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Uma conversa que não pode esperar. Maria Helena, personagem fictícia de 62 anos, imaginava que a aposentadoria traria mais tempo para descansar, viajar e cuidar dos próprios projetos. A vida, no entanto, tomou outro rumo. Sua mãe, aos 89, passou a precisar de ajuda frequente: consultas médicas, horários de remédios, adaptações em casa e companhia nas tarefas do dia a dia.
Em meio a essa nova rotina, surgiu uma pergunta: “Quem vai cuidar de mim quando chegar a minha vez?” A situação é fictícia, mas já faz parte da rotina de muitas famílias brasileiras. Mulheres e homens que trabalharam, criaram filhos e ajudaram os pais começam, depois dos 50 anos, a olhar para o próprio envelhecimento com mais atenção.
Falar sobre uma possível perda de autonomia não é simples. O assunto desperta medo, desconforto e, às vezes, a sensação de que estamos antecipando um problema. Mas planejar é muito melhor do que esperar. Planejamento significa aumentar as chances de continuar fazendo escolhas, mesmo quando alguma ajuda se tornar necessária. Assim como organizamos a aposentadoria, cuidamos da saúde e pensamos onde gostaríamos de morar, também podemos conversar sobre como desejamos ser cuidados no futuro.
Brasil envelhece rapidamente
O envelhecimento da população brasileira deixou de ser uma previsão distante. Segundo as Projeções da População do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de pessoas com 60 anos ou mais passou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023. Em 2070, poderá chegar a 37,8% da população.
Nesse mesmo período, o número médio de filhos por mulher caiu de 2,32 para 1,57. Na prática, teremos proporcionalmente mais pessoas idosas e menos familiares disponíveis para oferecer apoio. As famílias também assumiram novos formatos. Há mais pessoas vivendo sozinhas, casais sem filhos, parentes que moram longe e adultos que precisam conciliar o cuidado dos pais com trabalho, filhos e a própria saúde.
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Durante décadas, grande parte dessa responsabilidade recaiu sobre as mulheres. A desigualdade continua presente. Em 2022, elas dedicaram, em média, 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Entre os homens, a média foi de 11,7 horas, segundo o IBGE.
Planejar é fundamental
Pensar nos cuidados futuros é fundamental. Quanto antes expressamos nossas preferências, maior a possibilidade de que elas sejam respeitadas. Esse planejamento pode começar com decisões simples:
Verificar se a casa é segura e pode ser adaptada, manter documentos médicos, financeiros e pessoais organizados, conhecer os serviços de saúde e assistência social disponíveis na cidade, conversar sobre quem poderia ajudar em uma emergência;- fortalecer vínculos com familiares, amigos, vizinhos e a comunidade.
Também é preciso cuidar da saúde, garantindo funcionalidade ao longo dos anos. Atividade física adequada, alimentação equilibrada, acompanhamento das doenças crônicas, sono de qualidade e convivência social estão entre os elementos associados a um envelhecimento mais saudável.
O custo do cuidado
É comum planejar quanto será necessário para manter a casa e pagar as despesas depois da aposentadoria. Pouca gente, porém, inclui nas contas um possível período de maior dependência.
Dependendo das necessidades de cada pessoa, podem surgir gastos com cuidadores profissionais, fisioterapia, medicamentos, adaptações na residência, equipamentos de apoio, transporte acessível ou atendimento domiciliar.
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Não existe uma idade para iniciar esse planejamento. Para quem já passou dos 50, contudo, este pode ser um bom momento para conhecer os custos existentes na própria cidade, rever o orçamento e conversar com profissionais de saúde, planejamento financeiro e direito sobre as alternativas disponíveis. O objetivo não é tentar prever cada despesa. É reduzir a chance de que decisões importantes precisem ser tomadas às pressas, durante uma internação, uma queda ou outra situação de crise.
Cuidar do futuro começa no presente
Viver mais é uma conquista. Mas a longevidade também nos convida a pensar em novos arranjos familiares, financeiros e sociais.
Planejar os cuidados futuros não é sinal de pessimismo, nem uma tentativa de controlar tudo o que virá. É uma maneira de proteger a própria autonomia e de facilitar a vida das pessoas que poderão caminhar ao nosso lado.
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Talvez a pergunta não seja apenas “quem vai cuidar de mim?”. Mas: “O que posso fazer hoje para continuar participando das decisões sobre a minha própria vida?”





