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Cuidei durante muitos anos da minha mãe, já velhinha. Foi um privilégio tentar fazer por ela tudo que fez por mim e pela minha numerosa família enquanto tinha força e disposição.
Mas entendo que nem todo mundo pode retribuir de maneira justa o que, normalmente, as mães fazem por nós. É disso que trata esta crônica que Martha Medeiros escreveu para O Globo, com o título “Veja o manual prático de virar ‘mãe da sua mãe”.
A autora descreve assim a tarefa de cuidar da mãe:”É um tsunami, que o digam as mulheres na faixa dos 50 e 60 que tinham outros planos. Geralmente, estão com os próprios filhos criados e com alguma estabilidade profissional. Seria o momento de se concederem uma aposentadoria por serviços prestados à família: hora de pensar em si mesmas, fazer um curso, visitar amigos que moram fora,… Quando essa liberdade precisa ser adiada, é um baque” – escreve a jornalista e escritora.
Leia a crônica completa:
Ao me visitar, uma amiga trouxe um vinho e o livro “A minha mãe é a minha filha”, de Valter Hugo Mãe. Uma edição minúscula, menos de 50 páginas, que trata sobre a relação do autor com sua progenitora. Minúscula no tamanho, claro, pois o assunto é da maior grandeza.
Minha amiga e eu estamos passando pela mesma situação: nossas mães, que tão bem nos cuidaram na infância e na adolescência, agora precisam segurar na nossa mão para atravessar essa rua assustadora chamada velhice.
Valter Hugo Mãe é só doçura em seu texto e faz tudo parecer um piquenique no parque com a matriarca. De fato, que oportunidade fabulosa de ficarmos mais próximos delas e retribuir o tanto que fizeram por nós.
Em tese, perfeito: os papéis se invertem, o ciclo se fecha e o amor vence no final.
Na prática, porém, é um tsunami, que o digam as mulheres na faixa dos 50 e 60 que tinham outros planos.
Geralmente, estão com os próprios filhos criados e com alguma estabilidade profissional. Seria o momento de se concederem uma aposentadoria por serviços prestados à família: hora de pensar em si mesmas, fazer um curso, visitar amigos que moram fora, dar uma circulada por aí antes de serem abatidas em pleno voo, afinal, também estão iniciando o processo de envelhecimento, só que ainda com pernas firmes e bom estoque de energia.
Quando essa liberdade precisa ser adiada, é um baque.
Ninguém deseja, aos 60 anos, já ter perdido os pais. Quem tem a sorte de ainda tê-los, sabe que eles, depois dos 80, correm riscos atrás de um volante, mal conseguem caminhar sozinhos e a ida ao mercado vira um passeio na selva. Não todos: muitos mantêm-se autônomos, mesmo em idade avançada. Cada pessoa tem seu próprio prazo de validade, e é um privilégio quando se consegue chegar tão longe sem depender dos outros. Mas não é a norma.
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Tema bonito para uma prosa poética, mas mexe com emoções variadas. A culpa é a primeira a atacar. Queremos fazer mais por eles, mas temos nossa própria vida para cuidar. É justo privilegiar as demandas deles? O histórico da relação deve ser levado em conta? Se tivermos mágoas retroativas, devemos sublimá-las? Terceirizar os cuidados é bom? É ruim? Para quem?
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Dezenas de perguntas nos invadem. Terapeutas, acudam. Amor existe de sobra, mas com pitadas de impaciência, tempero que não é bem-vindo nesta receita. Por enquanto, um elemento tem facilitado a jornada dos Medeiros: o bom humor. Minha família nunca foi de fazer drama. Vamos rindo enquanto dá para rir, e assim todos se ajudam.
Talvez esteja aí a beleza do caos: reconhecer que todos os envolvidos precisam de ajuda, e vivenciar a troca de papéis com a leveza necessária, sem ficar apostando em quem vai pirar primeiro.
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