
Ricardo Bastos
50emais
Outro dia, num almoço de família, ouvi uma filha perguntar à mãe, já perto dos 60: “Você está cansada?” “Não, imagina.”
A resposta saiu tão depressa que parecia ensaiada. Pouco depois, enquanto todos conversavam, ela recolhia os pratos, perguntava quem queria café, separava um pedaço de sobremesa para o filho levar e procurava na bolsa um remédio que o marido estava precisando.
A pergunta tinha sido feita. A resposta, talvez, não. Conheço muitas pessoas assim. Imagino que você também. São aquelas para quem a família telefona quando alguém adoece, quando o almoço precisa ser organizado, quando um filho está com um problema ou quando um parente mais velho precisa ir ao médico.
Elas sabem onde estão os documentos, lembram os aniversários, percebem quando alguém não está bem. Providenciam, organizam, telefonam, acompanham. Muitas vezes fazem tudo isso antes mesmo que alguém peça.
Com o passar dos anos, deixam de ser apenas pessoas que ajudam. Tornam-se, aos olhos da família, pessoas que dão conta. E talvez poucas frases sejam tão elogiosas e tão perigosas quanto essa. “Ela dá conta.”
Quem dá conta não precisa ser poupado. Quem dá conta sempre encontra um jeito. Quem dá conta pode receber mais uma tarefa porque, afinal, já resolveu tantas outras.
Os dias vêm e vão e ninguém nunca pergunta se ela ainda quer dar conta.
Seria injusto colocar toda a responsabilidade sobre a família. Existe outro lado nessa história. Quem passou décadas cuidando acaba aprendendo a recusar cuidado. “Não precisa.” “Pode deixar.” “Eu faço.” “Não quero incomodar.”
Às vezes, essas frases saem antes mesmo que a ajuda seja oferecida por inteiro. Talvez haja certo orgulho nisso. Talvez costume. Talvez a sensação de que depender de alguém significa perder alguma coisa que levamos anos para conquistar. Ou simplesmente não sabemos mais ficar parados enquanto outra pessoa resolve por nós.
Durante muito tempo, especialmente para muitas mulheres, cuidar esteve misturado à própria ideia de afeto. Cuidar dos filhos, dos pais, do companheiro, da casa, dos amigos. Não porque todas tenham vivido da mesma maneira, mas porque esse papel ainda aparece com frequência na organização das famílias.
O problema não está em cuidar. Há muita beleza em estar disponível para quem amamos.O problema começa quando o cuidado vem sempre da mesma direção. Naquele almoço, depois que quase todos foram embora, a filha voltou à cozinha. A mãe estava diante de uma pia cheia de pratos.
“Deixa isso aí, mãe.” “Não, eu termino rapidinho.” A filha não discutiu. Abriu a torneira e começou a lavar as vasilhas. “Vai sentar um pouco.” “Mas eu posso fazer.” “Eu sei que você pode.” A filha continuou lavando. “Hoje eu quero fazer.”
A mãe ficou alguns segundos parada. Depois saiu da cozinha sem dizer nada. Existem pessoas que sabem receber presentes, elogios e abraços, mas ainda precisam aprender a receber ajuda. Passam boa parte da vida cuidando daqueles que amam, sem se dar conta que, chega uma hora em que é preciso aprender o movimento contrário: deixar que cuidem um pouco delas.
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