam lá do seu enigma, e nos cuidam, conforme a crença de cada um.

Quando foi bom o amor, os mortos pedem que a gente não os perturbe, e que viva sem muito desgosto e sem mórbido luto. Pedem que abaixemos o ruído das nossas aflições, e que, porque os amamos, seja agora com um amor que não os algeme. Se a onda natural de culpa for excessiva e tiver algum real fundamento, vamos nos agarrar desesperadamente aos mortos – não para que nos ensinem a viver de novo, mas como bandeiras escuras de isolamento e rancor.

Quando estavam de bom humor, os deuses abriram as mãos e soltaram neste mundo os oceanos e as sereias, os campos onde corre o vento, as árvores com mil vozes, as manadas, as revoadas – e, para atrapalhar, as pessoas. Que passaram a correr meio desnorteadas atrás de coisas que nem sabem direito: a mulher mais sedutora, o homem mais poderoso, ou coisa nenhuma. Tudo menos parar e pensar. Enquanto isso a Morte revira seus grandes olhos de gato, termina de palitar os dentes e prepara o bote: nós nunca estamos preparados.

Nem eu que, como todos, perdi muitos afetos. Mas isso me ensinou a não acreditar demais na morte nem desistir da esperança, que rebrilha entre o cascalho bruto. A gente tem de aprender a enxergar, tem de crescer como, dizem as lendas, crescem ainda nos silenciosos túmulos os cabelos de quem se foi (mas hoje a gente é cremada, nem vermes nem longas cabeleiras).

A Morte, amiga indesejada, vai colhendo alguns dos que mais amamos, e os esconde nas suas largas mangas. Quando trabalhamos ou nos divertimos, ela passeia pelas praças, sobe nos telhados mais altos, e aponta aqui e ali seu dedo ossudo: este, este, esta, aquela. Às vezes vários num só golpe.

Ela é natural, dizem; é inevitável, sabemos. Mas a gente não entende, não aprende, não se conforma. Porque não se decifra esse enigma. Porque não somos bons alunos nessa dura escola.


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9 Comentários

Judith Alves dos Santos 5 de outubro de 2017 - 16:10

Não aceitamos a morte,porque Deus colocou eternidade no nosso coraçao quando nos fez!

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Cristina colombo 2 de junho de 2017 - 21:18

Lindo texto! Condizente com esta escritora, e pessoa tão especial! Obrigada Lia por dar voz a nós, simples mortais!

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Vera Regina Silveira Schneider 3 de junho de 2015 - 03:50

Certa vez em um velório quando o padre foi encomendar o corpo,deu um sermão e conselho tão lindos que jamais esqueci…Reduzindo:A morte nos assusta,mesmo que nosso ente esteja em fase terminal ela nos assusta…Mas nada disto aconteceria se desde nossa infância fôssemos doutrinados a entender que nascemos,temos obrigação de viver da melhor forma para também partirmos em paz…Disse ele que assim como aprendemos nas escolas sobre tantos assuntos,também deveríamos ter palestras sobre a morte…Assim cresceríamos mais interagidos e mais conformados! Adorei teu texto,aliás sou tua fã Lya Luft,incondicional!

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Regina Helena Brandão Lapa 2 de junho de 2015 - 09:50

Preciso muito refletir num texto desse.
Ainda não sei como pensar na vida depois da morte. Acho que me falta Fê .
Já perdi entes queridos e tratei esse momento com naturalidade, mas porque eram velhos, já tinham vivido no tempo certo acho eu.
Gostaria de ler mais sobre esse assunto, pois vou ter que me preparar.
Tudo que você escreve eu leio com prazer. Tenho a certeza que é sempre bom.

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MaGrace Simão 24 de abril de 2015 - 18:06

Li este texto ontem e antes que o relesse para ser leal aos meus sentimentos, o site travou. Foi bom, porque de ontem para hoje, aprendi que devo falar menos. Bom, tenho HIV descoberto há mais de 20 anos, quando não havia coquetel. Era morte certa. Pois bem, tive bastante tempo para pensar na minha morte e na de pessoas amadas. Pois bem: muita gente fala que a vida é linda. É mesmo. Mas o que é o contrário de morrer? Não é viver como automaticamente muitas pessoas falam. O contrário do morrer é nascer. E daí? Daí, como qualquer outra coisa, pelo menos na Terra, se nasce, se cresce e se morre. Como todos os animais. E não deixamos de ser animais, porque somos da espécie humana e com consciência disso. E o que ocorre no nosso passar pela vida? A vida “linda” implica em várias situações: das alegrias aos sofrimentos. E o quê devemos aprender? Como sou ateia, não acredito em mais nada depois da morte. Morreu acabou. Então, mesmo que deixemos escrito “quero ser cremada ou enterrada”, isso não fará diferença para mim. Já estarei morta e não tenho como dar notícias sobre o que foi e o que não foi feito. Até já pedi que quero ser cremada. E daí? Não fará diferença. E a morte das pessoas que amo (hoje são tão poucas)? Será um sofrimento que tentarei administrar, mas não tenho como fugir dele, alegando que sua alma não quer que eu sofre, ou qualquer outra coisa esotérica. É isso! Hoje sou muito feliz, o que não elimina dores e sofrimentos. MaGrace Simão…

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Ilau Bazan 24 de abril de 2015 - 10:29

A morte mesmo sendo o fenômeno mais democrático que existe ainda assim ,não consigo encará-lo com naturalidade. Dói muito a perda de alguém que se ama.

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Marcia Pantoja 22 de abril de 2015 - 13:45

Excelente texto ,me fez refletir das duras lembranças de três entes querido que perdi!

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Vera Lúcia Mariano 22 de abril de 2015 - 07:44

Bom dia Lia, linda sua mensagem. gostaria que a razão fosse maior do que a dor neste momento. Gostaria de gravar esse texto como um mantra e recitá-lo o dia inteiro. Feliz sua mensagem, admito que sou uma má aluna neste momento. Obrigada. Que Deus te abençoe.

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Lydia Santoro Ribeiro 22 de abril de 2015 - 03:29

Gosto muito de tudo que você, Lya Luft escreve,sejam livros ou crônicas ! É esse texto sobre a”morte” foi descrito de uma maneira leve e verdadeira,assim como ela é . Um texto de muita reflexão!! Obrigado Lya Luft por nós deleitar com uma leitura tão maravilhosa profunda!!!!

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