fbpx

Quando o cabelo afro deixou de ser “cabelo ruim”

Por Maya Santana

A beleza do cabelo de Sharon Menezes

A beleza do cabelo afro de Sheron Menezes

Déa Januzzi

Cresci ouvindo de minha mãe que eu era a única das filhas que tinha o cabelo ruim. Ah, meu Deus, meu cabelo que nunca fez mal a ninguém sofreu muito. Criança ainda, ele era puxado pra lá e pra cá, partido ao meio e preso com duas fitas de cada lado. Adolescente, me submeti a escovas de todos os jeitos, apelei para cremes de alisamento até chegar às escovas progressivas que me deixavam o couro cabelo com alergia.

Em nome do cabelo ruim, da ditadura dos cabelos lisos, rodava os salões de beleza e pensava que as cabeleireiras deveriam fazer cursos na África e não em Paris, como diziam os diplomas pregados na parede, todos em francês. Penei, agredi, espichei, alonguei, torturei os cabelos para ficar mais “arrumada”. Cabelo anelado era sinal de desalinho, de alternativo demais.

Outro dia me deparei com Sheron Menezes na novela Babilônia e pensei comigo mesma: “Que linda!” Os cabelos crespos da atriz revelam uma beleza negra insuperável, estonteante. Tão bela quanto Gisele Bündchen, com seus cabelos lisos e loiros. Passei a observar e a pesquisar sobre cabelos afro, parei muitas mulheres para perguntar sobre como cuidavam do cabelo. Uma me disse que passava óleo de coco, até que cheguei a Daniella Tiffany Prado de Carvalho, de 34 anos, filha da amiga de minha amiga Bety.

Psicóloga, diretora de inclusão social de egressas do sistema penal, Daniela me contou a via crúcis dos cabelos. De uma família miscigenada, filha de mãe negra com pai branco travou uma verdadeira luta com os cabelos desde que se entende por gente. Para ir à escola tinha que alisar o cabelo. Estar arrumada era sinal de cabelo liso. Veio, então, a época das escovas progressivas. Fez várias até os 29 anos, quando cursou uma disciplina isolada na UFMG, sobre questão de gênero, raça e literatura. Lendo as autoras negras tomou consciência da igualdade racial, com o reconhecimento de uma estética própria, de não se adequar ao mundo branco e de conservar as características da raça.

 Daniella Tiffany de Carvalho decidiu assumir o cabelo afro

Daniella Tiffany de Carvalho decidiu assumir o cabelo afro

Mas uma situação atípica acelerou o processo. Aos 31 anos teve um câncer de mama e 20 dias depois da primeira sessão de quimioterapia o cabelo caiu todo. Daniela então foi em busca de uma peruca, mas só encontrou de cabelos lisos. Procurou, procurou e achou uma de cabelos ondulados, mas não se adaptou. Partiu para os turbantes afros enquanto cursava mestrado na UFMG sobre “Mulheres presas”, aí toda a sua fundamentação teórica foi em cima das intelectuais negras. Foi um processo teórico e prático, pois um dos desafios era se aproximar até da escrita das mulheres negras.

A partir dos turbantes, Daniela foi mudando, pouco a pouco, a questão do vestir, procurou o que estava disponível na moda, um colar, uma calça com estampa africana, até que descobriu o que as mulheres negras produzem em feiras e encontros. Quando o cabelo dela cresceu de novo, nunca mais fez relaxamento. Foi redescobrindo a beleza dos cabelos negros com uma cabeleireira chamada Elaine, que não só cuidou deles, fez luzes, tratou, deu afeto. “Hoje o meu cabelo é uma sociedade com ela. É um símbolo de superação, de beleza. Me descobri bonita, porque a gente cresce com um padrão de beleza externa. Eu não me encaixava nesse padrão, pois era baixinha, gordinha, negra. No máximo, eu pensava, sou bonitinha.”

Com o cabelo afro, Daniela foi aprendendo a se maquiar, a se vestir. “Vestir para mim é uma expressão, uma atitude.” Assim, ela foi construindo outro status, com uma rede afetiva e estética, a se pertencer.

A mudança de atitude tornou Daniela atrativa até para os homens, claro para os homens negros, “ que adoram o cabelo afro. E os cabelos afro agradam principalmente a dois públicos: os moradores de rua, que vão logo dizendo “Que cabelo doido, que bonito”, e às crianças que também gostam muito.”

Daniela tenta não ficar somente na questão estética, toma cuidado para não ser capturada pela mídia. Para ela, o cabelo não é um fim, mas uma expressão. “Foi um processo de renascimento. “A transição veio com o câncer, pois perdi tudo, até a dor de ser negra e não saber e de não querer ser. Foi uma cura tanto física quanto de resgate da minha ancestralidade”.
Daniela hoje pratica a umbanda, religião de matriz africana. Gosta de samba e dança gafieira. “Fui me enegrecendo”, confessa.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

14 − 3 =

9 Comentários

Avatar
roseli salvo 16 de agosto de 2016 - 13:30

Adorei esse cabelo DAniella tiffani de carvalho

Responder
Avatar
Eliana 20 de novembro de 2015 - 22:24

Depois das progressivas o que tem me chamado a atenção é a invasão das louras.
Nada contra, mas estou achando a moda um tanto estranha.
O texto é belíssimo. Adorei!

Responder
Avatar
Lisa Santana 26 de maio de 2015 - 00:27

Adorei o texto, Déa. E sim Gabriel, ” solte seu cabelo à chuva, ao vento, ao Sol”.

Responder
Avatar
Gabriel J. Sales 24 de maio de 2015 - 22:28

Eu amo vocês!….

Responder
Avatar
Gabriel J. Sales 24 de maio de 2015 - 22:25

…eu te amo!
GJS

Responder
Avatar
Gabriel J. Sales 24 de maio de 2015 - 22:25

Enquanto isso…

Responder
Avatar
Gabriel J. Sales 24 de maio de 2015 - 11:59

Muito bom texto!!!Resistir! A expressão da nossa cultura: origens, conhecimento, a arte de cada povo de sobreviver, de respeitar. A nossa diversidade é que nos torna belos e únicos, iguais. Aquilo que vemos como “o” arco-íris é composto de multicores, se fosse uma só, como deseja o discurso do mundo presente, seria triste. Que cada dia mais e mais pessoas possam resgatar essa consciência ancestral e resistir a ignorância do padrão ocidental. A chama da revolução descansa no ato de expressar quem somos. Solte seus cabelos! Ao vento, à chuva ou ao sol! LIBERDADE!

“This leads me back to address those American Indians who are drifting through the universities, the city slums, and other European institutions. If you are there to resist the oppressor in accordance with your traditional ways, so be it. I don’t know how you manage to combine the two, but perhaps you will succeed. But retain your sense of reality. Beware of coming to believe the white world now offers solutions to the problems it confronts us with. Beware, too, of allowing the words of native people to be twisted to the advantages of our enemies.”
(Russell Means, Oglala Lakota, 1980)”

Responder
Avatar
Maria Rosilda Neri Pinto 24 de maio de 2015 - 09:34

Tenho passado por esse processo de querer meu cabelo afro, porém não consegui um creme que me ajudasse, mas estava começando a me sentir até mais bonita, daí tinha que usar babyliz todos os dias e danificando meus cabelos, então resolvi fazer uma inteligente e dar um corte.Só que estou me sentindo péssima,acho que se tivesse tido um pouco mais de paciencia,eles ficariam como eu gostaria.Se alguém tiver alguma dica para que eu possa voltar os cachos ficarei muito grata.Beijos a todas as cacheadas.

Responder
Avatar
Lúcia Soares 23 de maio de 2015 - 23:08

Que linda, a Daniella.
Lindo texto, Déa.

Responder