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Que presente você daria a quem completa 101 anos?

Por Maya Santana

A foto ficou fora de foco, mas Renée estava alegre com a nete, no dia do aniversário

Pena que ficou fora de foco: Renée alegre com a neta, no aniversário

Déa Januzzi

Poderosa, soberana, ela chegou aos 101 anos de vida no dia 6 de janeiro de 2015. Renée de Lima Viana, amiga de minha mãe Amélia, conseguiu ultrapassar a barreira do tempo. Convidada para o aniversário dela, me perdi na Região da Savassi procurando um presente para Renée. Afinal, o que oferecer para quem tem 101 anos?

Acompanhada por meu filho, pedi uma sugestão. Bombons? Roupa? Chinelos de lã? Livro? Lenço ou xale? Porta retratos? Sabonetes perfumados? Camisola? Nada parecia suficiente para presentear Renée, afinal, eu não sabia se ela podia comer doces. Será que ela não teria diabetes, colesterol, alto, será que ela ainda dava conta de ler? Detalhes que me escapavam no momento de escolher o presente.

Conheço Renée desde que ela, minha mãe e uma outra amiga de nome Marina andavam todos os dias no Parque Municipal e cuidavam de uma árvore em especial. Tanto que fizeram um pacto em vida: queriam que na morte seus corpos fossem cremados e as cinzas jogadas na árvore do parque. Amélia, minha mãe, partiu em 2008, aos 91 anos. Expressei para a família o desejo de Amélia de ser cremada. As duas irmãs mais velhas não concordaram. Disseram que era contra a cultura religiosa dela. Voto vencido, Amélia foi parar no Cemitério da Colina, junto ao corpo de meu pai, seu marido por mais de 40 anos.

Marina hoje se debate com a doença de Alzheimer. Não tem mais desejos, só ri quando alguém se aproxima dela. Sorri é melhor, não conhece mais ninguém. Aos cuidados de Cid, o marido, ela nem sabe mais quem é. Mas segura com força a mão do companheiro quando os dois estão assistindo televisão. Parecem eternos namorados.

Renée não só expressou o seu desejo de ser cremada, como já pagou o crematório,fez uma espécie de testamento com o pedido. Mas voltando ao presente de aniversário para quem chega aos 101 anos, andei, andei pela Savassi, de loja em loja. Não encontrava nada que expressasse o meu afeto por Renée. Por alguém que nasceu no Dia dos Reis Magos. Incenso, ouro e mirra bem que fariam jus a essa mulher que já perdeu três filhos, uma neta e que continua firme, de pé, cabeça erguida. E diz coisas assim; “Eu vou levando como Deus quer. Não me desespero, não me revolto”. Ex-professora primária, Renée decidiu não sair mais de casa. Mas os filhos lembram que há pouco tempo, ela teve vontade de comer pastel no Centro da cidade. Chanou um táxi, desceu, foi até a Pastelândia, comeu os pastéis e voltou inteira e feliz para casa. Sozinha.

Outro dia, chamou um táxi e foi sozinha ao centro da cidade comer pastel

Outro dia, chamou um táxi e foi sozinha ao centro da cidade comer pastel

Renée é assim, apesar de se sentir hoje “vigiada”, ela ainda é senhora de si mesma, comanda o apartamento onde mora com a neta Cristiane. E fiquei sabendo: come doces, preferencialmente quindins. Não tem nenhuma doença crônica e lê muito. Adora e lê até hoje, mas o presente que fez os seus olhos brilharem foi um vaso de hortênsias brancas. Ela quis tirar fotos com as flores, pediu que colocassem o vaso no centro da mesa. E sorriu.

Afinal, o que eu levei de presente. Decidi por chocolate. Nhá Benta. Um pacote com três de uma das lojas de chocolate mais antigas de BH, a Kopenhagen. Ela gostou, mas não fez festa. Nem para os sabonetes da Granero nem para a blusa fresquinha. Para uma rainha, só as flores falam.

Foi pensando no presente ideal para uma pessoa de 101 anos que pedi às minhas amigas e fontes de inspiração alguma sugestão: Magdala Ferreira Guedes e Mary Arantes. Magui disse assim: “Querida, eu daria a ela um vidro de água de fores de laranjeira e quem sabe um sapatinho de lã bem quentinho. Ela com certeza terá guardada em sua memória olfativa o aroma das flores de laranjeira. As noivas de sua época se casavam com buquês de flores de laranjeira, jurando fidelidade a si mesmas.”

Mary também me ajudou muito a escolher um presente para Renée: “Querida amiga, uma pessoa com 101 anos não precisa de absolutamente nada. Estou com 57 e cada ano que passa sinto que vou precisando de menos, fico pensando até se não é a tristeza do envelhecer, mas sinto também que o caminho andado vai nos deixando cada dia mais sábia, a tal sabedoria da idade. Tinha uma amiga que morreu com quase 90 e ela costumava passar os presentes que ganhava, todos pra frente. Ela me dizia: se já fiquei feliz em recebê-los, e isto me basta, porque não fazer outra pessoa feliz?

Mas acho que, se não tiver até essa idade um bom colar de pérolas, desses clássicos, precisa ter um. Elas ficam lindas e suavizam os enrrugadinhos do pescoço e junto ao cabelo branco fica uma lindeza só. Uma colônia suave é também bem-vinda, assim como uma caixa com sabonetes especiais. Cremes para o corpo então nem se fala, pois a pele nessa idade costuma ficar frágil e seca, isso também aprendi com minha Clélia. Ela costumava tomar banho com óleos para proteger a pele.

Se a pessoa gostar de ler, também é uma boa pedida, e um caderno de capa dura, sem nada escrito, seria o presente perfeito, para que ela pudesse registrar sua vida, comentários, lembranças, um diário do entardecer. Lembrei também de presentes que não custam nada, levar um bolo e aparecer para o café da manhã ou da tarde, vasos com flores para o quarto, melhor que flores de corte que demandam cuidado, troca de água, etc. E um presente riquíssimo é doar um tempo para essas pessoas, elas sempre têm muito o que dizer e poucos pra escutá-las.”

E você, o que daria para uma senhora que, altiva, chegou aos 101 anos? Ou chegar aos 101 anos com saúde, lucidez e com todos os sentidos em ordem já é um presente?

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21 Comentários

Rosana Martin Parelho Zachi 26 de janeiro de 2019 - 11:04

Passei por aqui procurando ideia para um presente para minha sogra que fará 100 anos amanhã. Foi emocionante ler o texto porque pensei muito na minha vó que partiu aos 90 e o único presente que fazia sentido para ela era a companhia , amava estar junto com pessoas. Lúcida e saudável até o último instante, nem sei por que partiu tão cedo. Pensei muito também na minha mãe que não teve a mesma “sorte” da minha vó ou da . minha sogra, pois sempre foi muito doente e hoje, pós AVC, está 100 por cento dependente das filhas, mas graças a Deus a cabeça está boa, então podemos conversar, rir , lembrar…as a minha sogra, 100 anos de saúde, lucidez… Infelizmente ainda não sei o que dar pra ela, mas talvez eu faça um café da tarde qualquer dia desses e a chame para passarmos umas horas juntas, afinal, n fui convidada para a sua festa de aniversário…

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Maria 13 de novembro de 2018 - 23:22

Eu daria um abraço bem apertado.Levaria um lencinho bordado que ela adora.
Passaria o dia a seu lado p ouvir as suas histórias de vida.Daria um pouco de mim p ela.

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Maria horta 13 de novembro de 2018 - 23:17

Eu daria um abraço apertado e um cheiro no cangote dela
.levaria umas risquinhas que faço e que ela coloca na cabeceira da cama p comer de noite.
Dentária bem pertinho dela e pediria p me contar historias

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Rogeria 15 de novembro de 2017 - 22:07

Procurava na net uma sugestão para minha vizinha que vai fazer 104 agora em novembro e me deparei com esse texto fantástico! Reconheci minha avó Ness senhorinha.fiquei muito tocada com esse belo texto, que também me inspirou! Vou comprar um daqueles sapatos (que enfia o pé por segurança!) e que deixará os pezinhos dela bem quentinhos!
Parabéns pelo texto!

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Celia soares mendonca 15 de julho de 2018 - 12:16

Eu daria u.ma orquídea para ela cuidar.

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Milla Ribeiro 12 de novembro de 2017 - 00:13

Toda a vez que a encontrasse, eu daria beijos, abraços e a minha escuta. As pessoas depois de uma certa idade (depende de cada um), o que mais precisam é de afeto e escuta. De presente comprado perguntaria (se eu não soubesse) o que ela gosta, até porque idosos também tem seus desejos.

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Vania 12 de maio de 2017 - 23:39

Linda história eu levaria um bolo flores e passaria a tarde próziando com ela, lê daria também um livro com capa dura com folhas em branco para ela escrever os bons momentos de sua eterna juventude!!!

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Marco Rodrigues 17 de fevereiro de 2017 - 14:00

Na procura por sugestões de presente para um senhor de 99 anos, encontrei e encantei me com seu texto, ainda não decidi por qual presente a ele, mas nesta tarde com seu texto, ganhei o meu. Obrigado e parabéns.

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Laila 11 de junho de 2016 - 17:49

Que alegria minha bisavó vai fazer 100 anos mais que eka passe dessa idade. Parabéns para você.

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Cleonice 16 de março de 2016 - 09:35

Déa Januzzi,

Parabéns pelo texto lindo!
Me tocou profundamente.
Agora sei com que presentear minha tia Zezé,que completará 90 anos no próximo dia 19/03,
Amei conhecer seu blog

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Eleonora Cretton 2 de dezembro de 2015 - 22:22

Lindo texto! Ótimos comentários de todos!
Minha mãe fará 100 anos em abril próximo. Eu daria de presenta a ela e a Sra. Renée a minha memória, alguns anos mais nova. Quem sabe, não adorariam renovar suas expectativas, aprenderiam a usar o computador, a internet, contariam histórias encantadoras para seus bisnetos, fariam um cruzeiro pelo mundo, escreveriam mais, cantariam sempre, usariam o metrô, assistiriam às Olimpíadas, fariam orações pela paz?!
Que tenham suas merecidas comemorações.

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Carolina Jales 2 de dezembro de 2015 - 22:08

Dea, fui especialmente tocada por essa delícia de texto porque lembrei de minha vovó que está com os pezinhos nos 100 anos! A última sugestão de presente é a que eu ia escrever: dar a si mesmo, dar seu tempo e companhia. Percebo que ficamos muito fragilizados na velhice sem as distrações da idade produtiva, muitas vezes sem o amor da família, e estigmatizados como descartáveis e pesos sociais. Acredito que as visitas são uma oportunidade de ajudarmos a mudar a desvalorização da velhice nessa sociedade da produtividade. Por meio delas, podemos ressignificar essa fase, tal como ela merece. É uma fase de declínio, sim, das capacidades física e mental, mas um momento que deve ser respeitado e valorizado pelas experiências acumuladas que significa. Os idosos são os protetores da memória social e têm muito a repassar aos mais jovens.

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Márcio de Sena Milagres 2 de dezembro de 2015 - 18:11

Eu, eu daria : Um abraço, bem bom, muitos beijos, levaria flores, Nhás Bentas, um bolo, biscoitos, uma ótima colônia, sabonetes especiais, livro, camisola, chinelos, um colar de pérolas, e, eu levaria e daria para ela, o mais precioso dos presentes, que certamente é, o presente que ela mais quer : Eu levaria e daria meu tempo para ela!

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Luciana Neves 2 de dezembro de 2015 - 16:15

Eu daria uma sessão de fotos feitas por mim, no local e com quem ela escolhesse. Aliás, se ela quiser, estou à disposição, Déa. Lindos os seus textos. Bjs

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leda maria soares cunha bello 14 de fevereiro de 2015 - 22:55

Uma inspiração para todos nós que temos idosos na família ou co a quem desejamos dar carinho.
Conheço uma idosa que adora ganhar presentes, recebe do único filho quase todos os dia s durante algum tempo o mesmo presenteUsa – o por algum tempo e diz a todo mundo que ganhou ontem do marido(já falecido, há mais ou mensos trinta anos.dias depois ganha o mesmo ojeto embrulhado , com fita e tudo. mas realmente as plantas que ganha ela cuida com desvelo todos os dias…é incrível não se esquecer de colocar um copo de agua em todas as que ficam na varanda, á sua vista.
amei essa crõnica.

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Mariana 14 de janeiro de 2015 - 21:13

Lindo o texto!!! Queria que minha vó Amélia estivesse aqui com a gente para também comemorarmos os 101 anos dela!!! Ai que saudade!!!

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Laudêmia Castro 14 de janeiro de 2015 - 15:12

Eu participei com ela do coral dos idosos do asilo Afonso Pena da Santa Casa de BH. Ia muito na casa dela na Av. Carandaí. Quando há conheci ela tinha 85 anos e uma voz linda! Trabalhamos juntas até o ano 2000. Depois vim pra GUARAPARI, e aos poucos fui perdendo o contato com ela. Que bom saber que ela ainda está bem, com 101anos. É meu sonho! Tenho até um retrato dela com meu irmão e minha mãe.bjs carinhosos pra ela!

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Genoveva 13 de janeiro de 2015 - 20:56

Com certeza chegar a essa idade com autonomia, saude e lucidez é o maior presente e é o que tambem quero receber da Vida! Estar até o final de meus dias com saude para cuidar de mim mesma, isto é, andando, falando, ouvindo, enxergando e tomando meu banho sozinha…se possivel que seja até sentada, mas por conta propria!
Mas o que eu daria de presente seria um “dia de época”, com pessoas mais da intimidade afetiva (ligadas por afeto e não necessariamente parentesco), vestidas como quando essa senhora no auge da juventude/maturidade e todos desfrutando aqueles momentos, onde a nutrição era realmente misturada com afeto, talvez até num final de tarde regado a chas, cafes, quitandas etc…e musica, poesia, dança…como no tempo da delicadeza, que quase não vemos mais acontecer.
Com muito afeto,
Genoveva

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Mara 3 de julho de 2019 - 15:40

Que delicadeza. Parabéns!!!!

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Rosângela Boldrini Lisbôa 13 de janeiro de 2015 - 17:33

Que beleza gente! Eu daria um beijo muito terno e também demonstraria minha admiração e carinho ouvindo-a por um bom tempo,falar sobre o que ela desejasse.

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Lu Ruch 10 de janeiro de 2015 - 20:25

Eu daria do meu tempo,um dia inteirinho dando e recebendo amor.

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