Quando se faz 70 anos é obrigado a olhar para trás

Por Maya Santana
Nelson Motta: "Há cinquenta anos vivo, profissionalmente, de minhas memórias"

Nelson Motta: “Há cinquenta anos vivo de minhas memórias”

Maya Santana, 50emais

Esta crônica – “O jogo da memória” é o título original – foi escrita pelo jornalista Nelson Motta e publicada em O Globo, quando completou seus 70 anos de vida. Ele aproveitou o espaço para fazer um balanço de suas sete décadas de existêcia. “Sempre detestei nostalgia: nada envelhece mais do que ficar lembrando um passado sempre melhor que o presente,” diz ele, explicando a razão de ter escrito esta crônica: “Quando você faz 70 anos é obrigado a olhar para trás”.

Leia:

Outro dia li em algum lugar, não me lembro onde, que a principal função da memória não é registrar, mas esquecer. Se não fosse assim seria impossível organizar o pensamento, seríamos afogados por um fluxo caótico e incessante de boas, más e inúteis lembranças. É como se os dados das nossas memórias ficassem hospedados em uma nuvem de olvido e fossem ativados quando solicitados, com razoável controle sobre o que se quer lembrar e o que esquecer.

Mas por que mesmo estou falando nisso?

Quando você faz 70 anos é obrigado a olhar para trás,o que é mais difícil para quem sempre detestou nostalgia, achando que nada envelhece mais do que ficar lembrando de um passado que parece sempre melhor que o presente. É meio paradoxal porque há cinquenta anos vivo, profissionalmente, de minhas memórias — embora tenha sempre procurado o novo, para ver, ouvir e contar, para aprender e fazer.

E para passar às memórias de minhas filhas e netos algumas coisas que não esqueci.

Com meu pai, advogado e humanista radical, a melhor pessoa que conheci nestes setenta anos, aprendi que se deve ser humilde com os humildes e altivo com os poderosos, e que a generosidade é um dever moral: quem recebeu mais, tem que dar mais. Dom divino, genética ou classe social não são méritos pessoais, há que compartilhar.

E a regra inesquecível: “ Se alguém cruzar seu caminho e precisar de sua ajuda — tem que ajudar ! Seja quem for, como for, sem muita pergunta. É a Lei. Não foi por acaso que seus caminhos se cruzaram.” Tentei a vida inteira cumprir sua Lei e fui recompensado, porque também fui muito ajudado e tive a sensação de que quanto mais se dá, mais se recebe.

Sempre me lembro do meu querido chefe Evandro Carlos de Andrade me dizendo que você só deve pedir um aumento se estiver disposto a pedir demissão se não recebê-lo. E de meu tio Paulo, que ficou muito rico, que é melhor ficar vermelho cinco minutos do que amarelo o resto da vida.

Do amigo Vinicius de Moraes, entre tantos ensinamentos que vivi e esqueci, sempre me lembro que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.


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4 Comentários

EDIR FEIO BOULHOSA 16 de julho de 2020 - 08:43

Vinicius de Moraes, entre tantos ensinamentos que vivi e esqueci, sempre me lembro que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela Vida.

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MaGrace Simão 17 de junho de 2017 - 14:51

Nelson, te admiro muito.Eu fui “obrigada” a exorcizar meu passado, aos poucos, quando descobri há 23 anos,o meu HIV. Quando surgiu o coquetel, um dos remédios provocou-me neuropatia periférica, que há 19 anos me levou a ficar de cama, por causa da dor. E que vivência mais rica! Vou aproveitar se você me permitir, a flar dos músicos que você apresenta no Jornal da Globo. Para mim, tem faltado tanta gente boa, como Little Richard de quem Miles Davia chegou a declarar que gostaria de alcançar com seu trompete o agudo do roqueiro. Obrigada pelos programa! Abraços, MaGrace

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ana 16 de junho de 2017 - 17:44

“A generosidade é um dever moral”. Concordo com o pai dele.

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Márcia Motta 9 de novembro de 2014 - 18:18

Adorei! Tenho 56 e já penso assim! Ter 70 trabalhando, com saúde e alegria de viver. Parabéns …avante!

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