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Brigitte Bardot, que faleceu neste domingo, aos 91 anos, era aquele tipo de personalidade que se torna lenda ainda em vida.
Foi símbolo mundial de sensualidade, liberdade feminina, um ícone cultural que desafiou as convenções sociais de sua época.
Para muitas gerações, como a minha, nascida na decada de 1950, Brigitte encarnou a modernidade e a emancipação da mulher no período pós-guerra.
Um fato que mostra a total independência da atriz é que ela abandonou a carreira no auge, aos 39 anos, para se dedicar de corpo e alma à causa animal. Criou até uma fundação, que leva seu nome, para proteger os bichos. E nunca mais atuou.
Mais velha, adotou posições consideradas de extrema direita e causou grandes polêmicas.
Leia o artigo publicado por O Globo:
Considerada um dos maiores ícones do cinema francês, Brigitte Bardot morreu aos 91 anos. A informação foi confirmada neste domingo pela fundação que leva seu nome, e a causa da morte não foi divulgada.
“Com imensa tristeza, a Fundação Brigitte Bardot anuncia a morte de sua fundadora e presidente, Madame Brigitte Bardot, atriz e cantora de renome mundial, que escolheu abandonar sua prestigiada carreira para dedicar sua vida e sua energia à defesa dos animais e à sua fundação”, diz o comunicado enviado à agência AFP.
Em outubro, Brigitte chegou a ser levada às pressas para um hospital em Toulon, no sul da França, após ser diagnosticada com uma “doença grave”. A estrela, considerada um dos maiores ícones do cinema francês, passou por uma cirurgia, teve alta e voltou para casa, mas voltou a ser hospitalizada em novembro.
Da bailarina parisiense ao mito de Saint-Tropez
Nascida em Paris, em 28 de setembro de 1934, Brigitte Anne-Marie Bardot formou-se em balé clássico no Conservatório Nacional de Música e Dança antes de ser descoberta pelo cinema. Aos 15 anos, já estampava capas de revistas como Elle, iniciando sua trajetória como modelo.
Ela estreou nas telonas em 1952, no filme A Garota do Biquíni, mas foi em 1956 que ganhou fama mundial com E Deus Criou a Mulher, dirigido por seu então marido, Roger Vadim. O longa, repleto de sensualidade e ousadia para a época, foi censurado em Hollywood — o que apenas aumentou sua popularidade.
Descrita como “a mulher que inventou Saint-Tropez”, Bardot transformou-se em um ícone da liberdade sexual feminina, desafiando padrões conservadores e provocando escândalos onde passava. Em 1957, padres em Nova York chegaram a pedir que fiéis boicotassem seus filmes, e o Vaticano a classificou como “má influência”. O resultado foi o oposto: as filas nos cinemas só cresceram.
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— Lá está Brigitte, esticada de ponta a ponta da tela, de cabeça para baixo e nua como o globo ocular de um censor — ironizou um crítico da época.
Escândalos, paixões e independência
Durante sua carreira, Bardot atuou em mais de 45 filmes e gravou 70 músicas, tornando-se referência estética e cultural. Ela criou a “pose Bardot” — sentada, pernas cruzadas e olhar provocante — e popularizou o decote ombro a ombro, que até hoje leva seu nome.
A atriz teve quatro casamentos: com Roger Vadim (1952–1957), Jacques Charrier (1959–1962), Gunter Sachs (1966–1969) e Bernard d’Ormale, seu atual marido desde 1992. Com Charrier, teve seu único filho, Nicolas-Jacques, em 1960, mas manteve uma relação conturbada.
— Não fui feita para ser mãe — admitiu Bardot anos depois. — Adoro animais e crianças, mas nunca fui adulta o suficiente para cuidar de uma criança.
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Nicolas foi criado pela família paterna e só se reconciliou com a mãe décadas depois, em 1996. Apaixonada e impulsiva, Bardot também viveu romances com o cantor Sacha Distel e com o ator Warren Beatty. — Sempre busquei paixão — disse ela. — Quando ela acabava, eu fazia as malas.
Da fama ao ativismo — e às polêmicas
Bardot deixou o cinema em 1973, aos 39 anos, para dedicar-se à defesa dos animais. Em 1986, criou a Fundação Brigitte Bardot, que atua em resgate, proteção e campanhas de esterilização. Vegetariana convicta, chegou a doar mais de £ 90 mil (R$ 657 mil) para ajudar cães de rua em Bucareste e ameaçou se mudar para a Rússia após um zoológico francês negar tratamento a dois elefantes doentes.
Apesar da carreira humanitária, sua imagem se viu novamente cercada por polêmicas. Em 2004, foi condenada por incitação ao ódio racial em um livro, e seu apoio à extrema direita francesa, especialmente à candidata Marine Le Pen, reacendeu debates sobre sua figura pública.
— Bardot é Bardot — disse a escritora Marie-Dominique Lelièvre, amiga próxima. — Ela desafia qualquer definição.
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