Rachaduras na alma

Por Maya Santana
Cansei das rezas, das benzações, das meditações, das comunhões...

Cansei das rezas, das benzações, das meditações, das comunhões…

Déa januzzi

Cansei. De lutar contra a maré. Do café pequeno, da mesmice de todo dia. Cansei de chorar pelo que não tem mais jeito e de rir sem motivos, do humor negro dos modernos. Cansei até de ir ao japonês para ver os novos urbanos tomando sakê e destilando veneno. Cansei de mergulhar o sashimi na raiz forte wasahi, para ver se chego um pouco mais perto dos monges.

Cansei. De ver os eternos burgueses clamando por uma vida alternativa, com meditação e porres mágicos que não vão levar ao céu na terra. Cansei dessa fala inútil misturada com vinho. Desse faz de conta que é verdade. Cansei de punir a mim mesma, de me flagelar, do discurso de ser feliz sozinha. Cansei dessa conversa mole de viver num mundo impossível, com o molho fashion do vazio, das panelas que cozinham a amargura com temperos exóticos. Cansei dos lençóis com ideogramas que não traduzem os desencontros do amor. Cansei de ver jovens sem futuro, desfilando pelas ruas da exclusão, da miséria misturada a shoppings paradisíacos, com promessas de consumo insuportavelmente Victoria Secret, um perfume doce, enjoativo, indigesto, que impregna o ar. Cansei de inspirar para ver se chego mais perto do cheiro de mato, de cachoeira, de flor e de gente. Cansei de expirar para tirar o mofo das entranhas.

Cansei desse corpo enferrujado, que range ao acordar e amacia todas as molas ao anoitecer. Cansei de olhar as rugas do tempo no espelho do banheiro. Cansei de procurar a paz num mundo insano. Cansei de pensar na solução de um mundo insolúvel. Cansei de ver fotos de soldados de todas as nações matando em nome da paz. Cansei de ver crianças com metralhadoras nas mãos. Cansei das guerras, das guerrilhas, dos incêndios em ônibus, cansei dessa Copa do Mundo, desse tom verde e amarelo que invade os meus dias e noites e desfralda bandeiras no mastro da ilusões.  Cansei desse crepúsculo que tinge o meu olhar de medo.

Cansei de imaginar que os filhos podem ser felizes com um diploma na parede. Cansei de me embriagar de esperança, de palavras inúteis como preconceito, vergonha, medo, poder, hierarquia, pobreza, liberdade, distribuição de renda, reforma agrária, segurança, governo, esquerda e direita. Cansei de tentar ser normal, de compreender as insuportáveis explicações dos seres humanos. Cansei de dizer ao meu filho que o mundo tem jeito, que existe amanhã. Cansei de ouvir ordens para que eu crie o meu filho todo certinho, bonitinho, magrinho, comportadinho, igualzinho a todo mundo.

Cansei de pregar sozinha no deserto, de falar o que ninguém mais quer ouvir, de dizer que o presente é melhor do que o passado. Cansei de tentar unir a família que acusa o tempo todo o outro de ser culpado por seus males. Cansei de falar de perdão num mundo que não quer nada mais do que o poder de julgar o outro.

Cansei do preconceito dos negros, dos brancos, dos índios, dos homossexuais, cansei dessas drogas legalizadas, vendidas aos montes e com receita médica contra apatia, depressão. Cansei de nomear angústia como bipolaridiade, cansei dessa história de transtorno de humor, de medicar a dor. Cansei dos sem-coração, dos sem-alma, dos sempre magoados. Cansei de ficar ajoelhada, pedindo desculpas. Cansei dos filósofos que morrem sem encontrar o motivo da existência. Cansei de imobiliárias, de não ter onde morar, de fechar o mês com as contas mal pagas e perdidas num turbilhão de necessidades.  Cansei de  ver essa multidão de carros, e prédios que amanhecem e dormem em obras, ao som de serras elétricas. Cansei dessa cidade que não tem nada para oferecer, a não ser sirenes abertas na madrugada de Deus.

Cansei da vida enviezada, virada do avesso. Cansei de quem não sabe do cansaço da alma. Cansei das rezas, das benzações, das meditações, das comunhões, da droga da boa intenção. Cansei dos artistas da televisão, das enfadonhas loiras apresentadoras de sempre. Cansei de esperar que a esquerda faça alguma coisa por este País. Cansei da direita que sempre impede que alguma coisa aconteça, cansei dessa bobagem de direita e esquerda. Cansei da dose certa, da melhor receita, do cabernet sauvignon.

Cansei de fórmulas de viver bem. Um dia, o café é bom, no outro faz mal para a saúde. Ovo sem gema é melhor. Fibras para que te quero? Das carnes nuas e cruas, sempre congeladas nas prateleiras dos supermercados.  Cansei de saber que as pessoas precisam de tão pouco, mas querem sempre mais e mais. Cansei de dizer ao meu filho que eu vou parar de beber, de fumar, que eu vou fazer ginástica, morar em Shangrilá, para curar as rachaduras da alma, que eu vou ser outra pessoa.

Não, eu sou essa pessoa partida, que não está em lugar nenhum, mas que pode escrever poemas enormes em rolos de papel higiênico, de pão, em restos de folhas, em cadernos já cheios de anotações, em pedacinhos de folha. E acordar com a caretice estampada no espelho do banheiro, a denunciar os sulcos na alma, as rugas no canto dos olhos, a flacidez do coração, a velhice entrando sem pedir licença. Cansei! 


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4 Comentários

monica 21 de maio de 2014 - 16:26

Nossa que maximo parabens me identifiquei com tudo o que escreveu só não diaga que cansou tb do meu elogio nossa que legal ameiiiiiiiiiiiiiiii

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Dirce Saleh 18 de maio de 2014 - 15:10

Excelente seu texto Dea Januzzi,
Rachaduras na alma só mesmo depois de uma exaustão dessa, pois tudo em nome da alma é o que se ouve falar
Pariu, artista? E o que há de ser de nós? Que não temos uma coragem como a sua Rasgar o verbo e proclamar :Cansei. Com essa ganhou sua aforria…Liberdade que ainda tardia rs!
Não sei até quando o mundo ainda vai aquentar,mas penso que não demora para que todos teham coragem de fazer o mesmo que você,,,Cansamos.
Parbéns
Dirce Saléh

Responder
Dirce Saleh 18 de maio de 2014 - 15:06

Excelente seu texto Dea Januzzi,
Rachaduras na alma só mesmo depois de uma exaustão dessa, pois tudo em nome da alma é o que se ouve falar
Pariu, artista? E o que há de ser de nós? Que não temos uma coragem como a sua Rasgar o verbo e proclamar :Cancei. Com essa ganhou sua aforria…Liberdade que ainda tardia rs!
Não sei até quando o mundo ainda vai aquentar,mas penso que não demora para todos terem coragem de fazer o mesmo que você,,,Cançamos.
Parbéns
Dirce Saléh

Responder
sirlene pereira dos santos gonçalves 17 de maio de 2014 - 23:31

Maravilhoso e belo ,”parabéns” lindo.

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