fbpx

Recebo a primavera renovada, refeita do inverno

Por Maya Santana

 Eu proclamo: viva a primavera no coração dos homens.

Eu proclamo: viva a primavera no coração dos homens

Déa Januzzi

Com o que existe de mais nobre em mim e a serenidade das flores do campo; com a altivez dos girassóis e a beleza de um campo de margaridas; com a alma de canceriana e a Lua no signo de Aquário; com o corpo em Vênus, a carícia de Júpiter e as asas de Netuno; com os olhos de lince e o cheiro de incenso; com o tapete de folhas caídas e a reza atrasada; com todos os meus ais e tentações; com a cabeça virada e todos os pecados a cometer, recebo a primavera, inteira, renovada, refeita de um inverno que não veio.

Com o calor das manhãs que moram dentro de mim e muitas madrugadas que ainda me enchem de mistério e da profana sensação de bem-estar; com a poesia que ainda respira; com aquellos ojos verdes, serenos como um lago, de um bolero cantado pelo cubano Ibrahim Ferrer; com as chagas de Cristo; com o fogo dos amantes depois da chuva de gelo; com o gosto majestoso de mel com gengibre, com a tsunami do meu peito, cujas ondas arrebentam de emoção; com o meu senso desnorteado de Justiça, a alegria de Luiza e a inquietação de Gabriel, cujos cabelos revoltos voam para o vento Leste; com brasas sob os meus pés, eu digo: bem-vinda primavera!

Com o gosto de um beijo e o milagre do vinho e do pão; com a febre de mais de 40 graus incendiando o meu corpo; com o meu cabelo embolado; com a força das mães; com a delicadeza que ainda possa existir no mundo e as sinfonias de Bethoven; com a areia do tempo e as tábuas da salvação; com os termômetros de Deus e as estações enlouquecidas, com alto teor alcóolico para espantar a caretice, e com os ipês em profusão, eu saúdo a primavera.

Com os restos mortais do governo e a raiva explodindo no peito; com o amor arrepiando o meu corpo; com as portas abertas do universo, as idiossincrasias e coincidências de todos os dias; com o tédio que escorre, em lágrimas, pelo canto dos olhos e com o beco sem saída; com os dedos em riste e um cheiro novo gotejando pelo corpo, eu proclamo: viva a primavera no coração dos homens.

Com os olhos pintados de crayon, com a saia de sete voltas e o perfume Angel que tem o mesmo perfume dos anjos, com o cabelo arrepiado da vida e a pele bronzeada de sereno; com o cajado de Gislaine D’Assumpção, com o pôr-do-sol do Shangrilá, com a fogueira do bem que insiste em permanecer acesa, com o tédio das novelas e os jardins de Magui; com o silêncio dos monjes e as flores que brotam na caverna dos meus dias à procura de luz, celebro a primavera.

Com a garrafa de vinho que soltou da minha mão e se esparramou pelo chão para lembrar os percalços da idade; com a blusa chinesa que eu comprei numa mercearia e que todos gostaram; com o grito de solidão dos velhos que, neste momento, estão em cárcere doméstico, privados de alegria; com os dentes bambos e a alma lavada, com o pão de cada dia e a saudação Aho, que é o mesmo que Amém e que Namastê, com o terço nas mãos e o pensamento bem longe; com o mantra da compaixão repetido sem parar e com a camisa de força, a rosa mística de Nossa Senhora e com estrelas acesas no coração, eu digo sim à primavera da vida.

Com as dádivas de Nanã, minha velha protetora e a dança de Iansã, que me põe em polvorosa; com o fogo que crepita na tumba dos faraós e a despedida do inverno que leva junto o azarado mês de agosto; com a recordação intacta do céu de abril e o vociferar da tempestade; com o segredo das múmias, o formato das pirâmides e a altivez das esfíngies; com os canteiros cultivados do meu ser, eu abro as portas da primavera para derrubar os galhos secos da natureza de cada um.

Com os jardins de ervas daninhas e a dor dos jovens que crescem num terreno nada fértil; com os acordes de Vivaldi e o meu passado perdido; com o ensurdecedor silêncio da madrugada e a minha morada sempre provisória; com todos os sonhos que estão desabrochando e com o decreto de dias melhores, com os trovões que lembram o som de tambores, com as velas acesas da compaixão e a esperança nascendo em meus braços, digo: bom dia, primavera!

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

dezenove + seis =

2 Comentários

Avatar
Maria da Conceição Ribeiro Moreira 13 de setembro de 2014 - 18:48

Déa, como sempre, você revela-se abençoada e abençoando-nos com suas palavras.
Grande abraço e pedidos a Deus para lhe dar vida longa e $audável.

Responder
Avatar
EROS JANUZZI 13 de setembro de 2014 - 17:57

DÉA, texto muito bonito. chega a doer na alma. parabéns!!!!!!!!!!!!

Responder